A PALETA E O FUZIL
- Carlos A. Buckmann
- 21 de dez. de 2025
- 2 min de leitura

A PALETA E O FUZIL.
O tempo, como sempre acontece no Café Entre Fluxos, decidiu dobrar-se em si mesmo. As paredes cheiravam a história e a café recém passado, e a brisa que vinha das janelas antigas parecia carregar ecos de marchas e pinturas. Sob a luz difusa que atravessava vitrais coloridos, que mais pareciam pedaços de vitrais da Catedral do México e barricadas de Havana, dois vultos surgiram do tempo e da memória: Frida Kahlo e Che Guevara.
Ela, envolta em um xale vermelho bordado com flores da dor e da paixão, trazia nos olhos a firmeza de quem transformou o próprio corpo em tela. Ele, com a boina inclinada e o semblante de um homem que já conversou com a morte, exalava uma aura de decisão e tempestade.
Sentaram-se à mesa dos encontros impossíveis. Em vez de palavras, foi o cheiro do café, forte, sem açúcar, que selou o pacto daquele instante. Carlos, o observador invisível, anotava discretamente no caderno encostado junto à máquina de escrever que nunca deixava de respirar.
Che ergueu a xícara e disse, como quem segura um cartaz na linha de frente:
“A arte só tem valor se for arma. Pinturas podem ser tiros disfarçados. Poesia pode ser trincheira. A beleza, Frida, é útil quando fere o opressor.”
Frida sorriu como quem não se ofende, mas resiste com elegância:
“E se a arte for o grito do que não tem voz? A minha dor virou cor. Minhas hemorragias viraram flores. O que você chama de arma, eu chamo de ponte. A revolução também pode passar por dentro do corpo de uma mulher quebrada que se recusa a se calar.”
Ele se recostou, pensativo. O vapor do café subia como ideais num comício.
“Talvez você pinte com o sangue que eu derramaria. Você é revolução na intimidade. Mas veja, precisamos agir.”
Ela tocou sua paleta, não trazia pincéis, mas fragmentos de espelhos. Respondeu:
“E a revolução sem beleza? Sem infância? Sem um mural nas ruas que conte que também sentimos? O que sustenta um povo na luta é o sonho. E sonho tem cor.”
Do gramofone ao fundo, Mercedes Sosa entoava baixinho “Gracias a la vida...” como se o próprio tempo tivesse se curvado para ouvir. Suspendi a caneta; sabia que ali não havia vencedores, apenas verdades que se completavam.
Che tirou do bolso um papel amarelado, um mapa que desenhou com companheiros de selva. Frida abriu um pequeno estojo de metal onde guardava penas azuis e um desenho inacabado de uma espinha floral.
Trocaram objetos. Era como se dissessem: “Minha revolução precisa da tua poesia. Meu grito precisa da tua imagem.”
Na saída, Frida tocou a samambaia do canto. Che acenou com um olhar que atravessava séculos. Esse barista, sem dizer nada, voltou ao guardanapo.
Com a caneta-tinteiro, escrevi:
“A arte pode não mudar o mundo inteiro. Mas muda o mundo de quem a vê e, às vezes, isso já é revolução.”
“Hasta siempre!”, comandante! - Um beijo colorido, Frida.




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