A LUTA QUE NOS DEFINE
- Carlos A. Buckmann
- 13 de out. de 2025
- 3 min de leitura

A LUTA QUE NOS DEFINE
Desde cedo, compreendi que a vida não é um repouso, mas um exercício contínuo de resistência e transformação.
Aos quinze anos, já trabalhava, primeiro vendendo livros de porta em porta, depois, aos 18, de motorista de caminhão e o curso superior. Mais tarde como auxiliar administrativo e a profissão de contador.
Enquanto meus pares buscavam o lazer nos fins de semana, eu me refugiava nos livros: um por semana, religiosamente. Não por vaidade intelectual, mas por necessidade. Cada página era um degrau, cada ideia, um remédio contra a estagnação. Aprendi, assim, que o aperfeiçoamento não é um destino, mas um caminho, e que caminhar nele exige luta diária.
Nessa busca incessante encontrei a frase de Bertolt Brecht, dramaturgo alemão cuja vida foi tão marcada pela luta quanto suas obras: exilado pelo nazismo, perseguido pelo stalinismo, jamais se calou diante da injustiça. Ele escreveu:
“Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis.”
Essas palavras não me impressionaram apenas pela beleza poética, mas pela verdade filosófica que carregam. Brecht, aqui, não fala apenas de coragem episódica, mas de uma ética da persistência; a ideia de que o valor humano se revela não no gesto isolado, mas na constância da escolha.
Essa filosofia é essencial ao desenvolvimento do ser humano. Nietzsche, em sua crítica à moral do rebanho, afirmava que “aquilo que não me destrói me fortalece”, mas só se a luta for assumida como parte constitutiva da existência, não como acidente.
Da mesma forma, os estoicos antigos viam na adversidade não um obstáculo, mas o próprio campo de treinamento da virtude. Lutar não é sofrer passivamente; é agir com propósito, mesmo quando o mundo parece indiferente.
Nem toda batalha é travada sob holofotes. Há lutas que não fazem barulho, que não rendem manchetes, mas que moldam silenciosamente o caráter de quem as enfrenta. São essas lutas, discretas, persistentes, cotidianas, que muitas vezes definem o que há de mais sólido em nós.
A luta silenciosa é aquela que acontece longe dos aplausos. É o estudante que, mesmo exausto, revisa mais uma página antes de dormir. É o trabalhador que, sem reconhecimento, entrega seu melhor todos os dias. É o pai ou mãe que, entre contas e preocupações, ainda encontra tempo para ensinar valores aos filhos. Não há troféus para esses gestos, mas há dignidade.
Essa forma de resistência não se mede em grandes feitos, mas em pequenas decisões repetidas com coragem.
Na sociedade contemporânea, essa visão se traduz em lideranças que não se contentam com resultados imediatos. Warren Buffett, por exemplo, não se tornou um dos maiores investidores do mundo por golpes de sorte, mas por décadas de estudo, disciplina e paciência, uma luta silenciosa contra a volatilidade do mercado e a impaciência humana.
Da mesma forma, a Toyota construiu seu império não com inovações espetaculares, mas com o “kaizen”, filosofia japonesa de melhoria contínua, dia após dia, ano após ano.
Até mesmo figuras como Malala Yousafzai, que desde a infância desafiou o obscurantismo em nome da educação, personificam essa ideia: não foi um discurso que a tornou imprescindível, mas a decisão de continuar falando, mesmo após levar um tiro.
Infelizmente, vivemos em uma era que idolatra o sucesso rápido e despreza o esforço prolongado. Muitos começam com entusiasmo, mas desistem ao primeiro sinal de fadiga ou fracasso. Confundem cansaço com derrota. Esquecem que a luta não é um fardo, mas o próprio tecido da dignidade humana. Quem desiste não apenas abandona um objetivo; abandona a si mesmo, sua potência, sua promessa.
Por isso, volto aos livros, ao trabalho, à escrita, não porque acredito que um dia alcançarei a perfeição, mas porque acredito que cada dia de luta me torna um pouco mais humano.
E, como diria Brecht, talvez não sejamos todos imprescindíveis, mas podemos escolher lutar como se fôssemos.
É na luta contínua que nos tornamos necessários, a nós mesmos, aos outros, ao mundo que ainda não desistimos de transformar.




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