A OBRA DO ARTISTA INVISÍVEL.
- Carlos A. Buckmann
- 5 de jul. de 2025
- 3 min de leitura

A OBRA DO ARTISTA INVISÍVEL.
Há algo de sagrado no gesto do homem que trabalha com amor. Seja o padeiro que amanhece amassando o pão como se moldasse um poema com as mãos enfarinhadas, ou o sapateiro que costura o couro como quem tece destinos, cada um, à sua maneira, é um artista disfarçado de ofício. A diferença entre o trabalho comum e a obra de arte não está na matéria, mas na intenção. Quando se trabalha com paixão, a alma se infiltra no ofício, como tinta na tela ou melodia no silêncio.
Sempre me encantei com o carpinteiro que lixa a madeira como quem acaricia a infância; com a costureira que enfia a agulha não apenas no tecido, mas na memória; com o professor que, mesmo diante de ouvidos desatentos, semeia ideias como se fossem girassóis que um dia se virarão para o sol do entendimento. Esses são os artistas invisíveis; pintam, escrevem, esculpem com gestos cotidianos.
Recordo-me de uma frase de Antoine de Saint-Exupéry, em “Terre des Hommes”:
“Amar não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direção.”
O verdadeiro artista, seja qual for sua ferramenta, não olha apenas para a tarefa diante de si, mas contempla um ideal, uma entrega, um sentido que ultrapassa o resultado e se funde à sua própria identidade.
E então compreendi a sentença de Oscar Wilde:
“Todo retrato pintado com sentimento é o retrato do artista e não do modelo.”
E como discordar? Quando o pintor se debruça sobre a tela, é sua própria alma que escorre junto com a tinta. O modelo é apenas o pretexto. O rosto que emerge do quadro é, na verdade, o reflexo do olhar que o contempla.
É o artista que se revela por trás do pincel. É o médico que cura com empatia e revela sua humanidade antes mesmo da ciência. É o jardineiro que poda o arbusto com a precisão de um escultor florentino. É o cozinheiro que tempera com lembranças. O que se vê não é apenas o prato, a planta, a cura, é o traço da alma de quem o fez.
Richard Bach, em Ilusões, dizia que:
“Nós ensinamos melhor aquilo que mais precisamos aprender”.
Talvez por isso, os que trabalham com amor estão sempre em processo de autodescoberta. Eles se encontram no que fazem, e se perdem, no melhor sentido, naquilo que entregam. Cada produto carrega a digital do espírito, como se fosse um espelho invertido da essência.
É assim, nesse bailado entre o visível e o invisível, que compreendemos o verdadeiro retrato: nunca é da coisa, mas do criador. O quadro pode ser de Dorian, mas quem se desnuda é o pintor. A xícara de café que me aquece agora tem mais do coração do barista do que dos grãos torrados.
Por isso, quando você encontrar alguém que faz algo com brilho nos olhos, pare e observe. Aquilo que ele faz, mesmo que seja um bilhete, uma barba bem-feita ou um pão de queijo, não é apenas um serviço. É uma assinatura invisível.
E se algum dia você se der conta de que até sua bagunça tem um estilo próprio, não se assuste: pode ser que você também seja um artista. Só ainda não sabe qual é a sua tela.
Afinal, trabalhar com amor é como cozinhar com vinho: às vezes a gente coloca na comida, às vezes na taça e, às vezes, nos dois!
Beto Buckmann
Crônicas entre ideias e pólvora




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