A MANIA DE TER FÉ
- Carlos A. Buckmann
- 16 de jun.
- 5 min de leitura

A MANIA DE TER FÉ (*)
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
Certa vez, em meados dos anos 1970, o poeta mineiro Fernando Brant contou a Milton Nascimento a história de uma mulher que conhecera em Diamantina. Ela morava à beira dos trilhos do trem, criava os filhos sozinha, passava fome, mas fazia de tudo, tudo mesmo, para mantê-los na escola.
Milton ouviu calado. Depois, disse que aquela mulher era “uma aula de vida”.
Dessa conversa nasceu uma das canções mais regravadas da história da música brasileira: “Maria, Maria”, parceria que se somou a outras tantas, Travessia, Canção da América, Nos Bailes da Vida, forjadas ao longo de décadas de amizade e criação compartilhada.
Brant era o principal parceiro de Milton, aquele que vestia de palavras as melodias que pareciam vir de outra dimensão. Juntos, ajudaram a fundar o Clube da Esquina, movimento que misturou Beatles, tambores de congada, jazz e moda de viola como nunca antes se ouvira neste país.
Mas voltemos à tal mulher. Não àquela de Diamantina especificamente, mas a todas as Marias que ela representa.
O cronista, que já vagueou por ruas e ruínas, aprendeu que há uma pergunta que não cessa: como alguém que carrega tanta dor ainda consegue sorrir? Como se explica essa “estranha mania de ter fé na vida”, como canta a canção?
A filosofia, com suas respostas claras e conceitos bem aparados, muitas vezes se cala diante disso. É preciso então escutar a música. É preciso deixar que cada estrofe corte a carne do pensamento.
“Maria, Maria é o som, é a cor, é o suor / É a dose mais forte e lenta / De uma gente que ri quando deve chorar / E não vive, apenas aguenta”
O poeta nomeia o que a filosofia às vezes esquece: que a existência de muitos não é vida plena, mas sobrevivência, um “apenas aguenta”.
Simone Weil, pensadora do sofrimento e do trabalho operário, escreveu que a infelicidade extrema não chora; ela se torna anônima, cinzenta, silenciosa.
Mas essa Maria, ao contrário, ri quando deveria chorar. Não é masoquismo. É um recurso último: o riso como resistência, como recusa a dar ao mundo o espetáculo da própria ruína. Essa Maria, não é cristã, ela é pagã: ela suporta, sim, mas também canta. O suor e o som são indissociáveis.
“Mas é preciso ter força, é preciso ter raça / É preciso ter gana sempre / Quem traz no corpo a marca / Maria, Maria mistura a dor e a alegria”
O imperativo “é preciso”, repetido como um mantra, ecoa o você precisa do existencialismo sartriano. Jean-Paul Sartre afirmava que o ser humano está condenado a ser livre, e que essa liberdade é uma angústia porque nenhuma desculpa externa nos salva.
Porém, a liberdade é ainda mais dura: não se trata de escolher entre projetos grandiosos, mas de escolher, todos os dias, continuar. “Raça” e “gana” são categorias que não constam nos compêndios de filosofia acadêmica, mas que o povo sabe de cor. E a marca no corpo, essa pele que carrega a história, é o que torna a mistura de dor e alegria não uma contradição, mas uma síntese viva.
“Mas é preciso ter manha, é preciso ter graça / É preciso ter sonho sempre”
A “manha” é a sabedoria de quem não pode enfrentar o mundo de frente, de igual para igual, e aprende a contornar, a desviar, a sobreviver pela astúcia.
Michel de Certeau, em “A Invenção do Cotidiano”, chamou isso de “tática”, as pequenas artimanhas dos fracos diante do poder.
A “graça”, por sua vez, é o encanto que não se compra, a leveza que não se ensina. Mas é o “sonho sempre” que mais me intriga. O filósofo Ernst Bloch dedicou uma obra inteira, O Princípio Esperança, para mostrar que o sonho não é fuga, mas antecipação, um vislumbre do que ainda não é, mas pode vir a ser.
Sonhar sempre, para Maria, não é alienação; é o motor da revolta silenciosa.
“Quem traz na pele essa marca / Possui a estranha mania de ter fé na vida”
Eis o cerne da canção, e o maior desafio para o filósofo. Chamar a fé de “mania” é genial porque desmonta qualquer tentativa de torná-la sublime ou virtuosa. A fé aqui não é religiosa, não há igreja, não há dogma. É uma aposta absurda no valor de viver, mesmo quando todas as evidências empíricas apontam para o contrário.
Ela tem fé na vida não porque a vida mereça, mas porque ela precisa. A “mania” de Maria é exatamente isso: uma teimosia que a razão não justifica, mas que a carne conhece.
“Mas é preciso ter força, é preciso ter raça / É preciso ter gana sempre / Quem traz no corpo a marca / Maria, Maria mistura a dor e a alegria”
A repetição da primeira estrofe não é mero recurso poético. Ela é ritual. A cada volta do refrão, o ouvinte é convocado a reafirmar o pacto: viver é misturar o que a lógica separa. A dor e a alegria não se anulam; coexistem como as águas de um mesmo rio sujo e precioso.
Baruch Espinosa, o filósofo que entendia a alegria como aumento da potência de agir, jamais negaria que a dor é diminuição. Mas sua ética não é dualista: a mesma substância que se alegra também se entristece. A marca no corpo, o histórico, o social, o biográfico, é o lugar dessa coexistência.
“Mas é preciso ter manha, é preciso ter graça / É preciso ter sonho sempre / Quem traz na pele essa marca / Possui a estranha mania de ter fé na vida”
A canção termina como começou: em espiral. Não há conclusão, não há catarse. Apenas a reiteração de que sobreviver é um trabalho artesanal, diário, anônimo. E é precisamente por isso que esta música, lançada em 1978 no Clube da Esquina 2, tornou-se um hino que atravessa gerações, sendo regravada mais de 140 vezes, a mais regravada de todo o repertório de Milton Nascimento.
Porque ela fala do que ninguém consegue ensinar, mas todos reconhecem: a mania de ter fé na vida, mesmo quando a vida teima em não merecer.
Maria. Ela não sabia que sua luta diária viraria poesia. Não sabia que sua “mania” inspiraria um balé do Grupo Corpo, uma gravação de Elis Regina, um clipe quarenta anos depois, e esta crônica que agora termino.
Pois é assim que a filosofia encontra seu limite: não nos conceitos, mas no som, na cor, no suor de uma Maria qualquer que ri quando devia chorar.
O cronista, diante disso, só pode calar e escutar. E, ao escutar, aprender que a fé na vida não precisa de justificativa. Precisa, isso sim, de coragem.
Coragem para ser manha, graça, força, raça, gana e sonho; tudo ao mesmo tempo, numa mistura de dor e alegria, que cansa e levanta.
No fim das contas, a “estranha mania de ter fé na vida” é o que nos resta quando tudo o mais já se perdeu.
E, talvez, o que nos salva.
(*) Assista o clipe no YouTube:




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