A ONTOLOGIA DA NARRATIVA
- Carlos A. Buckmann
- 7 de jun. de 2025
- 3 min de leitura

A ONTOLOGIA DA NARRATIVA.
Desde os primórdios da consciência, o ser humano encontrou refúgio e significado no ato de tecer palavras, transformando a experiência bruta em tapeçaria inteligível. Contar histórias não é apenas um passatempo; é uma necessidade ontológica, um eco da nossa própria capacidade de dar sentido ao caos que nos cerca. É através da narrativa que nos reconhecemos no espelho da linguagem, que compartilhamos a fragilidade e a beleza da nossa condição.
Lembro-me com carinho do filme “Forrest Gump – O Contador de Histórias”. Ali, naquele homem de um carisma tocante, reside a personificação da força da narrativa. Forrest, com sua perspectiva peculiar e seu coração desarmado, atravessa décadas de história americana, não como um mero espectador, mas como um protagonista involuntário de eventos cruciais. Sua vida, aparentemente desprovida de sofisticação intelectual, ganha uma profundidade imensa através da sua maneira singela de contar. Suas histórias, despretensiosas e diretas, ressoam com uma verdade visceral, provando que a eloquência da experiência narrada transcende a erudição formal. Ele nos ensina que a importância não reside nos eventos em si, mas na forma como os internalizamos e os compartilhamos.
É nesse contexto que a impactante frase de Hannah Arendt ressurge com uma força inegável: “Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história.” Arendt, uma das mentes mais brilhantes do século XX, compreendeu a intrínseca ligação entre a experiência do sofrimento e a capacidade humana de narrativizá-la. Nascida em 1906, em Hanover, Alemanha, e falecida em 1975, nos Estados Unidos, Arendt foi uma filósofa e teórica política cuja obra extraordinária abordou temas como totalitarismo, autoridade e a condição humana. Sua trajetória pessoal, marcada pela ascensão do nazismo e pelo exílio, certamente influenciou sua profunda compreensão da fragilidade da existência e da importância da ação e do discurso no mundo.
Arendt nos revela que a dor, em sua forma mais crua e inarticulada, pode nos consumir, nos aprisionar em um presente perpétuo de agonia. No entanto, ao encontrarmos as palavras certas, ao moldarmos a experiência dolorosa em uma narrativa com começo, meio e, talvez, alguma forma de resolução ou aprendizado, nós a domesticamos. A história não elimina a dor, mas a desloca do centro paralisante da nossa existência, permitindo-nos observá-la com uma certa distância, integrá-la ao tecido da nossa identidade.
Essa ideia ressoa com as reflexões de outros pensadores. Viktor Frankl, sobrevivente do Holocausto e criador da logoterapia, enfatizou a importância de encontrar um sentido na vida, mesmo em meio ao sofrimento. Para Frankl, a capacidade de atribuir significado à dor, de integrá-la a uma narrativa pessoal de resiliência e propósito, era crucial para a sobrevivência psíquica. A história que contamos sobre nossa dor pode se tornar, paradoxalmente, uma fonte de força e significado.
Walter Benjamin, com sua sensibilidade para as ruínas da história e a importância da memória, também nos lembra que a narrativa é um elo com o passado, uma forma de resgatar a experiência da fragmentação e do esquecimento. Ao contarmos nossas dores, as conectamos a um fluxo maior de experiências humanas, reconhecendo que não estamos sozinhos em nosso sofrimento.
Assim, a frase de Arendt não é um mero consolo retórico, mas uma profunda constatação sobre a natureza da nossa humanidade. A capacidade de contar histórias é o que nos permite transformar a passividade da vítima na agência do narrador. Ao darmos voz à nossa dor, ao compartilhá-la, nós a retiramos do isolamento opressor e a inserimos no domínio da experiência compartilhada, onde pode ser compreendida, talvez até mesmo mitigada, pela empatia e pela conexão humana.
Em última análise, viver é narrar. E talvez a mais profunda sabedoria resida em reconhecer que mesmo as histórias mais sombrias podem conter a semente da esperança, da resiliência e, quem sabe, até mesmo de uma beleza inesperada. A dor, despojada de sua mudez aterrorizante pela alquimia da linguagem, torna-se parte da nossa jornada, um capítulo, por mais difícil que seja, da história que estamos constantemente escrevendo sobre nós mesmos. E nessa escrita incessante, encontramos não apenas a possibilidade de suportar, mas também a promessa de transcender.
Hoje, apenas uma reflexão filosófica.




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