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A LÓGICA DOS NÚMEROS

  • Carlos A. Buckmann
  • 26 de mai. de 2025
  • 4 min de leitura

A LÓGICA DOS NÚMEROS

            Desde os primórdios da civilização, essas entidades abstratas têm tecido a própria tapeçaria da nossa compreensão do universo. Dos entalhes ósseos que registravam a contagem de animais abatidos às complexas equações que desvendam os mistérios do cosmos, os números sempre foram a linguagem fundamental da ordem e da mensurabilidade. Pitágoras já vislumbrava a essência numérica em todas as coisas, e os astrônomos caldeus perscrutavam os céus, decifrando os movimentos celestes em intrincados cálculos. A própria arquitetura das pirâmides egípcias e a precisão dos calendários maias atestam a sofisticação do pensamento matemático ancestral.

            Sempre me fascinaram os números. Desde menino, quando descobri que dois mais dois não era apenas um capricho dos professores, mas uma verdade inapelável do universo. Havia algo de sagrado naquelas figuras geométricas que representavam quantidades discretas, exatas, inegociáveis. Foi através dos números que o homem mediu a Terra, pesou os astros, dividiu o tempo e construiu civilizações.

            Com o tempo  e algum amadurecimento profissional,  percebi que o mesmo rigor que permitiu calcular a distância entre Marte e a Terra deveria ser aplicado aos negócios. “Se você pode medir, você pode gerenciar”, ensinou Robert S. Kaplan, e a frase me atingiu como um raio bem planejado.

            Kaplan, para os menos íntimos, é um dos pais do “Balanced Scorecard”, uma metodologia que ajudou empresas no mundo inteiro a sair do nevoeiro intuitivo e navegar com precisão rumo ao sucesso. Professor da Harvard Business School, Kaplan dedicou sua vida acadêmica a algo que muitos ignoram nas rodas de boteco: a importância dos indicadores. Seus estudos tornaram-se faróis para administradores que se perderiam em meio à subjetividade, não fosse por seus mapas matemáticos.

            Mas Kaplan não esteve só nessa cruzada. Peter Drucker, o pai da administração moderna, já advertia que “o que pode ser medido pode ser melhorado”. Taylor e Fayol, com seus postulados de gestão científica, também sabiam que sem números, tudo vira adivinhação — e adivinhar, convenhamos, é algo que pertence mais à cartomante do que ao gestor.

            No desenvolvimento da ciência da computação, sem a qual hoje nada se pode fazer no mundo dos negócios, a relação entre números e algoritmos é íntima, quase umbilical, pois os algoritmos são construções lógicas que operam, essencialmente, sobre números — sejam eles explícitos, como em cálculos financeiros, ou implícitos, como em classificações, rankings e decisões baseadas em dados quantitativos.

            Do grego “arithmos” (número) e do nome do matemático persa al-Khwarizmi, de onde deriva a palavra “algoritmo”, trata-se de uma sequência finita de instruções ou passos ordenados para resolver um problema ou executar uma tarefa. Esses passos podem ser tão simples quanto somar dois números ou tão complexos quanto prever o comportamento de um mercado financeiro.

            Os algoritmos, em sua essência, operam sobre dados. E dados, na maior parte das vezes, são expressos em forma numérica. Um algoritmo de vendas analisa valores de faturamento, quantidade de produtos vendidos, margens de lucro, entre outros. Um algoritmo de recomendação (como o da Amazon ou do Netflix) considera frequência de uso, tempo médio de consumo, nota atribuída etc. - Algoritmos financeiros analisam juros compostos, variância de ativos, curvas de crescimento, todos baseados em números. - Portanto, os números são o idioma dos algoritmos, e os algoritmos, por sua vez, são a gramática dessa linguagem.

            Hoje, empresas como Amazon, Google e Apple baseiam praticamente todas as suas decisões em dados. Nada é feito sem que se possa medir, prever, testar. Jeff Bezos, por exemplo, teria muito a conversar com Pitágoras, caso se encontrassem num bar além do tempo.

            Voltando à frase de Kaplan: “Se você pode medir, você pode gerenciar”, vemos que os algoritmos nos ajudam a medir com precisão, prever com base estatística e gerenciar com inteligência.

            Mas não é preciso ser uma gigante da tecnologia para beber da fonte dessa sabedoria. As pequenas e médias empresas, especialmente em países como o nosso, são os verdadeiros motores da economia e, paradoxalmente, muitas ainda andam no escuro, confiando mais no “sentir do dono” do que no “saber dos dados”.

            A frase de Kaplan é uma espécie de mandamento para a era dos algoritmos. Se medir é poder gerenciar, então “algoritmizar” é poder gerenciar com velocidade, profundidade e previsibilidade.

            Como diria um amigo meu que adora ironias numéricas: “Algoritmo não chora, mas te mostra exatamente onde você vai falir. E com precisão de duas casas decimais.”

            O pequeno empresário precisa medir. Vendas, margem, giro de estoque, ticket médio, inadimplência. Se puder ser contado, deve ser contado. E não apenas contado, mas registrado, analisado e acompanhado. Um bom software de gestão, planilhas bem estruturadas, relatórios periódicos, e sobretudo, um olhar atento sobre os desvios. Esse é o caminho para a longevidade.

            Ignorar os números é um luxo que sai caro. Lembro-me de uma pequena padaria, aqui no Sul, que durante anos prosperou pela simpatia do dono e a qualidade do pão. Mas, ignorando os custos crescentes e a queda no faturamento, foi perdendo o fôlego até encerrar as atividades. Também conheci uma farmácia que nunca soube seu ticket médio, e quando percebeu, já vendia muito, mas lucrava quase nada. Por outro lado, vi uma lojinha de roupas, no interior, crescer silenciosamente, apenas porque a dona fazia, toda semana, um relatório manual das vendas e dos produtos que mais giravam. Os números falavam com ela.  E ela, sabiamente, escutava.

            No fim das contas, literalmente, não é sobre ser um gênio da matemática. É sobre ter disciplina. Quem acompanha os números, acompanha a própria história. E quem não o faz, arrisca-se a ter uma crônica curta, mal escrita e sem final feliz.

            Como dizia meu antigo professor de contabilidade: “No final do mês, até o cafezinho entra na conta. E se não entrou, alguém está bebendo demais ou anotando de menos.”

 

 
 
 

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