A REDE E A BÊNÇÃO
- Carlos A. Buckmann
- 23 de mai.
- 4 min de leitura

A REDE E A BÊNÇÃO(*)
(Dá série A FILOSOFIA NA MPB)
Há um lirismo que não nasce nos salões, mas na beira do mar, onde a jangada é mais casa do que madeira.
Edu Lobo, nessa canção de 1965 que estourou com Elis Regina, não canta a paisagem turística; canta a vida simples do pescador. Um homem que acorda antes da luz, que olha o horizonte como quem interroga um oráculo, e que lança a rede não por esporte, mas porque dentro de casa há bocas que pedem.
A MPB, nessa época, já mostrava que a filosofia pode vir no balanço de uma jangada e no ARRASTÃO.
“Eh! tem jangada no mar”
A jangada é um ser-no-mundo, diria Heidegger. Não flutua por acaso; ela é extensão do corpo do pescador, sua técnica, sua tradição. O mar é o espaço de possibilidades, ora amigo, ora devorador. E o “eh!” é o grito que antecede a ação. Não há herói romântico aqui, apenas um trabalhador que confia na madeira e no vento.
“Hoje tem arrastão / Eh! todo mundo pescar”
O arrastão não é a pesca solitária; é o trabalho coletivo. É a vizinhança unida, a força que se soma. Mas também é a urgência: hoje tem arrastão porque amanhã pode não ter. A fartura é incerta, e a palavra “todo mundo” revela uma economia de sobrevivência, não de acumulação. Espinosa falaria de algo próximo: a alegria do corpo que age em comunhão aumenta a potência de existir.
“Chega de sombra João...”
Quem é João? Talvez o companheiro que hesita, que tem medo do mar alto. “Chega de sombra” é o convite para sair da inércia, da tristeza que paralisa. Sartre, na sua filosofia do engajamento, diria que o homem se faz por seus atos. O pescador não pode se dar ao luxo da sombra. A sombra não pesca.
“Jovi, olha o arrastão / Entrando no mar sem fim”
O oceano que é pura imensidão, metáfora do desconhecido. Bachelard, em “A Poética do Espaço”, falaria do mar como um devir líquido. O pescador olha o arrastão que avança, e ali está a coragem de quem enfrenta o infinito com uma rede de nós. A vida humilde é isso: medir-se com o ilimitado tendo apenas as mãos.
“Eh! meu irmão me traz / Iemanjá pra mim...”
A religiosidade emerge como âncora. Iemanjá, a mãe d’água, não é uma abstração; é a força que acalma ou que castiga. O pedido ao irmão, “me traz Iemanjá prá mim”, é o reconhecimento de que sozinho o homem não basta.
Lévi-Strauss, ao estudar o pensamento selvagem, mostrou que o mito não é mentira, é estrutura de sentido. O pescador precisa de Iemanjá como precisa do vento favorável.
“Minha Santa Bárbara / Me abençoai / Quero me casar / Com Janaína...”
O sincretismo religioso se mostra nu. Santa Bárbara, no catolicismo, é a protetora contra raios e tempestades. Janaína é a orixá das águas, outra face de Iemanjá. Casar-se com Janaína é um ato poético de entrega: o pescador não quer possuir o mar, quer fazer aliança com ele. É uma ética da convivência, não da dominação. Como diria Maurice Merleau-Ponty, o corpo é ser-no-mundo e esse mundo, para o pescador, é feminino, sagrado, vivo.
“Eh! puxa bem devagar / Hei! hei! hei! / Já vem vindo o arrastão / Eh! é a Rainha do Mar”
O movimento ritmado não é apenas para não romper a rede; é para não romper o encanto. A Rainha do Mar é quem conduz os peixes para o encontro com a morte necessária. Há uma tragédia discreta nisso: a fartura chega, mas é a fartura do sacrifício. Albert Camus, em “O Mito de Sísifo”, lembra que é preciso imaginar Sísifo feliz. Aqui, é preciso imaginar o pescador feliz enquanto tira a vida do mar para manter a sua.
“Vem! Vem na rede João / Pra mim!”
O chamado é direto, quase íntimo. João, o companheiro, o outro eu. A rede se enche, e o “prá mim” não é egoísmo; é a partilha que virá depois. O pescador não pesca só para si; pesca para a vila, para a feira, para a panela coletiva. Adam Smith, o pai do capitalismo, falava da mão invisível do mercado. Aqui a mão é visível: é a mão calejada de João.
“Valha-me Deus / Nosso Senhor do Bonfim / Nunca jamais se viu / Tanto peixe assim...”
A exclamação se repete três vezes, não é à toa. É a raridade da fartura que provoca o espanto. O pobre está acostumado à escassez. Quando o mar dá, ele quase não acredita. “Nunca jamais se viu” é a memória oral de uma comunidade que vive de milagres pontuais.
Santo Agostinho, ao pensar o milagre, não o via como violação das leis naturais, mas como desvelamento de uma ordem maior. Para o pescador, o cardume é um sinal de que o divino ainda se lembra dele.
Edu, num festival de televisão, apresentou essa jangada lírica para um Brasil que começava a se perceber na sua própria música.
Não havia falsa alegria. Havia o trabalho, a luta, a prece. Havia a rede sendo puxada devagar, porque devagar se chega à vida, e depressa se perde o rumo.
“Nunca jamais se viu tanto peixe assim”.
Mas eu sei, você sabe, que a fartura é breve.
Amanhã talvez o mar esteja vazio, e os irmãos voltem de mãos vazias.
Ainda assim, o arrastão se repetirá.
Porque a filosofia da MPB, e da vida simples, é esta: lançar a rede outra vez.
E abençoar, entre o cansaço e a alegria, o nome de Iemanjá.
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