A MINHA MANEIRA
- Carlos A. Buckmann
- 8 de jul. de 2025
- 3 min de leitura

À MINHA MANEIRA
(Ao som de “My Way”, com Frank Sinatra)
Ao olhar para trás, não é apenas o tempo que contemplo, mas os sulcos que ele deixou em mim, marcas de uma jornada que começou entre livros, compromissos e sonhos de menino. A vida foi, desde cedo, uma sucessão de batalhas: algumas vencidas com brilho, outras com lágrimas, mas todas com a dignidade de quem nunca deixou de aprender, nem de ensinar.
Estudei como quem cava um poço em busca de água, com a sede de quem sabe que o conhecimento é o único bem que não se perde. Trabalhei com a determinação de um camponês que sabe que a terra só devolve aquilo que recebe com suor. Plantei uma família, e colhi afeto. Vivi também momentos de dor e desânimo, como todo ser humano que insiste em caminhar mesmo quando o chão parece escapar.
Hoje, quase aos oitenta, olho para essa longa estrada e sinto que não apenas sobrevivi, mas que vivi de verdade. Como canta Sinatra, “I did it my way” (Eu fiz do meu jeito). E que outra maneira seria possível? Teria sido mais fácil seguir o fluxo, calar a voz interior, adormecer os próprios princípios…, mas preferi o risco da autenticidade.
“Regrets, I’ve had a few, but then again, too few to mention.” É impossível atravessar a existência ileso. Mas os arrependimentos são como pequenas pedras nos bolsos: incomodam, mas não afundam. Como escreveu Marco Aurélio em suas "Meditações", “Aceite tudo o que lhe acontece, mesmo que lhe pareça amargo, pois é parte da natureza do universo.” Meus erros foram lições disfarçadas, e cada escolha, mesmo a equivocada, contribuiu para o homem que me tornei.
“I faced it all and I stood tall.” Sim, eu enfrentei tudo. A solidão dos começos, o medo dos fracassos, o silêncio das decepções. Estive de pé quando o mundo parecia desmoronar — e muitas vezes só continuei porque aprendi, com Nietzsche, que “aquele que tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como.” Meu porquê sempre foi claro: ser inteiro, mesmo que imperfeito.
“For what is a man, what has he got? If not himself, then he has naught.” A grande verdade é essa: se o homem não vive em fidelidade a si mesmo, vive a vida de outro, e essa é a pior forma de morte. Kierkegaard dizia que “a maior desgraça do homem é não ser ele mesmo.” Por isso, escolhi caminhar com minhas próprias pernas, tropeçando às vezes, mas nunca rastejando.
“To say the things, he truly feels; and not the words of one who kneels.” Nunca me ajoelhei diante do medo, nem fiz da conveniência um altar. Falei o que sentia, com a franqueza que incomoda e com a ternura que redime. Preferi perder aplausos a silenciar convicções. Como diria Camus, “a liberdade é nada mais do que a chance de ser melhor.” E ser livre, mesmo quando doeu, sempre foi o meu jeito.
O tempo, esse velho escultor impiedoso, hoje me olha com respeito. Não porque venci tudo, mas porque nunca parei de lutar. E porque, apesar de tudo, continuo acreditando, como Montaigne, que “a maior coisa do mundo é saber ser seu.”
Aos que perguntam se valeu a pena, eu respondo com um sorriso calmo e um olhar de travessura: Sim, fiz do meu jeito. E continuo aprontando o possível... à minha maneira.
(E como diria um velho sábio da farmácia da esquina: “Aos 80, o segredo da longevidade é não discutir com gente burra… e lembrar onde deixou os óculos.”)
Beto Buckmann
Crônicas entre ideias e pólvora




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