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A LIBERDADE QUE NOS LIMITA

  • Carlos A. Buckmann
  • 22 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

A LIBERDADE QUE NOS LIMITA

            Há algo profundamente irônico, e até trágico, na maneira como a humanidade lida com a liberdade.

            Nas civilizações antigas, os senhores se proclamavam livres enquanto milhares arrastavam correntes. Na Idade Média, a liberdade era privilégio da nobreza, enquanto o servo nascia preso à terra.

            Hoje, em pleno século XXI, a liberdade é vendida como produto universal: "seja livre para escolher", dizem os anúncios; "seja livre para empreender", repetem os manuais de sucesso. Mas basta olhar com honestidade para ver que a liberdade dos ricos é vasta como o mar, enquanto a da classe operária termina onde começa a jornada de trabalho, ou, pior ainda, onde termina o salário do mês.

            Foi nesse emaranhado de contradições que François-Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire, escreveu, com a clareza cortante de quem atravessou cárceres e exílios pela ousadia de pensar:

            “Talvez não haja questão mais simples do que a da liberdade; mas não existe outra que os homens tenham complicado mais.” 

            Filósofo, dramaturgo e feroz crítico da intolerância religiosa e do absolutismo, Voltaire viveu no século XVIII, num tempo em que a liberdade era um privilégio mascarado de direito natural. Ele viu reis governarem em nome de Deus, igrejas condenarem ideias e tribunais queimarem livros, tudo sob o verniz de uma ordem que se dizia justa. Sua frase, aparentemente simples, é um soco no estômago da hipocrisia: a liberdade deveria ser evidente, quase instintiva, mas os homens, ao tentar defini-la, controlá-la ou distribuí-la, transformaram-na em labirinto.

            E não mudou tanto assim.

             Hoje, nossa liberdade é condicionada por algoritmos que escolhem o que devemos ver, por contratos que nos obrigam a vender oito horas de vida por um salário que mal paga o aluguel, por leis que protegem propriedades mais do que pessoas.

            Jean-Jacques Rousseau, contemporâneo e crítico de Voltaire, escreveu no Contrato Social:

            “O homem nasce livre, e em toda parte está acorrentado.” 

            A ironia é que, para viver em sociedade, precisamos, de fato, acorrentar parte de nossa liberdade. Não posso gritar “fogo!” num teatro lotado só porque “sou livre”. Não posso tomar o que não é meu só porque desejo. A liberdade, quando absoluta, dissolve a própria sociedade, e nela, também, a si mesma.

            Kant, com sua ética do dever, nos ensina que a verdadeira liberdade não é fazer o que se quer, mas querer o que se deve. É a autonomia guiada pela razão, não pelo impulso.

            Hannah Arendt, no século XX, mostrou como a liberdade política, a capacidade de agir em conjunto, de participar do mundo comum, foi substituída por uma liberdade meramente individual, quase consumista: “liberdade” de escolher entre marcas, não de transformar estruturas. E assim, nossa liberdade se converte em escolha ilusória, em liberdade sem poder real.

            No mundo do trabalho, o paradoxo é brutal. Somos “livres” para aceitar ou recusar um emprego, exceto quando não comer depende dessa aceitação. Somos “livres” para inovar, desde que a inovação gere lucro para outrem.

            A liberdade se torna, então, uma armadilha elegante: quanto mais a proclamamos, mais nos submetemos às regras invisíveis do mercado, da produtividade, do desempenho constante. Michel Foucault diria que somos “libertados” para nos autovigiar, para internalizar a disciplina como se fosse escolha própria.

            A lei, por sua vez, é o espelho desse dilema. Ela não suprime a liberdade; organiza seu exercício. Mas, como alertava Montesquieu, a lei só é justa quando é igual para todos. Quando protege apenas os que já têm voz, ela não é limite à liberdade, é sua máscara.

            Voltaire, com sua ironia afiada, riria da nossa era: temos liberdade de expressão em redes sociais, mas somos cancelados por uma opinião; temos liberdade de consumo, mas estamos endividados até a alma; temos liberdade de escolha, mas nossas opções foram previamente filtradas por quem controla o sistema.

            No fim, talvez a questão da liberdade seja tão simples quanto respirar, e tão complexa quanto viver. Porque viver em comum exige que minha liberdade encontre a sua, sem esmagá-la. E os homens, em vez de buscar esse equilíbrio delicado, gastaram séculos construindo muros, nomes, sistemas e dogmas para explicar o que, em essência, deveria ser sentido: “que a liberdade verdadeira não é a ausência de limites, mas a consciência de que, sem respeito ao outro, ela se transforma em tirania”

            Assim, continuamos, livres para complicar o que é simples, e presos na liberdade que nos limita.

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora

 
 
 

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