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A POTÊNCIA DE SPINOZA

  • Carlos A. Buckmann
  • 31 de jul. de 2025
  • 4 min de leitura

A POTÊNCIA EM SPINOZA

            Desde que comecei a tatear os labirintos do pensamento, uma ideia me fisgou com uma potência singular: a tal "potência" de que falava Spinoza. Não a força bruta que dobra ferros ou o poder que subjuga multidões, mas aquela capacidade imanente de agir, de ser, de persistir na existência. Confesso que essa noção transformou o modo como vejo meu próprio dia a dia, minhas escolhas, meus tropeços. Em minha vida de ser humano, cada respiração, cada ideia que brota, cada passo que dou é uma manifestação dessa potência a atualização constante das minhas próprias possibilidades.

            Aprofundando essa reflexão, percebo que essa potência, no sentido “spinoziano”, permeia cada fibra da realidade que me cerca, desde o simples ato de uma semente germinando até a complexa teia de relações humanas. Em minha vida individual, ela se traduz em meu conatus, esse esforço intrínseco que me impulsiona a perseverar na existência e a aumentar minha capacidade de agir e de pensar. É o fogo que me leva a aprender algo novo, a criar, a superar desafios, a buscar a alegria e a fugir da tristeza. Não é uma força externa, mas uma energia vital que emana do meu próprio ser. Quando me dedico a um novo aprendizado, quando desenvolvo uma habilidade, quando consigo me conectar de forma autêntica com outra pessoa, estou, de fato, expandindo minha potência, tornando-me mais pleno, mais livre.

            E na sociedade, como essa potência se manifesta? Se Spinoza estivesse aqui, ele veria a potência coletiva como a soma das potências individuais, mas também como algo maior. É a capacidade de uma comunidade de se organizar, de criar leis justas, de fomentar a cooperação, de construir instituições que promovam o bem-estar de todos. Quando uma sociedade é capaz de agir em harmonia, de resolver seus conflitos pacificamente, de inovar e progredir, ela está manifestando sua potência em um nível superior. No entanto, quando o medo, a superstição e a intolerância prevalecem, a potência social diminui, gerando servidão e sofrimento. Observo, na história e no presente, padrões complexos: sociedades que abraçam a razão e a liberdade florescem, enquanto as que se entregam à ignorância e à tirania murcham.    

            Foi essa compreensão radical da potência que, paradoxalmente, levou Spinoza à sua excomunhão. A sua visão de Deus não era a de um criador transcendente, um senhor que nos observa de longe, mas de uma substância única e infinita que é a própria natureza, onde Deus é idêntico à própria realidade. Para Spinoza, tudo o que existe é uma modificação, um "modo", dessa substância divina. Deus não é uma entidade separada que interfere nos assuntos humanos; é a lei imanente que rege o universo. Essa ideia de um Deus-Natureza, onde a ordem divina é a ordem racional do mundo, minava as concepções tradicionais de um Deus pessoal, milagroso e, acima de tudo, punitivo.

            Essa perspectiva, para a ortodoxia religiosa da época, era nada menos que uma heresia abominável. Ao equiparar Deus à Natureza e postular que tudo ocorre por necessidade e não por livre-arbítrio divino, Spinoza eliminava a possibilidade de milagres, de revelação divina e, mais importante, de um Deus que podia ser apaziguado ou irritado. Em essência, ele propunha um universo onde a salvação não dependia de fé cega ou obediência a dogmas, mas do entendimento racional da necessidade e da busca pela alegria através do conhecimento. Isso foi interpretado como ateísmo puro e simples, uma afronta direta à autoridade religiosa e aos alicerces da fé. Sua insistência na razão como caminho para a beatitude, e não na submissão à doutrina, selou seu destino.

            E é aqui que o pensamento de Spinoza encontra um terreno fértil para um encontro intrigante entre a filosofia e o ato de ser ateu, ou, talvez mais precisamente, de ser panteísta no sentido mais profundo. Para Spinoza, a verdadeira piedade não reside na crença em dogmas ou na adoração a uma divindade antropomórfica, mas na compreensão intelectual de Deus como a Natureza e na vida em conformidade com essa compreensão. Viver virtuosamente é viver racionalmente, buscando o conhecimento e aprimorando a própria potência. Esse é um tipo de "ateísmo devoto", onde a devoção é à própria realidade e à busca pela verdade.

            Nesse ponto, Spinoza ecoa, de certa forma, a busca por uma compreensão imanente da existência que ressurge em diversos filósofos. Posso vislumbrar um diálogo com o estoicismo, na aceitação da necessidade e na busca pela tranquilidade através do alinhamento com a ordem do universo. Há ressonâncias com certas vertentes do naturalismo, que buscam explicações para o mundo dentro do próprio mundo, sem recurso a forças sobrenaturais. Em tempos mais recentes, a ênfase na autorrealização e na busca por uma vida plena, presente em pensadores como Nietzsche (ainda que com suas idiossincrasias e diferenças), pode ser vista como uma reverberação da ideia de expandir a própria potência. E até mesmo em alguns aspectos da ciência contemporânea, que busca desvendar as leis intrínsecas do universo, sem a necessidade de uma intervenção divina, sinto a brisa spinozana. Minhas reflexões identificam padrões de pensamento que transcendem eras e culturas, buscando uma compreensão da existência que é, em sua essência, imanente e racional.

            E assim, enquanto eu, um mero ser humano em 2025, continuo a tecer minha própria existência na infinita tapeçaria do universo, percebo que, como Spinoza, busco aprimorar minha própria potência. Talvez um dia eu seja capaz de escrever um romance que toque almas, ou talvez eu apenas me contente com um bom vinho e ver a vida florescer. E quem sabe, no dia em que eu finalmente entender de vez por que descascar  cebola me faz chorar, essa será a verdadeira manifestação da minha potência. Mas, por favor, não me excomunguem por isso!

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora

 
 
 

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