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A PSICOFILOSOFIA COMO CIÊNCIA DA CURA EXISTENCIAL

  • Carlos A. Buckmann
  • 20 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

A PSICOFILOSOFIA COMO CIÊNCIA DA CURA EXISTENCIAL

            Há tempos venho caminhando por entre ruínas e renascimentos, os da alma, sobretudo.

             E, ao longo desses encontros com a dor, o silêncio, a pergunta e o gesto simples que cura, fui percebendo que algo novo se forma nas sombras do saber: uma ciência híbrida, não ainda consagrada nos cânones acadêmicos, mas viva nos corações que ousam pensar para curar.

            Chamo-a de psicofilosofia, não como mero amálgama de disciplinas, mas como prática epistêmica e ética voltada ao tratamento dos traumas humanos através do amor à sabedoria da alma.

            A filosofia, em sua definição mais rigorosa. “philosophia", amor à sabedoria, jamais foi apenas especulação abstrata. Desde Sócrates, que via no diálogo uma forma de purificação da alma (katharsis), até os estoicos, que transformavam a razão em remédio contra os terrores da existência, a filosofia foi, antes de tudo, terapêutica.

            Foucault, em seus últimos cursos no Collège de France, resgatou essa dimensão esquecida: a filosofia antiga era um “exercício espiritual”, um modo de cuidar de si para viver bem. E é justamente essa tradição que a psicofilosofia retoma, não como nostalgia, mas como necessidade.

            Porque os traumas humanos não são apenas feridas do passado; são, muitas vezes, crenças incorporadas, narrativas internalizadas como verdades absolutas: “não sou digno”, “o mundo é hostil”, “devo me sacrificar para ser amado”. Essas crenças, muitas vezes herdadas de famílias, culturas, sistemas de poder, tornam-se gaiolas invisíveis.     A psicologia contemporânea já as identifica:

            Albert Ellis, na Terapia Racional-Emotiva, mostrou como crenças irracionais geram sofrimento emocional; Aaron Beck, na TCC, demonstrou que distorções cognitivas alimentam depressão e ansiedade. Mas a psicologia, por si só, muitas vezes trata os sintomas sem questionar as estruturas metafísicas que os sustentam.

            Aqui entra a filosofia, não como ornamento intelectual, mas como instrumento de desmontagem epistêmica.

            A psicofilosofia emprega as correntes filosóficas como ferramentas clínicas: 

            - O estoicismo” de Sêneca e Epicteto ensina a distinguir o que depende de nós do que não depende, libertando o sujeito da tirania da culpa e do controle ilusório. 

            - A “fenomenologia” de Merleau-Ponty devolve o corpo à sua dignidade existencial, permitindo que traumas somatizados sejam nomeados e integrados. 

            - A ética do cuidado  de Levinas e a noção de “rosto do outro” restauram a dimensão relacional ferida pelo isolamento traumático. 

            - A “dialética socrática” desmonta crenças dogmáticas não por imposição, mas por perguntas que geram autonomia. 

            A “hermenêutica” de Ricoeur permite reescrever a narrativa do trauma, não como destino, mas como capítulo de uma história maior. 

            E não se trata de aplicar doutrinas, mas de criar práticas vivas: rodas de diálogo onde a dor é acolhida com rigor e ternura; diários filosóficos onde o sujeito reinterpreta sua história; exercícios de “premeditatio malorum” que transformam o medo em clareza; silêncios compartilhados onde o corpo finalmente fala.

            A psicofilosofia não substitui a psiquiatria, respeita seus remédios quando necessários, nem nega a psicologia, dialoga com suas descobertas. Mas vai além: pergunta “por quê? para quê? com que sentido?”

            Figuras como Viktor Frankl, que fundou a logoterapia sobre a busca de sentido, e Bessel van der Kolk, que mostrou que “o corpo recorda”, já caminhavam nessa fronteira. Mas a psicofilosofia ousa dar-lhes um nome comum: “ciência da cura existencial”. Porque curar não é apenas aliviar o sintoma, mas restituir ao sujeito sua capacidade de pensar, escolher e amar, mesmo após o trauma.

            Num mundo marcado por violências estruturais, lutos não elaborados, solidões digitais e esgotamento da alma, a psicofilosofia surge como uma resposta ética e clínica. Ela não promete paraísos, sabe, com Groucho Marx, que ninguém mora lá. Mas oferece algo mais precioso: a possibilidade de habitar a terra com lucidez, coragem e dignidade.

Tratado da Psicofilosofia (em resumo): 

            A psicofilosofia é uma ciência híbrida que une os métodos clínicos da psicologia e da psiquiatria com a profundidade crítica e ética da filosofia para tratar os traumas humanos não apenas como distúrbios, mas como chamados existenciais.

            Seu objetivo não é normalizar, mas humanizar; não é adaptar, mas libertar.

            Emprega as tradições filosóficas como práticas terapêuticas para desmontar crenças limitantes, reintegrar o corpo e a alma, e devolver ao sujeito sua autoria.

            Porque, no fim, curar é aprender a viver, com a verdade, com a dor, com a beleza frágil do que é humano.

            E é nisso que acredito:  - “Não há trauma que resista à coragem de pensar”.

 
 
 

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