A MENTE COMO PARAÍSO E ABISMO
- Carlos A. Buckmann
- 20 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

A MENTE COMO PARAÍSO E ABISMO
Numa tarde chuvosa desse verão, folheando as páginas amareladas de “Paraíso Perdido”, o épico de John Milton, minha mente volta a fervilhar.
Nascido em 1608, em Londres, o poeta puritano perdeu a visão aos 44 anos, ditando sua obra monumental às filhas relutantes, em meio à Revolução Inglesa e à Restauração monárquica. Sua narrativa, tecida em versos solenes, não é mera teodiceia, justificação do mal divino, mas um espelho da alma humana, onde Lúcifer, o anjo caído, clama por liberdade em rebelião contra o Onipotente. Cego e exilado em sua própria escuridão, pinta o Éden como um jardim frágil, perdido não por decreto celestial, mas pela volição rebelde.
Milton foi um titã do intelecto. Em meio à escuridão física, ele ditou versos que tentavam "justificar os caminhos de Deus aos homens". Sua obra-prima não é apenas um épico teológico sobre a queda de Adão ou a rebeldia de Satã; é uma radiografia da psique humana e do livre-arbítrio. É nesse cenário de perdas profundas que ele nos lega um mantra da autonomia existencial:
"A mente é um lugar em si mesma, e em si mesma pode fazer do céu um inferno, e do inferno um céu."
Essa percepção “miltoniana” não é um mero jogo de palavras, mas uma verdade ontológica. O mundo exterior é o mármore bruto; a mente é o cinzel que esculpe a forma da nossa realidade. Como sugeriu Schopenhauer, o mundo é nossa representação. Não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos.
A suavidade dessa transição entre o fato e a percepção define a nossa jornada. Um homem pode habitar um palácio e ser devorado pela inveja, transformando o mármore em labirintos de angústia. Outro pode caminhar por ruas áridas e encontrar no brilho de um olhar a plenitude de um Éden particular.
Como Proust no “Em Busca do Tempo Perdido”, mergulhamos na memória para ressuscitar o perdido; como Nietzsche, com seu “Assim Falou Zaratustra”, afirmamos a vontade de potência para forjar novos céus.
Individualmente, essa transformação é quase mágica. Se Milton nos mostra a mente como palco da queda e da redenção, Frankl, séculos depois, comprova essa mesma força em circunstâncias extremas da história
Viktor Frankl, o psiquiatra que sobreviveu aos campos de concentração nazistas. Onde o mundo impunha o inferno absoluto, Frankl encontrou o "céu" da liberdade interior. Ele descobriu que a última das liberdades humanas é a capacidade de escolher a própria atitude diante de qualquer circunstância. Enquanto o corpo definhava, sua mente construía conferências futuras e diálogos com o amor de sua esposa, mantendo o paraíso aceso sob as cinzas do horror.
No universo social, essa mentalidade molda civilizações.
Quando Nelson Mandela saiu da prisão após 27 anos, ele tinha todos os ingredientes para construir um inferno de vingança na África do Sul. Contudo, sua mente habitava um lugar de reconciliação. Ao escolher o perdão em vez do revanchismo, ele transformou um cenário de guerra civil iminente em um laboratório de paz. A mente de um líder pode converter o rancor coletivo em esperança social, provando que o inferno da segregação pode ser transmutado pela visão de uma "nação arco-íris".
Mesmo no pragmatismo dos negócios, a frase de Milton encontra solo fértil.
Veja o caso de Steve Jobs ao ser demitido da própria empresa que fundou. Para muitos, seria o inferno do fracasso e da humilhação pública. Mas ele viu ali a leveza de ser um iniciante novamente. Essa "mentalidade de paraíso" permitiu que ele criasse a NeXT e a Pixar, retornando à Apple para revolucionar o mundo. No mercado, o inferno da crise é frequentemente o céu da oportunidade para quem não se deixa cegar pelo caos aparente.
A busca pelo retorno ao paraíso, tema central da sequência da obra de Milton (Paraíso Recuperado), não é uma jornada geográfica, mas uma ascensão interior. O "Paraíso Perdido" é a perda da nossa conexão com o presente e com a nossa essência. Recuperá-lo exige a consciência de que a felicidade não é um evento, mas um estado de espírito cultivado na quietude da razão e na força do caráter.
Como disse Marco Aurélio em suas Meditações, a nossa vida é o que os nossos pensamentos a tornam. Estamos todos, a cada segundo, decidindo em qual reino habitaremos.
Porém, esse poder da mente humana é lâmina de dois fios. Pode elevar o mendigo a rei interior, mas também precipitar o rei em loucura solipsista, vide Hitler, que de sua mente doentia fez do Reich um inferno global. A liberdade “miltoniana” exige responsabilidade: sem virtude, o céu vira ilusão narcísica; com sabedoria, o inferno se dissolve em luz.
Então percebo o peso da responsabilidade que carregamos entre as têmporas. O poder da mente humana é, simultaneamente, nossa maior dádiva e nosso fardo mais terrível. Se por um lado somos capazes de florescer no deserto, por outro, somos mestres em sabotar a nossa própria felicidade.
Vivemos em uma era de abundância material que, ironicamente, produz um inferno mental de ansiedade e comparação.
Ter a mente como "um lugar em si mesma" exige uma vigilância constante.
Sem o domínio ético e a clareza filosófica, tornamo-nos prisioneiros de nossas próprias criações mentais.
O paraíso não está no horizonte; ele está na lente.
E a mente, esse palco invisível, continua sendo o único lugar onde somos, ao mesmo tempo, o autor, o cenário e o destino da nossa própria história.




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