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A SABEDORIA EM ATOS

  • Carlos A. Buckmann
  • 9 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

A SABEDORIA EM ATOS

            Observo, às vezes, os animais.

            Vejo o filhote que brinca sem saber que brinca; o adulto que caça, acasala, defende seu território, tudo guiado por instintos que não se perguntam sobre o tempo. E o velho cão, que já não late com vigor, mas repousa sob a sombra da mesma árvore onde, anos antes, perseguia borboletas. Ele não lamenta o passado, nem teme o fim. Vive, e basta. 

            O ser humano, porém, é outro enigma.

            Sua infância é curiosidade sem consciência do tempo; sua adolescência, paixão sem medida; sua idade adulta, ação sem pausa.

            Mas a velhice, ah, a velhice! é a única fase em que o tempo se torna visível, tangível, quase um companheiro de mesa.

            E é nela que o ser humano, diferentemente dos animais, não apenas envelhece: relembra, interpreta, transmite.

            Porque somos os únicos seres que carregam dentro de si uma biblioteca de memórias, algumas luminosas, outras sombrias, que moldam não apenas quem fomos, mas quem somos até o último suspiro.

            Há fatos que, vividos na juventude, ecoam na alma por décadas: um gesto de perdão não dado, um amor não confessado, uma coragem adiada. São feridas ou bênçãos que não cicatrizam, habitam.

            Foi pensando nisso que reli, nestes dias de outono interior, o pequeno e poderoso tratado de Cícero: “Sobre a Velhice”.

            Escrito quando o orador romano já sentia o peso dos anos, o texto é uma defesa apaixonada contra a visão comum de que envelhecer é decair. Para Cícero, a velhice não é o crepúsculo da vida, mas seu fruto mais maduro. Nela, a mente se liberta dos ardores da carne, dos impulsos da ambição, e pode, enfim, dedicar-se à contemplação, à sabedoria, à transmissão. “A velhice tem seus prazeres próprios”, escreve ele, “e não são poucos.” E mais: “Se a velhice fosse algo ruim em si mesma, também o seria para os deuses, pois todos os que os imaginamos são velhos.”

            A psicologia contemporânea, em sua sensibilidade mais humana, corrobora essa visão.

            Erik Erikson, em sua teoria dos estágios psicossociais, coloca a velhice diante de um dilema existencial: “integridade versus desespero”. Ou o idoso integra sua vida numa narrativa coerente, aceitando suas escolhas e limites, ou sucumbe ao desespero de um tempo mal vivido.

            Já Carl Jung via a segunda metade da vida como o momento em que o indivíduo deve voltar-se para o interior, buscar a individuação, a plenitude do ser.             Do lado da psiquiatria, figuras como Viktor Frankl lembram que, mesmo na velhice e na doença, o ser humano pode encontrar sentido: “Tudo pode ser tirado de um homem, menos uma coisa: a liberdade de escolher sua atitude diante de qualquer circunstância.”

            A filosofia moderna, por sua vez, não se cala diante da velhice.

            Simone de Beauvoir, em “A Velhice”, denuncia a exclusão social dos idosos, tratados como inúteis num mundo que idolatra a juventude e a produtividade. Mas também resgata a possibilidade de uma velhice ativa, pensante, ética.

            Já Byung-Chul Han, em tempos de culto à performance, vê na velhice uma resistência silenciosa: é o tempo da desaceleração, da contemplação, da recusa ao imperativo de “ser sempre mais”.

            Foucault, ao estudar as práticas de si na Antiguidade, mostra que envelhecer era, para os gregos e romanos, o ápice da formação ética, o momento em que se podia, finalmente, viver de acordo com a sabedoria conquistada.

            É nesse solo fértil que a psicofilosofia planta suas sementes. Para ela, a velhice não é um problema a ser gerenciado, mas um “campo de sentido” a ser cultivado. A psicofilosofia não se limita a aliviar a solidão do idoso ou a tratar sua depressão (embora isso seja necessário); ela o convida a “reler sua própria história com olhos de sabedoria”. Usa o diálogo socrático para ajudá-lo a transformar memórias em legado; emprega a fenomenologia para que ele habite seu corpo envelhecido sem vergonha; recorre à ética estoica para ensinar que a serenidade não depende da força física, mas da clareza interior. A velhice, nessa perspectiva, é o momento em que a alma pode, enfim, falar, não para se justificar, mas para iluminar.

            Numa sociedade que esconde os velhos em asilos ou os transforma em caricaturas nas redes sociais, a psicofilosofia é um ato de resistência. Ela nos lembra que envelhecer não é perder, mas concentrar. Que a sabedoria não está nos músculos, mas na capacidade de dizer, com serenidade: “Vivi, errei, amei, aprendi, e ainda tenho algo a oferecer.”

            Não temamos a velhice. Preparemo-nos para ela como se prepara um jardim, com paciência, cuidado e esperança.

            E, sobretudo, honremos os velhos não com piedade, mas com escuta.

             Porque cada ruga é um sulco onde o tempo escreveu uma lição. E talvez, ao lermos essas lições com atenção, aprendamos não apenas a envelhecer, mas a viver, verdadeiramente, até o último instante.

            Afinal, como diria Cícero, se a velhice é ruim, então a própria vida o é.

            E não acredito nisso.

            Acredito que a vida só se completa quando, na maturidade, somos capazes de amar o que fomos, e de entregar, com generosidade, o que aprendemos.

            Basta que nos aceitem.

 
 
 

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