A MEDIDA DA ALMA
- Carlos A. Buckmann
- 27 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

A MEDIDA DA ALMA
Desde criança ouço dizer que o caráter se forma cedo, nos berços familiares, nas escolas rudimentares, nas conversas de fim de tarde com os mais velhos.
Cresci acreditando que a ética nasce da repetição, que a virtude é fruto de hábitos bons, como ensinava Aristóteles. Mas, com o tempo, comecei a desconfiar: e se o caráter não for apenas aquilo que nos ensinaram, mas aquilo que ousamos desejar?
Encontrei, nas páginas amareladas de um exemplar surrado de “Madame Bovary”, uma frase que me fez avaliar mais amiúde essa questão:
- “A medida de uma alma é a dimensão do seu desejo.”
São palavras de Gustave Flaubert, escritor francês do século XIX, cuja obsessão pela forma escondia uma alma em fogo constante. Flaubert não se contentava com a mediocridade da província, nem com a banalidade dos sonhos burgueses. Viveu recluso em Croisset, mas sua mente viajava além das margens do Sena, em busca de uma linguagem capaz de traduzir o insondável. Sua vida foi um exercício de desejo contínuo: desejar escrever com perfeição, desejar compreender a alma humana, desejar, acima de tudo, não se conformar.
Voltando à frase, aparentemente simples, constato que carrega um peso imenso.
Se a alma tem uma medida, ela não é dada pelo que possuímos, nem pelo que aprendemos nos bancos escolares, mas pela amplitude do que aspiramos. A cultura e a educação moldam o recipiente, sim; mas é o desejo que determina o volume daquilo que nele se coloca. Um homem pode ter lido todos os clássicos, mas, se seu desejo não ultrapassa a própria sombra, se não almeja justiça, beleza, verdade ou compaixão, sua alma permanece pequena, ainda que seu saber seja vasto.
Nietzsche (ah! como gosto de citar Nietzsche), em seus aforismos incendiários, diria que “o homem é algo que deve ser superado”. E essa superação só acontece quando o desejo ultrapassa os limites da sobrevivência, quando não se contenta em apenas existir, mas quer “transbordar”.
Já Spinoza via o desejo não como fraqueza, mas como a própria essência do ser humano, a “conatus”, a força que nos impele a perseverar na existência e a expandir nossa potência de agir.
Até Pascal, tão austero em sua fé, reconhecia que “o coração tem razões que a razão desconhece, e dentre essas razões está o desejo, esse motor íntimo que nos puxa para além do que somos.
No cotidiano, vemos almas grandes e pequenas todos os dias. Conheci um carteiro que, após o expediente, lia poesia para crianças em abrigos. Não tinha estudos formais, mas seu desejo de semear beleza era imenso. Conheci também um professor universitário, culto e eloquente, que jamais se dispôs a ouvir um aluno que pensasse diferente. Sua alma, apesar da erudição, era estreita, porque seu desejo não ultrapassava os muros do ego.
Isso não significa que devamos desejar qualquer coisa, há desejos que esmagam, que escravizam, que encolhem a alma ao invés de expandi-la.
É nesse ponto que se revela a tensão entre desejo e ética: nem todo desejo engrandece. O desejo de poder absoluto, por exemplo, pode inflar o ego, mas reduzir a alma, pois nasce da vontade de dominar e não de compartilhar. Já o desejo de justiça, ao contrário, expande porque ultrapassa o indivíduo e se volta para o bem comum. O primeiro aprisiona, o segundo liberta; o primeiro estreita horizontes, o segundo os alarga. A medida da alma, portanto, não está apenas na intensidade do querer, mas também na direção que esse querer assume.
Mas Flaubert fala da dimensão, não da direção. E aí reside o desafio: educar o desejo. Transformar o anseio em busca ética, em sede de sentido, em sede de humanidade.
Vivemos numa era que reduz o desejo ao consumo, ao imediato, ao efêmero. Redes sociais alimentam desejos rasos; o mercado vende sonhos empacotados. Mas a alma precisa de espaço para respirar, de horizontes para perseguir.
Que não nos contentemos então com desejos pequenos.
Que, mesmo na mediocridade cotidiana, saibamos cultivar desejos grandes, porque é neles que reside a verdadeira medida do que somos… e do que podemos vir a ser.
Afinal, como lembrava Flaubert, “a medida de uma alma é a dimensão do seu desejo”. E talvez seja justamente nesse transbordar que descobrimos não apenas quem somos, mas quem ainda podemos ousar desejar ser.
Beto Buckmann
Crônicas entre ideias e pólvora




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