A NECESSIDADE DE MIM MESMO
- Carlos A. Buckmann
- 4 de jun. de 2025
- 3 min de leitura

A NECESSIDADE DE MIM MESMO.
Tem uma frase de Jean-Paul Sartre que ressoa em mim como um eco primordial, uma verdade visceral que demorei uma vida inteira para começar a compreender. "Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo." Por muito tempo, acreditei que o nascimento era uma espécie de lançamento ao mundo, uma flecha arremessada em direção a um alvo externo, definido por expectativas alheias, por convenções sociais, por miragens de felicidade projetadas por outros.
Vivi, confesso, em uma constante tentativa de preencher vazios que não eram meus, de saciar sedes que não sentia. Busquei aprovação, reconhecimento, um encaixe forçado em moldes preexistentes. Acreditava que a completude viria de fora, de um amor romântico idealizado, de uma carreira bem-sucedida aos olhos do mundo, de posses que adornassem uma identidade frágil e insegura.
Lembro-me dos meus primeiros anos, da ânsia por ser aceito pelos colegas, do esforço para me adequar aos padrões de masculinidade que me eram impostos. Cada desvio era uma fonte de angústia, um prenúncio de inadequação. Mais tarde, na juventude, a busca por um "outro significativo" parecia a chave para desvendar o mistério da minha própria existência. Projetava na parceira idealizada a responsabilidade de me tornar inteiro, de dar sentido ao meu ser.
Com o passar dos anos, as máscaras foram se tornando mais pesadas, os papéis mais cansativos. A dissonância entre a imagem que eu projetava e a sensação íntima de vazio se tornava cada vez mais insuportável. Foi em meio a essa exaustão que a frase de Sartre começou a sussurrar em meus ouvidos, inicialmente como uma heresia, uma subversão da ordem estabelecida.
A necessidade de mim mesmo... Que estranha formulação! Porventura não sou eu quem habita este corpo, quem experimenta estas emoções, quem articula estes pensamentos? Que outra necessidade poderia ser mais fundamental do que a de ser, simplesmente ser, em minha própria autenticidade?
Aos poucos, a compreensão foi clareando. A necessidade de mim mesmo não era uma forma de egoísmo exacerbado, mas sim um imperativo ontológico. Era o chamado para a auto apropriação, para a reconquista do território interior que havia sido cedido às demandas externas. Era o reconhecimento de que a fonte da minha própria completude residia em mim mesmo, em minhas escolhas, em minha capacidade de me tornar quem eu verdadeiramente era, para além das expectativas alheias.
Essa jornada de redescoberta tem sido árdua, por vezes dolorosa. Desconstruir as crenças internalizadas, abandonar os papéis que me aprisionavam, confrontar os medos da solidão e da rejeição exigiram coragem e uma dose generosa de autocompaixão. Mas a cada passo em direção à minha própria verdade, uma nova camada de liberdade se revela.
Descobri que a satisfação dessa necessidade primordial não implica isolamento, mas sim a possibilidade de estabelecer relações mais autênticas e genuínas com o mundo e com os outros. Quando me reconheço e me aceito em minha totalidade, sem a ânsia de preencher vazios inexistentes, torno-me capaz de oferecer e receber amor de uma forma mais plena e desinteressada.
Hoje, compreendo que nasci não para ser moldado, mas para me moldar. Que a grande aventura da existência reside na incessante busca por essa identidade fluida e em constante devir que reside em mim. A necessidade de mim mesmo não é um destino a ser alcançado, mas sim um caminho a ser percorrido, uma dança contínua entre o ser e o tornar-se. E nessa dança, finalmente, encontro um eco da minha própria voz, um vislumbre da minha própria face. E isso, em si, já é uma forma de profunda satisfação.
E isso me basta para viver... feliz!




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