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A PRISÃO DO IMAGINÁRIO

  • Carlos A. Buckmann
  • 8 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

A PRISÃO DO IMAGINÁRIO

            Caminhar pela cidade é atravessar um espaço povoado não por pessoas, mas por projeções.

            Há uma névoa invisível que não vem do clima, mas da psique: cada indivíduo carrega uma tela onde projeta o que acredita ser o “Outro”. Vivemos em uma realidade imaginária, construída não de concreto, mas de desejos frustrados, medos ancestrais e identificações infantis. Julgamos ver o próximo, mas tocamos apenas as paredes de nossa própria caverna interna.

            Essa fixação no Outro, como entidade que nos completa, é a armadilha que sustenta nossa ilusão. Criamos uma “verdade” sob medida para suportar o vazio da existência: de que o outro é a causa de nosso prazer ou de nossa dor. Mas essa verdade é ilusória.

            É nesse ponto que Jacques Lacan se torna decisivo. Em seus seminários iniciais e nos Escritos (1966), ele descreve o “Estádio do Espelho”: a criança, ao reconhecer sua imagem refletida, identifica-se com uma unidade ilusória para escapar da fragmentação corporal. O Outro surge como promessa de completude, promessa que nunca se cumpre, mas que aprisiona o sujeito por toda a vida.

            Esse mecanismo não se limita ao divã; ele estrutura nossa realidade cotidiana:

            Na vida individual, passamos anos tentando corresponder ao que acreditamos que o outro espera de nós. Casamentos se sustentam mais na imagem idealizada do parceiro do que na presença real. O sofrimento nasce quando o “real” insiste em quebrar o espelho.

            Na sociedade, o imaginário coletivo fabrica inimigos e salvadores. A política moderna é um teatro de sombras, onde grupos se agarram a verdades ilusórias para evitar encarar sua própria inconsistência.

            Nos negócios, o marketing industrializa o imaginário. Não se vende um produto, mas uma promessa de reconhecimento. O executivo que busca status não deseja apenas dinheiro, mas a validação de uma imagem ilusória de valor no olhar alheio.

            Contudo, Lacan abre outras vias além da prisão do Imaginário: o Simbólico e o Real.

            O Simbólico, tecido pela linguagem e pelas leis da cultura, desloca a fixação na imagem e permite relações mediadas por significantes, não apenas projeções.

            O Real é aquilo que escapa à palavra e à imagem, o impossível que insiste além das representações. Embora angustiante, é também uma fresta: lembra-nos que há algo fora da prisão das imagens.

            Essa reflexão ecoa em outras vozes. Platão, na alegoria da caverna, mostrou o homem acorrentado a sombras que toma por verdade. Spinoza alertou para as “paixões tristes” nascidas de imagens confusas. Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo, descreveu uma era em que as relações humanas são mediadas por imagens, uma versão tecnológica do Imaginário lacaniano.

            O paralelo com o presente é perturbador. Se Lacan falava, nos anos 1950, da alienação na imagem, o que diria do império do selfie?

            Hoje, o Imaginário não está apenas no espelho, mas no filtro. O sujeito contemporâneo vive aprisionado em uma verdade algorítmica: o “Outro” digital é uma projeção incessante de perfeição que nos condena à comparação infinita. A tela do smartphone tornou-se um estádio do espelho permanente, fragmentando o sujeito a cada vez que o “like” falha em corresponder à angústia do ser.

            Ao fim, resta uma constatação: preferimos ser prisioneiros de uma ilusão que nos dá um papel a interpretar do que enfrentar o deserto do real. Mas é justamente no Simbólico e no Real que se insinuam as brechas da liberdade. O Simbólico, ao nos inscrever na linguagem, abre espaço para sentidos além da projeção. O Real, ao resistir à captura, lembra-nos que há sempre um resto que escapa ao espetáculo.

            A tragédia não é apenas que o Imaginário nos engane, mas que desejemos esse engano.

            Ainda assim, é nesse resto que não cabe na imagem, nesse silêncio que resiste, que talvez se esconda a chance de não sermos apenas sombras buscando consistência no abraço de outras sombras, mas sujeitos que ousam tocar o indizível fora da prisão.

 

 
 
 

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