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A QUEDA QUE COMEÇA ANTES DO TOMBO

  • Carlos A. Buckmann
  • 5 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

A QUEDA QUE COMEÇA ANTES DO TOMBO           

            Há alguns anos, li sobre a Blockbuster, aquela gigante do aluguel de fitas VHS que, nos anos 1990, dominava o entretenimento doméstico. Seu colapso é quase lendário: recusou comprar a Netflix por meros 50 milhões de dólares em 2000, preferindo confiar na solidez de suas prateleiras cheias de plástico colorido. A falência não veio num único dia. Veio como um lento sangramento: perda de clientes, custos fixos insustentáveis, inovação alheia avançando sem pedir licença. Até que, de repente, não havia mais nada a salvar. 

            Esse padrão, a ruína que se arrasta por anos e depois se precipita em semanas, ecoa em tantas histórias empresariais quanto em tragédias humanas.

            Nietzsche já advertira que “quando se luta contra monstros, cuida para que não te tornes também um monstro”.

            Mas talvez mais pertinente aqui seja a lição de Taleb, em “Antifrágil”: sistemas que não se adaptam ao caos inevitavelmente sucumbem a ele. A rigidez, disfarçada de tradição ou de “jeito certo de fazer as coisas”, é muitas vezes a antessala da obsolescência.

            Nassim Nicholas Taleb, em seu livro Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o Caos (2012), propõe uma ideia revolucionária sobre como lidar com a incerteza, o risco e a volatilidade no mundo moderno. Mais do que resistir aos choques, como fazem os “robustos” ou “resilientes”, o Antifrágil ganha com eles. Ele não apenas sobrevive à desordem: floresce com ela.  

            Hemingway, com sua economia verbal quase ascética, capturou essa dinâmica de queda lenta com precisão cirúrgica. Em O Sol Também se Levanta (1926), romance que retrata a chamada “geração perdida”, jovens desiludidos após a Primeira Guerra Mundial, à deriva entre Paris e Pamplona, um diálogo breve e fulminante atravessa o tempo: 

 “– Como você faliu? 

 – De duas formas. Gradualmente e, então, de repente.” 

            Ernest Hemingway, nascido em 1899, foi jornalista, soldado, caçador e escritor cuja prosa seca escondia oceanos de subtexto. Seu livro não trata de finanças, mas de vidas esvaziadas por escolhas não feitas, por amores não confessados, por corpos que sobreviveram à guerra, mas não à paz. A falência ali é existencial e, por isso mesmo, universal. 

            Hoje, esse mesmo padrão se repete em escala micro e macro. Grandes corporações ignoram tendências digitais até que o mercado as engula; pequenos empreendedores, por orgulho ou cansaço, recusam-se a enxergar que o mundo mudou.

            Um exemplo dolorosamente atual está nas farmácias independentes do Brasil. Segundo dados do IQVIA, referentes ao MAT (Moving Annual Total) de agosto de 2025, enquanto o mercado farmacêutico nacional cresceu 12,1%, as pequenas farmácias registraram uma queda de 0,5%. 

            Não é pouca coisa. Esse decréscimo é o sintoma de um sangramento lento: concorrência acirrada de redes com poder de barganha, logística defasada, ausência de digitalização, falta de fidelização real. Muitos donos ainda acreditam que “o cliente sempre volta”, mas o cliente, hoje, compara preços no celular antes de sair de casa. A lealdade não é mais geográfica; é algorítmica. 

            Para quem hoje abre as portas de uma pequena farmácia, talvez com o coração cheio de esperança e as mãos calejadas pelo esforço, há um caminho que evita essa queda silenciosa. Começa com humildade: ouvir o cliente não como um número, mas como um ser em transformação constante. Continua com ouvir também quem tem expertise (um consultor especialista no ramo), adotar sistemas de gestão, integrar-se a plataformas de delivery, usar dados para entender o que se vende, e o que já não interessa. Exige parcerias: cooperar com outras farmácias independentes, unindo-se a um associativismo para ganhar escala na compra, compartilhar boas práticas, até criar uma marca coletiva que resista à lógica predatória das grandes redes. E, acima de tudo, exige coragem para repensar diariamente o próprio modelo, porque o que funcionou ontem pode ser o túmulo de amanhã. A falência não é destino; é consequência. E consequências podem ser evitadas quando se age antes que o “gradualmente” se torne inevitável.

            Como na Blockbuster, como nos personagens de Hemingway, a ruína vem primeiro como um sussurro, um mês com lucro menor, um fornecedor que aumenta os preços, um concorrente que entrega em 30 minutos, e depois como um grito: as contas não fecham, o aluguel vence, o caixa está vazio. 

            O mais trágico não é a falência em si, mas o momento em que os gestores finalmente abrem os olhos. É sempre tarde demais. Acordam quando o mercado já escolheu seus vencedores, quando a tecnologia já redefiniu as regras, quando o cliente já migrou para outro universo. A cegueira não é ignorância; é escolha. É a teimosia de acreditar que o mundo parou no dia em que seu negócio deu certo pela primeira vez. 

            Hemingway sabia: não se falha num instante. Falha-se todos os dias, em pequenas recusas de enxergar. E quando o “de repente” chega, já não há tempo para perguntar como. Só resta constatar que, “O sol se levanta, sim. Mas só para quem escutou o sussurro antes do grito.”

 

 
 
 

1 comentário


Marcos Roza
Marcos Roza
06 de out. de 2025

Ótimo artigo, Beto Buckmann! O melhor é sempre se reunir nas dores para alcançar vitórias constantes.

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