A SEMENTE E O ESCRITO.
- Carlos A. Buckmann
- 9 de jul. de 2025
- 3 min de leitura

A SEMENTE E O ESCRITO.
Passei boa parte da vida escrevendo sobre gestão de pequenas empresas. Cada parágrafo, uma planilha disfarçada de parágrafo; cada crônica, um plano de ação com perfume de literatura. Sempre acreditei, e ainda acredito, na dignidade silenciosa de quem levanta uma pequena porta de ferro todos os dias, limpa o balcão, confere o estoque e faz da rotina um rito de sobrevivência. Durante esses anos, mergulhei com afinco nesse ofício: escrever sobre gestão de pequenas empresas. Escrevia sobre fluxo de caixa, liderança horizontal, estratégias de marketing de bairro e a importância de um bom plano de negócios. E não me arrependo: há dignidade e beleza em ajudar o pequeno empreendedor a manter seu barco flutuando em mares revoltos. – E não pretendo parar.
Mas então, entre um livro de marketing e outro de filosofia que insisto em ler diariamente no silêncio das madrugadas, reencontrei uma antiga frase atribuída a Sócrates, que foi registrada por Platão, no diálogo Fedro:
“Os escritos, meu caro Fedro, assim como toda a arte, não devem ser estéreis, mas, sim, conter sementes em si que poderão produzir outras sementes em outras almas, permitindo assim, que elas se tornem, verdadeiramente imortais.”
Ali, naquele instante, não li uma citação, ouvi um chamado. Uma espécie de despertamento sereno, como se um velho amigo me dissesse: “Está na hora de parar de apenas medir resultados e começar a semear consciências.” O cálculo, por mais apurado, nunca bastará para medir o valor de uma alma iluminada.
Desde então, tornei-me outro, ou talvez o mesmo, porém mais desperto. Compreendi que a escrita pode ser mais do que um instrumento funcional; pode ser uma ponte entre a razão e o espírito, entre o agora e o eterno. Se é verdade que a gestão eficiente sustenta a empresa, é igualmente certo que a filosofia sustenta o ser.
Vi-me na companhia dos que também viveram esse instante de lucidez. Agostinho, ao escrever suas Confissões, já não buscava apenas um Deus, mas também um espelho. Montaigne, ao se trancar em sua torre para escrever seus Ensaios, não queria ensinar, mas entender-se, e, ao fazê-lo, deixou em cada leitor uma pequena fresta aberta para o autoconhecimento. Hannah Arendt, quando refletiu sobre a banalidade do mal, não pretendia resolver o mundo, mas oferecer uma lanterna a quem, no escuro, tateia pela ética.
Até escritores de outros tempos, menos sóbrios, como Bukowski, em meio a sua crueza, deixaram sementes entre os cacos. E Camus, ao afirmar que “o verdadeiro drama da filosofia é o suicídio”, sabia que falar da vida era sempre mais urgente do que analisar seu custo-benefício.
Assim, deixei o Excel descansar um pouco, não muito, que ninguém vive só de ideias, e abri espaço para que o verbo se tornasse semente. Escrevo agora com a esperança de que estas palavras, mesmo se jogadas ao acaso, encontrem solo fértil em alguma mente inquieta, faminta por sentido, cansada da espuma rasa das redes e dos ruídos sem alma.
Aprendi que quem escreve, mesmo que não saiba, participa de uma espécie de agricultura metafísica: planta frases como quem espalha esperanças. Algumas palavras germinarão de imediato; outras, décadas depois. Algumas serão ignoradas, como sementes jogadas em asfalto. Mas haverá aquelas que brotarão em silêncio, mudando discretamente o destino de uma vida.
E se, por acaso, eu não for lido? - Já me perguntei. Ora, paciência. Sempre haverá um algoritmo ou um anjo da guarda que fará com que uma crônica encontre quem precise dela.
Pois como diria Sócrates, se as palavras forem férteis, darão frutos. E se não derem… bem, pelo menos eu fiz a minha parte e economizei no adubo.
Beto Buckmann
Crônicas entre ideias e pólvora.




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