A LINGUAGEM NA CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE
- Carlos A. Buckmann
- 26 de out. de 2025
- 3 min de leitura

A LINGUAGEM NA CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE
Desde que abro a boca para nomear o mundo, ou me calo diante dele, estou me tornando. Não nasci sujeito; tornei-me sujeito no ato mesmo de dizer “eu”.
A linguagem não é apenas um instrumento que uso; é o solo em que minha subjetividade brota, o espelho em que me reconheço e, muitas vezes, o labirinto em que me perco. Antes de pensar, fui falado. Antes de sentir, fui nomeado. E é nesse entrelaçamento entre palavra e psique que me constituo, fragmentado, contraditório, mas inteiro na busca por dizer quem sou.
A psicologia, especialmente desde a virada linguística do século XX, compreendeu que não há inconsciente sem linguagem.
Lacan, com sua provocação incisiva, afirmou: “O inconsciente é estruturado como uma linguagem”. Para ele, o sujeito não habita o eu, mas o hiato entre o que diz e o que quer dizer.
Já a psiquiatria, mais voltada ao funcionamento, observa como distúrbios da linguagem: afasias, delírios, discursos desorganizados, revelam fissuras na própria estrutura do eu.
Em ambos os campos, a linguagem deixa de ser mero veículo de comunicação para se tornar o próprio tecido da identidade. Quando uma criança aprende a dizer “mamãe”, não apenas nomeia um ser, cria um laço. Quando um adulto repete “não sou nada”, não apenas se descreve, se aniquila simbolicamente.
A filosofia, por sua vez, mergulha ainda mais fundo.
Heidegger via a linguagem não como propriedade do homem, mas como “a casa do ser”: é nela que o mundo se abre, e o sujeito se instala.
Wittgenstein, com sua lucidez quase poética, nos advertiu: “Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo.”
E Foucault? Ele mostrou como os discursos dominantes, médicos, jurídicos, morais, não apenas descrevem a subjetividade, mas a fabricam.
Somos, assim, falados antes de falar, moldados por gramáticas invisíveis que nos ensinam o que é ser homem, mulher, louco, normal, desejável, inútil. A subjetividade, portanto, não é um núcleo íntimo e imutável, mas um efeito de linguagem em constante negociação com o poder, a história e o desejo.
É nesse cruzamento entre o sintoma e o sentido que a psicofilosofia se ergue. Ela não se contenta em interpretar o discurso do paciente como mero reflexo de um trauma, nem em desconstruí-lo apenas como efeito de um dispositivo de poder. A psicofilosofia escuta a linguagem como ato de existência.
Cada palavra dita, ou calada, é um gesto ontológico. Trata-se, então, de ajudar o sujeito não a corrigir sua fala, mas a reapropriar-se dela. Não a eliminar o delírio, mas a perguntar: que verdade ele tenta dizer quando a linguagem comum falha? Não a normalizar o discurso, mas a libertá-lo para que possa, enfim, dizer algo próprio.
Numa era de algoritmos que ditam nossas escolhas, de redes sociais que padronizam nossos afetos e de discursos polarizados que reduzem a complexidade humana a slogans, a psicofilosofia surge como um antídoto contra a colonização da subjetividade. Ela resgata a linguagem como espaço de encontro consigo mesmo e com o outro, não como mercadoria, nem como arma, mas como possibilidade de verdade. Em tempos de identidades prontas e respostas instantâneas, ela nos convida a demorar na pergunta, a hesitar na palavra, a duvidar do nome que nos deram.
Por isso, digo: não tema sua voz trêmula. É nela que reside sua singularidade. Não se apresse em encaixar sua dor em categorias alheias. Antes, pergunte: que linguagem minha alma ainda não encontrou? A subjetividade não é um dado, é uma tarefa. E a linguagem, longe de ser prisão, pode ser o primeiro passo de uma libertação.
Fale. Escreva. Gagueje, se preciso.
Porque só quando ousamos nomear o que nos habita, com todas as suas contradições, é que começamos, enfim, a existir por inteiro.




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