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A PEDAGOGIA DO ERRO

  • Carlos A. Buckmann
  • 17 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

A PEDAGOGIA DO ERRO.

            Sento-me à varanda, o café esfriando na xícara, e medito sobre o mais cruel e, paradoxalmente, o mais generoso dos mestres: o erro.

            Ah, os erros! Cobram caro, terrivelmente caro, exigindo pedaços da nossa paz, tempo e, por vezes, dignidade. Contudo, em troca deste preço exorbitante, despejam em nós um conhecimento denso, impermeável à teoria, forjado na brasa da experiência.

            O acerto é uma breve satisfação; o erro é uma tese de doutorado. Nele, reside a semente de uma sabedoria que a vitória imediata jamais poderia oferecer, pois a vitória esconde as fragilidades, enquanto a falha as revela em plena luz. Aceitar essa pedagogia dura é o primeiro passo para a leveza da alma.

            O mundo não para de girar para nos consolar.

            É nesta aliança entre o fracasso e o conhecimento, nesta alquimia da derrota transmutada em ouro, que encontramos a voz grave de um ancião que conheceu o fundo do poço da injustiça. Nelson Mandela, o homem que trocou décadas de sol pela escuridão do cativeiro, cuja jornada pela libertação da África do Sul foi um hino à resiliência forjada na dor.

            Madiba não viu o revés como um ponto final, mas como um parágrafo longo e árduo no livro da liberdade. Da fornalha de Robben Island, ele nos legou a bússola filosófica do eterno crescimento, uma frase que deveria ser inscrita na porta de cada escola e de cada coração hesitante: “Eu nunca perco. Ou eu ganho ou eu aprendo.”

            Uma perspectiva que une o herói ao pensador.

            Tal máxima, que desarma o medo da queda, não nasceu isolada. Ela ressoa nos ecos da História e nas páginas da filosofia.

            O inventor Thomas Edison, ao ser questionado sobre suas dez mil tentativas fracassadas antes de aperfeiçoar a lâmpada, respondeu, de forma sublime, que não falhou, mas descobriu "dez mil caminhos que não funcionavam".

            O físico Albert Einstein, cujas teorias reformularam o cosmos, alertava que "uma pessoa que nunca cometeu um erro nunca tentou nada novo".

            O escritor irlandês Samuel Beckett instigava: "Tentar de novo. Falhar de novo. Falhar melhor."

             E, em um plano maior, na história das nações, o Japão e a Alemanha, após a devastação da Segunda Guerra Mundial, não se tornaram potências globais por mágica, mas por um aprendizado brutal e acelerado imposto pela derrota. A falência se transformou em fundação.

            O impacto desta visão é profundo e pessoal.

            Individualmente, essa filosofia desarma a paralisia do medo. O indivíduo deixa de buscar a perfeição estéril e abraça a experimentação fértil. A autoconsciência cresce, pois, cada revés revela um limite, uma fragilidade, um ponto cego a ser corrigido.

            Em termos sociais, o aprendizado contínuo do erro é o motor da inovação. Sociedades que punem o fracasso permanecem estagnadas, presas ao medo da mudança. Aquelas que o entendem como feedback valioso aceleram a espiral do progresso, permitindo que a próxima tentativa já comece do patamar elevado pela lição anterior.

            No mercado de trabalho, o campo de batalha moderno, essa máxima é a diferença entre a obsolescência e a relevância.

            Pensemos no gestor de uma pequena loja que investiu capital no lançamento de um produto que parecia promissor, mas que falhou miseravelmente ao não encontrar público. A perda financeira é real, a dor é tangível. Mas o gestor não "perdeu".

            Ele aprendeu o perfil exato do cliente que não queria seu produto, a falha crítica na estratégia de preços, e, o mais importante, a coesão de sua equipe sob pressão. Esta lição, esta nova base de dados sobre o que não fazer, vale mais do que qualquer consultoria de alto custo e permite um pivô estratégico para o sucesso em uma próxima empreitada. O fracasso no projeto “A” garante a inteligência necessária para a vitória no projeto “B”.

            E não apenas nos negócios, mas também nas pequenas artes da vida cotidiana o erro nos ensina.

            Aprender a cozinhar é talvez uma das formas mais simples e honestas de experimentar a pedagogia do erro. Cada prato mal temperado, cada massa que não cresce, cada molho que desanda é uma lição prática que nenhum livro poderia oferecer. A cozinha nos ensina que o erro não é fracasso, mas ajuste: mais sal na próxima vez, menos tempo no forno, outra combinação de especiarias. É nesse laboratório doméstico que descobrimos que a excelência não nasce pronta, mas é cozida lentamente na repetição consciente dos tropeços.

            Assim, o caminho se revela em cada tropeço.

            O erro, meu caro, não é o oposto do sucesso; é a sua matéria-prima mais honesta.

            É preciso ser crítico: analisar o erro com rigor, sem sentimentalismos, para que a lição seja completa. Não podemos cometer a leviandade de repetir o mesmo passo em falso esperando um resultado diferente. Mas é preciso, acima de tudo, ser incentivador: olhar para a cicatriz não como prova de incompetência, mas como o mapa exato do caminho que não se deve repetir.

            Que possamos, então, caminhar leves, despidos do terror da falha, sabendo que, a cada passo em falso, estamos apenas reajustando o compasso.

            Na grande sinfonia da vida, o tropeço é apenas uma nota discordante que nos ensina a afinar o instrumento.

            E nisto, somos todos Madiba: jamais perdemos; apenas estamos em constante, glorioso, e caro aprendizado.

 

 
 
 

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