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A RODA QUE NOS CARREGA

  • Carlos A. Buckmann
  • 18 de jun.
  • 5 min de leitura

A RODA QUE NOS CARREGA (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MOB)

            Francisco Buarque de Hollanda nasceu em 1944, no Rio de Janeiro, num lar de intelectuais: o pai, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, e a mãe, a pintora Maria Amélia.

            Aos quinze anos, já compunha canções que demonstravam uma maturidade precoce. Estudou arquitetura por três anos, mas a música, a poesia e o teatro o convocaram com mais força.

            Durante a ditadura militar, Chico tornou-se uma voz incômoda. Exilou-se na Itália em 1969, mas continuou produzindo uma obra que, como poucas, dialoga com o Brasil profundo sem perder a sofisticação intelectual. Suas letras são cortantes e doces, irônicas e doloridas, sempre com uma precisão de ourives.

            Escolher uma única canção de Chico Buarque para filosofar é como tentar abraçar o mar com as mãos. Temos “Construção”, com sua crítica visceral à alienação do trabalhador e sua estrutura sonora perfeita, “amava, amava, amava, amava, amava...”, onde o amor e o trabalho se confundem num ciclo de repetição quase kafkiano. “Cálice”, que transformou a censura em liturgia, e o “pai, afasta de mim esse cálice” numa oração subversiva sobre a opressão política. “Apesar de Você”, hino de resistência contra o “amanhã” que teimava em não chegar. “O Que Será”, com sua pergunta metafísica sobre o desejo que nos atravessa como um “anonimato que ninguém segura”. 

            Mas optei inicialmente por “Roda Viva” para a trilogia de Chico, não por ser mais filosófica, mas porque ela condensa uma das perguntas mais antigas da humanidade: o que fazemos quando percebemos que não somos os senhores do nosso destino?

            “Tem dias que a gente se sente / Como quem partiu ou morreu / A gente estancou de repente / Ou foi o mundo então que cresceu”

            Há momentos em que a vida parece ter nos deixado para trás, não que tenhamos parado, mas que o mundo, esse leviatã de concreto e acontecimentos, acelerou de tal forma que ficamos obsoletos.

            Será que o mundo cresceu, ou foi nossa potência que murchou?

            Espinosa, que entendia a alegria como aumento da capacidade de agir, veria nesse “estancar” uma diminuição ontológica, a tristeza de quem, sem saber como, tornou-se espectador de si mesmo.

            “A gente quer ter voz ativa / No nosso destino mandar / Mas eis que chega a roda-viva / E carrega o destino pra lá”

 

            O homem moderno, herdeiro do Iluminismo, acreditou que a razão poderia dominar o acaso. Sartre, que nos condenou à liberdade, jamais imaginou que essa liberdade pudesse ser anulada por uma força tão anônima.

            A “roda-viva” não é um deus pagão, nem o destino grego, é mais parecida com a “vontade” de Schopenhauer, um impulso cego e irracional que movimenta o mundo sem pedir licença.

            Queremos mandar, planejar, construir; mas a roda chega e leva o projeto, a relação, o emprego, a saúde. Ela não tem rosto, não negocia. Ela apenas gira.

            “Roda mundo, roda-gigante / Rodamoinho, roda pião / O tempo rodou num instante / Nas voltas do meu coração”

            Esta é a única estrofe que se repete, como um mantra, e por isso é o coração da canção.

            O tempo não é linear, é circular, como o eterno retorno de Nietzsche. Mas, ao contrário do que pensava o filósofo alemão, não é uma repetição que afirma a vida; é uma repetição que desgasta.

            A roda gigante, o pião, o rodamoinho, todos giram, mas nenhum leva a algum lugar. É o tempo da angústia, o tempo que não passa porque já passou, e o coração, esse órgão metafísico, é o centro do redemoinho. O que será que fica após tanta rotação? Talvez, apenas a consciência de que giramos.

            “A gente vai contra a corrente / Até não poder resistir / Na volta do barco é que sente / O quanto deixou de cumprir”

            Nadar contra a corrente é a metáfora do herói romântico, do rebelde, do inconformado.

            Mas a canção é implacável: a resistência tem um limite. E, na “volta do barco”, quando a força se esgota e o rio nos leva de volta, vemos tudo o que não fizemos.

            É uma imagem que ecoa o mito de Sísifo, mas sem o sorriso de Camus, porque aqui, o que se sente não é a revolta vitoriosa, e sim a lista de tarefas incompletas. A filosofia existencialista nos ensina a viver o presente, mas a “roda-viva” nos faz habitar o passado, o arrependimento, o “e se”.

            “Faz tempo que a gente cultiva / A mais linda roseira que há / Mas eis que chega a roda-viva / E carrega a roseira pra lá”

            Cultivar uma roseira é um gesto de esperança, é acreditar que a beleza pode ser domesticada, que o amor pode florescer no quintal da vida. Mas a roda-viva não distingue o belo do feio; ela carrega tudo. É a indiferença do universo, que já foi cantada por Pascal quando este escreveu que “o silêncio eterno destes espaços infinitos me apavora”.

            A roseira pode ser um projeto artístico, uma relação, um sonho de infância. A roda a leva, e o jardineiro fica com as mãos vazias, com a terra ainda fresca nas unhas.

            “A roda da saia, a mulata / Não quer mais rodar, não senhor / Não posso fazer serenata / A roda de samba acabou”

            A mulata não quer mais girar a saia, o samba acabou, a serenata não se sustenta. A vida festiva, que parecia inesgotável, também é levada.

            Para Chico, a perda não é apenas urbana, é ontológica. O corpo que não dança, a música que silencia, o riso que se cala. A roda-viva não destrói apenas sonhos; destrói o próprio movimento da vida.

            “O samba, a viola, a roseira / Um dia a fogueira queimou / Foi tudo ilusão passageira / Que a brisa primeira levou”

            A fogueira que queima, talvez a paixão, talvez a guerra, talvez o mero acaso; a brisa primeira que leva o esquecimento, a indiferença do tempo. Tudo é ilusão passageira, e essa frase, que poderia ser budista ou cética, não é dita com resignação, mas com melancolia. Chico não canta a vaidade; canta a perda do que era belo. A brisa não é cruel; ela é apenas brisa. A ilusão não era engano; era tudo o que tínhamos.

            “No peito a saudade cativa / Faz força pro tempo parar / Mas eis que chega a roda-viva / E carrega a saudade pra lá”

            A saudade, sentimento exclusivo em nosso idioma é, talvez, o sentimento mais humano, ela quer parar o tempo, congelar o instante da perda. Mas a roda-viva não obedece à saudade; ela a carrega também, como carregou a roseira, a viola, o samba.

            A filosofia, que prometeu desvendar o mundo, entrega apenas ferramentas para compreender a roda, não para pará-la.

            Talvez seja isso a sabedoria: aceitar que giramos, que o tempo rodou num instante nas voltas do nosso coração, e que o que importa não é o destino, mas a canção que cantamos enquanto a roda nos carrega.

            Chico, esse artífice das palavras, nos deu a melodia para isso.

            Esse cronista, agora, só pode ouvir e escrever, mesmo sabendo que, daqui a pouco, outra roda levará este texto, este pensamento.

            Esta vida.

(*) Assista o clipe no YouTube:

 

 

 
 
 

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