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A QUEDA E O ESPELHO

  • Carlos A. Buckmann
  • 29 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

A Queda e o Espelho.

A Crônica de um Planeta Revisitado

            O cinema, esse espelho côncavo e convexo da nossa existência, raramente se contenta com a epifania de uma única obra.

            Para a indústria, o sucesso não é ponto final artístico, mas algoritmo de multiplicação de lucros. A magia da narrativa original é prontamente convertida em capital serializado, numa busca incessante por estender o faturamento até que a fonte, exaurida, comece a jorrar lama. As franquias nascem desse imperativo econômico: aproveitar o êxito de uma ideia seminal para forjar cópias, spin-offs e prequelas.

            Entre tantas narrativas esticadas até a saturação, poucas conseguiram manter, ao menos em sua origem, um peso filosófico tão pungente quanto a saga do Planeta dos Macacos.

            Se os super-heróis multiplicam bilheterias e os anéis se desdobram em universos paralelos, foi ali, em 1968, que o cinema ousou transformar o entretenimento em espelho apocalíptico. Charlton Heston desembarcava num mundo onde o homem era a presa e o macaco, o senhor. O primeiro filme, adaptado do romance de Pierre Boulle, não era apenas ficção científica de aventura; era um grito de alerta envolto em celuloide.

            A imagem final, a Estátua da Liberdade semienterrada na areia, é um dos grandes “non-sense” visuais da história do cinema. Um silêncio eloquente que condensa a arrogância e o fim da civilização humana. O horror não advém dos macacos que falam e governam, mas da constatação da nossa autodestruição.

            Este apocalipse cinemático é, sinto-o profundamente, o nosso espelho distópico. Vivemos sob a sombra de um arsenal atômico que, como um gênio na garrafa, jamais deveria ter sido libertado. A proliferação de artefatos de aniquilação em massa, guardados sob a custódia de nações cujos líderes oscilam entre megalomania e paranoia, é a nossa espada de Dâmocles. O risco não reside apenas na intenção maliciosa, mas na falibilidade do sistema: um erro de cálculo, um comando nervoso ou, o mais temível, o acionamento do algoritmo.

            Ah, o algoritmo! O novo oráculo. Ele decide o que vemos, o que compramos, o que tememos. Se um dia a catástrofe vier, talvez não seja pelo botão vermelho de um general, mas pela linha invisível de código que falhou.

            Meu desejo, confesso, é que o nosso fim, se tiver de vir, seja não pelo fogo atômico, mas pela bomba lógica. Que a guerra fria da próxima era culmine num bug cósmico, numa falha de software que desative os protocolos de ataque, que apague as bases de dados e nos force ao grande reset.

            A desativação completa dos algoritmos que nos governam, que nos polarizam e que controlam os nossos dispositivos de morte, poderia nos atirar de volta à era terciária. Não seria um Éden, mas seria uma segunda oportunidade forçada: a de viver sem a ilusão de um controle tecnológico total. A de redescobrir o fogo, a agricultura e, talvez, a empatia, despidas do manto da complexidade digital.

            Infelizmente, a própria franquia sucumbiu ao mal que anunciava.

            O segundo filme, De Volta ao Planeta dos Macacos, ainda sustenta a carga existencial, mantendo a claustrofobia e o desespero originais. Mas do terceiro em diante, a narrativa perde sua força filosófica, trocando a crítica social pela espetacularização. O foco migra da ficção distópica para os efeitos especiais, sintoma da doença que critiquei no início: o cinema passa a ser máquina de produzir entretenimento vazio, negligenciando a mensagem profunda.

            Talvez sejamos mesmo como os produtores de Hollywood: incapazes de resistir ao reboot. Repetimos guerras, repetimos erros, repetimos discursos. O absurdo de Camus não está apenas na rocha de Sísifo, mas também na nossa compulsão por sequências mal planejadas.

            A complexidade do debate sobre determinismo genético, ética científica e natureza da violência, temas centrais no original, foi ofuscada pelo brilho fácil das explosões e das coreografias de ação.

            Esta derrocada é a desilusão que Camus nos legou em O Mito de Sísifo: o absurdo da condição humana, repetindo os mesmos erros, mesmo com o conhecimento da tragédia.

            O filme original, com seu prenúncio sombrio, deveria ser um constante “memento mori” para a humanidade. É a prova de que a nossa inteligência é a nossa maior ameaça, capaz de arquitetar a própria extinção.

            A tarefa do ser humano de hoje é adiar essa catástrofe anunciada. Não se trata de uma tarefa tecnológica ou militar, mas de uma revolução ética. Devemos nos perguntar, como Sartre faria, qual é a nossa responsabilidade perante o destino da espécie.

            O que define a humanidade não é sua capacidade de construir ogivas, mas sua capacidade de contenção. É a escolha consciente de desarmar, de negociar, de reconhecer o outro como reflexo, e não como alvo.

            O planeta dos macacos, no fundo, é o planeta do homem. A face deformada de Heston, ajoelhado diante dos escombros da sua própria civilização, não é apenas um final de filme; é um convite à introspecção.

            Vivemos numa era de extremos, onde a tecnologia nos promete imortalidade enquanto a nossa estupidez nos acena com a aniquilação.

            É preciso um otimismo trágico, uma fé obstinada na nossa capacidade de correção. O futuro não está escrito nos algoritmos dos mísseis, mas nas decisões silenciosas que tomamos hoje.

            Entre a estátua soterrada e a árvore que brota, está a nossa escolha.

Que consigamos transformar a nossa história de destruição numa crônica de redenção, onde o legado seja não a ruína, mas o replantio.

            Que o fim seja não pelo fogo, mas pelo florescer tardio da nossa sensibilidade.

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora

 
 
 

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