A MARCHA LENTA DO BEM: Uma Crônica sobre ESG
- Carlos A. Buckmann
- 16 de abr. de 2025
- 4 min de leitura

A MARCHA LENTA DO BEM
Uma Crônica sobre ESG
A sigla ESG, "Environmental, Social and Governance" (Governança Social Ambiental) um acrônimo que baila cada vez mais nos corredores de empresas e nas conversas sobre o futuro, nasceu de uma inquietação antiga, um murmúrio que ganhou força com o estrondo das crises ambientais e a crescente consciência das desigualdades sociais. Embora o termo tenha se popularizado mais recentemente, a ideia de que as empresas deveriam ir além do lucro imediato remonta a décadas.
Podemos traçar um marco importante no final dos anos 90 e início dos 2000, quando a urgência das mudanças climáticas e as discussões sobre responsabilidade corporativa ganharam corpo. O Relatório Brundtland, [documento intitulado Nosso Futuro Comum (Our Common Future), publicado em outubro de 1987, coordenado pela então primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland, de 1987], já acendia o alerta para a necessidade de um desenvolvimento sustentável. No entanto, foi em 2004, em um relatório da ONU chamado "Who Cares Wins", que a sigla ESG começou a se consolidar como um framework para avaliar o desempenho das empresas sob três pilares cruciais: Ambiental, Social e Governança.
O pilar Ambiental foca no impacto das atividades empresariais no planeta. Isso engloba desde a emissão de gases de efeito estufa e o consumo de recursos naturais até a gestão de resíduos, a preservação da biodiversidade e a adoção de práticas de economia circular. Uma empresa com forte atuação ambiental busca minimizar sua pegada ecológica, inovar em processos mais limpos e contribuir para a saúde do ecossistema.
O aspecto Social olha para as relações da empresa com as pessoas e a sociedade em geral. Isso inclui as condições de trabalho dos seus colaboradores, a diversidade e inclusão, o respeito aos direitos humanos, o engajamento com a comunidade local, a segurança dos produtos e serviços e a preocupação com a cadeia de valor. Uma empresa socialmente responsável zela pelo bem-estar de seus stakeholders e busca gerar um impacto positivo no seu entorno.
Por fim, a Governança diz respeito à forma como a empresa é administrada e controlada. Envolve a estrutura do conselho de administração, a ética e a transparência nos negócios, a gestão de riscos, a conformidade com leis e regulamentos, a relação com acionistas e a luta contra a corrupção. Uma boa governança garante a integridade da empresa e a confiança de seus investidores e da sociedade.
Inicialmente, a adoção de práticas ESG era vista por muitos como um custo adicional, uma filantropia forçada. No entanto, o cenário mudou drasticamente. Investidores, cada vez mais conscientes dos riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade, começaram a incorporar critérios ESG em suas análises e decisões de investimento. Instituições financeiras passaram a oferecer produtos e linhas de crédito com condições diferenciadas para empresas com bom desempenho em ESG.
O impacto no mundo empresarial tem sido profundo e abrangente. Grandes corporações, pressionadas por investidores, reguladores e consumidores, têm integrado o ESG em suas estratégias de negócio, desde a concepção de produtos mais sustentáveis até a implementação de políticas de diversidade e inclusão. Mas o que dizer das Pequenas e Médias Empresas (PMEs)?
Para as PMEs, a adoção de práticas ESG pode parecer um desafio maior devido a recursos mais limitados. No entanto, os benefícios são igualmente relevantes. Uma PME que se preocupa com a gestão de seus resíduos, com as condições de trabalho de seus funcionários e com a transparência em suas operações pode fortalecer sua reputação, atrair e reter talentos, reduzir custos (por exemplo, com o uso eficiente de energia e água), inovar em seus produtos e serviços e, inclusive, acessar novos mercados e linhas de crédito. Além disso, a crescente demanda por produtos e serviços de empresas com propósito abre um leque de oportunidades para negócios menores que adotam uma postura ESG.
O impacto do ESG não se restringe ao mundo dos negócios; ele ressoa profundamente na vida pessoal e na sociedade como um todo. Ao priorizar empresas com boas práticas ambientais, sociais e de governança, os consumidores exercem seu poder de escolha, incentivando um mercado mais responsável e sustentável. A busca por empresas que respeitam o meio ambiente contribui para a preservação dos recursos naturais e a mitigação das mudanças climáticas, impactando a qualidade do ar que respiramos, a água que bebemos e a saúde do planeta para as futuras gerações.
A dimensão social do ESG se traduz em empresas mais justas e inclusivas, que oferecem melhores condições de trabalho, promovem a diversidade e contribuem para o desenvolvimento das comunidades onde atuam. Isso se reflete em uma sociedade mais equitativa, com menos desigualdade e mais oportunidades para todos.
A boa governança, por sua vez, fortalece a confiança nas instituições, combate a corrupção e promove a estabilidade econômica. Empresas transparentes e éticas constroem relacionamentos sólidos com seus stakeholders e contribuem para um ambiente de negócios mais íntegro e previsível.
A marcha do ESG é, por vezes, lenta e enfrenta desafios. Há o greenwashing, a maquiagem de práticas insustentáveis com um verniz de responsabilidade. Há a dificuldade em padronizar métricas e garantir a comparabilidade entre diferentes empresas. Mas a direção é clara e irreversível. A crescente conscientização da sociedade, a pressão dos investidores e a percepção de que a sustentabilidade não é um custo, mas sim uma oportunidade de gerar valor a longo prazo, impulsionam a adoção do ESG em todos os setores da economia.
Em Porto Alegre, aqui onde moro, ou em Paris, assim como em qualquer canto do planeta, a incorporação dos princípios ESG nas empresas e nas nossas escolhas cotidianas é um passo fundamental para construirmos um futuro mais justo, próspero e ambientalmente saudável. A responsabilidade não é apenas das grandes corporações; cada indivíduo, cada pequena empresa, cada decisão de consumo conta nessa jornada rumo a um mundo mais sustentável. A marcha lenta do bem continua, e cada passo, por menor que seja, nos aproxima de um futuro onde o lucro e o planeta caminham juntos.
Vamos então navegar nessa onda do ESG, torcendo para que as planilhas de sustentabilidade não virem piada de escritório e que o "greenwashing" seja apenas uma cor de tinta desbotada. Afinal, no fim das contas, queremos um planeta habitável e empresas que deem lucro, sem que a gente precise escolher entre abraçar uma árvore e pagar o boleto no fim do mês. Que venham os resultados (e que eles sejam tão verdes quanto a gente espera!).




Comentários