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A RELAÇÃO ENTRE O SABER E O PODER

  • Carlos A. Buckmann
  • 11 de jun. de 2025
  • 4 min de leitura

A RELAÇÃO ENTRE O SABER E O PODER

            O crepúsculo da ignorância, quando se instala na alma humana, imprime-lhe uma couraça de rudeza e estreiteza de espírito, impedindo que ela floresça no terreno fértil da razão. Há uma brutalidade silenciosa na ausência do saber, um desamparo intelectual que, ao invés de enobrecer, enrijece o indivíduo, privando-o da delicadeza do discernimento e da capacidade de perceber a vastidão do mundo para além das sombras que lhe são impostas pela ignorância. O homem, quando privado da reflexão e do conhecimento, torna-se presa de seus instintos mais primitivos, refém de dogmas e preconceitos que amesquinham a existência e perpetuam os ciclos do obscurantismo.

            A ignorância é uma névoa espessa que encobre o horizonte da razão, impedindo o indivíduo de enxergar com clareza as nuances da existência. Sem o saber, a mente humana permanece confinada em um labirinto de impulsos primitivos, onde a selvageria se impõe sobre a civilidade e o instinto sobre a reflexão. É o conhecimento que afasta as trevas do espírito e permite que o homem transcenda sua natureza bruta, encontrando no entendimento a verdadeira liberdade. Afinal, não é na força, mas na lucidez, que reside a grandeza do ser humano. É sobre essa jornada, do caos à iluminação, que a reflexão de Francis Bacon nos conduz.

            Francis Bacon, em sua obra Da Proficiência e o Avanço do Conhecimento Divino e Humano, expressa uma máxima incontestável: “O saber afasta a selvageria, o barbarismo e a ferocidade da mente humana.” Bacon, filósofo e estadista do século XVII, foi um dos grandes precursores do empirismo, sustentando que o conhecimento deveria ser pautado na observação e na experimentação. Sua busca por uma ciência mais metódica e sua oposição às vãs especulações da escolástica fizeram dele um dos pilares do pensamento moderno. Para Bacon, a ignorância não era apenas um obstáculo individual, mas um entrave coletivo à civilização, pois uma sociedade guiada pela irracionalidade e pelo desconhecimento tornava-se presa de fanatismos, injustiças e desordens.

            A relação entre saber e poder é uma das mais complexas e intrigantes da história da humanidade. Michel Foucault, um dos grandes pensadores do século XX, dedicou boa parte de sua obra à análise dessa dialética, demonstrando como o conhecimento não é apenas uma ferramenta de emancipação, mas também um instrumento de dominação.

            O saber, quando genuíno e livre, liberta o indivíduo da servidão intelectual, permitindo que ele compreenda sua realidade, questione normas e reinvente caminhos. No entanto, quando monopolizado e direcionado, pode ser utilizado como um mecanismo de controle, moldando percepções e comportamentos conforme os interesses daqueles que o detêm. Foucault argumenta que toda estrutura de poder está intrinsecamente ligada ao conhecimento produzido e disseminado em determinado período histórico. As instituições, desde escolas até governos, utilizam o saber para estabelecer normas, definir o que é aceitável ou não, e perpetuar determinadas ideologias.   A relação entre saber e poder é uma das mais complexas e intrigantes da história da humanidade. Foucault, dedicou boa parte de sua obra à análise dessa dialética, demonstrando como o conhecimento não é apenas uma ferramenta de emancipação, mas também um instrumento de dominação.       

            Esse princípio reverbera até hoje, na vida do indivíduo, na sociedade e no mundo dos negócios. O homem que cultiva o saber enriquece não apenas a própria jornada, mas também a dos que o cercam. Empresas e instituições que se fundamentam na pesquisa e no aprendizado constante são aquelas que prosperam, afastando-se do caos causado pela desinformação e pela tomada de decisões impensadas. O conhecimento, assim, torna-se um escudo contra a decadência e um farol para o progresso.

            Outros grandes pensadores, como Pierre Bourdieu e Antonio Gramsci, também exploraram essa conexão. Bourdieu analisou o "capital cultural" e como o acesso ao conhecimento reforça desigualdades sociais, enquanto Gramsci, com sua teoria da hegemonia, revelou como as elites utilizam ideias e valores para manter sua influência sobre a sociedade.

            Sócrates, com sua célebre afirmação “Só sei que nada sei”, instigava a busca incessante pelo saber como instrumento de aperfeiçoamento da alma e da sociedade. Kant, por sua vez, pregava que o esclarecimento seria o caminho para a autonomia da razão, libertando a humanidade da menoridade intelectual.

            Refletindo sobre a importância do saber, posso afirmar que a ignorância é um fardo, e o conhecimento, um voo. Afinal, se a sabedoria nos eleva, não há por que permanecer rastejando na escuridão. Porque, parafraseando o próprio Bacon: uma mente iluminada tem menos chance de tropeçar nos móveis da ignorância!

            A sociedade atual exemplifica bem essa relação: a informação, acessível em um nível nunca antes visto, pode ser uma ferramenta de autonomia ou um meio de manipulação. Empresas e governos detêm dados e algoritmos capazes de influenciar decisões individuais, desde compras até posicionamentos políticos. Assim, o saber se torna uma moeda valiosa, e seu controle, um campo de disputa constante.

            Dessa forma, compreender essa dialética é essencial para quem deseja navegar no mundo contemporâneo com consciência e criticidade. Como diria Foucault, o poder não apenas impõe regras, mas define o que pode ou não ser pensado e, talvez, essa seja sua estratégia mais sofisticada.

 

 
 
 

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