A MEMÓRIA COMO PONTE ENTRE O TRAUMA E O SENTIDO
- Carlos A. Buckmann
- 25 de out. de 2025
- 3 min de leitura

A MEMÓRIA COMO PONTE ENTRE O TRAUMA E O SENTIDO
Há algo de profundamente arbitrário e, ao mesmo tempo, profundamente necessário, naquilo que guardamos na memória.
Não somos arquivos neutros; somos curadores apaixonados, muitas vezes inconscientes, de nossos próprios escombros e esplendores. Guardamos traumas como se fossem relíquias sagradas, e alegrias como se fossem promessas frágeis demais para serem repetidas.
Retemos fatos distorcidos por lentes emocionais e, às vezes, inventamos memórias inteiras para preencher os vazios deixados por dores que não soubemos nomear. Somos, assim, tanto prisioneiros quanto arquitetos daquilo que lembramos.
A psicologia clássica, desde Freud até a neurociência contemporânea, vê nesse processo um campo de batalha.
Para Freud, o trauma é um núcleo recalcado que retorna sob a forma de sintoma, um fantasma que insiste em habitar o corpo e a fala. Já a psiquiatria, com seu olhar mais clínico, busca classificar, medicar, estabilizar: o trauma vira transtorno de estresse pós-traumático, a memória distorcida, delírio; a repetição obsessiva, compulsão. Ambas, em suas melhores versões, reconhecem que a memória não é um espelho, mas um ato de criação e, portanto, passível de reescrita.
Mas onde termina o diagnóstico e começa o sentido?
É aí que a filosofia entra, não para curar, mas para questionar.
Nietzsche, em sua lucidez incômoda, nos lembra que “só se pode prometer quem sabe esquecer”. Para ele, a memória excessiva paralisa; a vida exige uma dose saudável de esquecimento para seguir em frente.
Já Paul Ricoeur, com sua delicadeza hermenêutica, propõe que a identidade não é dada, mas narrada, e que a memória, mesmo ferida, pode ser recontada, reinterpretada, transformada em história com sentido.
E Heidegger? Ele diria que o ser humano é temporalidade: não vivemos no passado, mas a partir dele. O trauma, então, não é apenas um fato ocorrido, mas uma maneira de estar no mundo e, portanto, passível de transformação ontológica.
Mas nem a psicologia, com seu foco no sintoma, nem a filosofia, com seu apelo à abstração, dão conta sozinhas da complexidade humana. Daí nasce, ou renasce, a psicofilosofia: uma ciência híbrida, não no sentido de misturar disciplinas, mas de fundi-las numa prática que escuta tanto o grito do corpo quanto o silêncio da alma. A psicofilosofia não pergunta apenas “o que aconteceu?”, mas “o que isso quer dizer para você?”. Não busca apagar o trauma, mas atravessá-lo com lucidez. Trata a memória não como depósito, mas como ponte, uma estrutura frágil, sim, mas capaz de ligar o que foi ao que pode vir a ser.
Nossa época, marcada por uma crise de sentido disfarçada de excesso de informação, clama por essa abordagem. Vivemos sob o império do esquecimento acelerado e da memória digitalizada, onde tudo é registrado, mas nada é realmente lembrado.
Ao mesmo tempo, carregamos feridas coletivas, guerras, pandemias, desigualdades, que se entranham na psique como cicatrizes silenciosas. A psicofilosofia surge, então, como um antídoto contra a banalização da dor e a fuga do sentido. Ela não oferece respostas prontas, mas um caminho: o de transformar a memória traumática em matéria-prima para a sabedoria.
Por isso, digo: não tema lembrar. Tema apenas não dar sentido ao que lembra.
O trauma não define quem você é, mas pode revelar quem você pode se tornar, desde que o encare não como prisão, mas como passagem. A memória, afinal, é a única ponte que temos entre o que nos feriu e o que nos libertará. E é nessa travessia, incerta, dolorosa, necessária, que a vida recupera sua dignidade filosófica e sua cura psíquica.
Caminhe, então.
A ponte está lá.
E ela é feita de você mesmo.




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