A ILUSÃO DA MERITOCRACIA
- Carlos A. Buckmann
- 25 de jul. de 2022
- 4 min de leitura

A pedido de um amigo, resolvi publicar um pequeno extrato de um dos capítulos de meu próximo livro:
A ILUSÃO DA MERITOCRACIA
De acordo com a definição da Wikipédia, “O termo meritocracia, neologismo — do latim mereo e do grego antigo κράτος, transl. krátos — estabelece uma ligação direta entre mérito e poder. Tanto a palavra mérito quanto a palavra poder têm diversos significados, o que faz com que o termo meritocracia seja polissémico”.
De acordo com o vulgo palavrear dos economistas, é a recompensa pelo mérito, pelo desenvolvimento através do próprio esforço.
À primeira vista, nada mais justo, de quem mais se esforça, mais estuda, mais se prepara, tenha maiores e melhores resultados, recebendo por isso melhores remunerações.
Na literatura moderna, diversos autores têm publicado tratados e livros a respeito do assunto. Dentre eles sito as seguintes obras: A CILADA DA MERITOCRACIA de Daniel Markovits e A TIRANIA DO MÉRITO de Michel J. Sandel, onde essa teoria é minuciosamente estudada e desmistificada.
Numa sociedade democrática e mais igualitária, como as da Dinamarca ou Suécia, onde o ensino é gratuito e para todos em todos os níveis, do básico ao universitário, podemos falar em meritocracia. No nosso país, é uma utopia, no sentido pior da palavra, pensarmos em meritocracia. Como podemos esperar que pessoas sem acesso à educação, sem acesso a moradia e às condições mínimas de sobrevivência tenham condições de evoluir e competir com os privilegiados da classe rica e média alta?
Daniel Markovits, na obra citada acima, escreveu:
“A cilada da meritocracia não tem um rosto único .Uma concorrência, mas invencível, exclui adultos da classe trabalhadora e da classe média do carismático centro da vida econômica, nega a eles a renda e a dignidade que acompanham a capacidade de ganhar a vida decentemente e priva os filhos dessas pessoas da educação necessária para conquistar os empregos inacessíveis a seus pais”.
E mais enfaticamente complementa:
Uma teia de estranhamento e desconfiança isola os ricos dos demais e envolve ambas as categorias numa política embrutecida e vingativa, na qual, cada lado procura dominar o outro e a boa vontade se rende a má-fé”,
Nessa divisão injusta de classes, onde volto a defini-las Ricos, menos de 1% da população e que acumulam 80% da riqueza, classe média, que perfazem menos de 5% e que se julgam ricos (só se julgam, pois tem acesso a moradia, alimentação, saúde e ensino, conseguem ter um ou dois automóveis, às vezes um jet-ski e uma ou duas viagens ao exterior por ano, mas não tem avião, nem helicóptero, nem casa em Miami, portanto são classe média e não ricos e aqui não classifico os políticos, que são uma classe a parte, que se beneficiam dos privilégios desmedidos desse mundo que é só deles) os pobres, na qual me incluo, mas que a maioria se julga classe média, e que, na maioria dos casos não tem casa própria, ou se tem, é financiada e endividada até sua quarta geração, e os miseráveis, fora de todas as classes e incluídos apenas na categoria dos famintos e integrantes da “fila do osso”.
Talvez, você que está lendo, em sua grande maioria, seja da classe pobre, que se julga classe média, precise fazer um exame de consciência e se reclassificar. Você tem pouca chance de ser premiado pela meritocracia. E os sem classe, que por certo não conseguirão ler esse livro, tem chance zero.
Michael J. Sandel, em A TIRANIA DO MÉRITO, escreveu:
“Essa tendência a enxergar o mundo através das lentes de nossos ideais e nossas expectativas deixa evidente como a promessa meritocrática pode ser desmoralizante, até mesmo humilhante, para a classe trabalhadora e para eleitores da classe média.”
Voltamos assim a primeira fronteira a ser ultrapassada: A EDUCAÇÃO. –
Não quero de forma alguma desmerecer aqueles que por próprio mérito e com muita luta, conseguiram “seu lugar ao sol” e que conseguem melhores remunerações . Parabéns a esses heróis, que da pobreza, como exceção, e dos agraciados pela sorte do nascimento em famílias abastadas tiveram mais acesso a educação e nem por isso devem ser desmerecidos. Sendo redundante: mérito a essa meritocracia.
Nas atuais condições, em nossa democracia, onde os ricos ficam cada vez mais ricos, com a ajuda das benesses políticas e os pobres ficam cada vez mais pobres, muitas vezes caindo abaixo da linha da pobreza e chegando à miserabilidade, a meritocracia é uma corrida desigual. São amadores caminhantes de fins de semana competindo com atletas de alta performance. No tiro de largada, a distância se amplia em quilômetros. Não há como competir. A competição só será justa quando nossos caminhantes de fim de semana (as classes excluídas dos ricos e média alta) tiverem condições de treinar (com a educação) para atingir a alta performance.
Tony Blair, em sua campanha, preparando a sua agenda reformista do Partido Trabalhista em 1996 disse com toda a ênfase: “Pergunte minhas três principais prioridades para o governo e eu lhes direi: educação, educação e educação.” – Que bom, que modestamente, não sou uma voz solitária a pregar no deserto.




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