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A IDENTIDADE EM CONSTRUÇÃO

  • Carlos A. Buckmann
  • 18 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

A IDENTIDADE EM CONSTRUÇÃO

            Há, em cada um de nós, um teatro íntimo onde dois atores jamais deixam o palco: o eu que sente e o eu que pensa.

            Um geme nas sombras do corpo, pulsante, visceral, feito raiz que busca água na escuridão; o outro ergue-se na luz da razão, ordenando o caos com a geometria fria dos conceitos. Entre eles, não há paz duradoura, mas um diálogo contínuo, às vezes harmonioso, outras vezes um duelo silencioso. É nesse entrelugar que a identidade se tece, não como essência fixa, mas como narrativa em constante reescrita.

            A psicologia, ciência da alma medida, observaria esse embate com olhos clínicos. Diria que o sentir é domínio do inconsciente, dos afetos, das memórias corporificadas, tal como Freud via o id, aquela força primordial que exige satisfação imediata. Já o pensar seria a província do ego, mediador entre desejos internos e exigências do mundo.

            A psiquiatria, por sua vez, mais inclinada ao diagnóstico e à intervenção farmacológica, poderia ver nesse conflito os sintomas de um desequilíbrio químico ou estrutural: ansiedade, depressão, dissociação, rótulos úteis, mas que muitas vezes encarceram a complexidade da experiência humana em categorias estanques.

            Ambas, embora preciosas, correm o risco de reduzir o sujeito a um conjunto de funções ou disfunções, negligenciando o sentido que ele mesmo atribui à sua dor e à sua existência.

            Já a filosofia, desde Sócrates até os dias atuais, jamais se contentou com explicações meramente funcionais.

            Para Descartes, o pensar era a prova irrefutável do ser: Cogito, ergo sum. Mas será que o sentir não grita com igual força? Spinoza, com sua ética racional, via os afetos não como inimigos da razão, mas como forças a serem compreendidas e integradas, pois “não rimos porque estamos felizes; estamos felizes porque rimos”, diria ele, invertendo a causalidade comum. Nietzsche, por sua vez, desconfiava da razão pura: “o corpo é uma grande razão”, escreveu, lembrando-nos de que o pensamento nasce do solo carnal.

E Merleau-Ponty, fenomenólogo do corpo vivido, mostrou que pensar e sentir não são esferas separadas, mas modos entrelaçados de habitar o mundo.

            A filosofia, assim, não trata o sujeito como paciente, mas como agente de sentido; convida-o a interrogar, a duvidar, a se responsabilizar por sua própria construção.

            É aqui que surge, ou melhor, ressurge, a psicofilosofia: não como mero cruzamento de disciplinas, mas como uma nova postura diante do humano.

            A psicofilosofia recusa tanto o reducionismo clínico quanto o abstracionismo metafísico. Ela parte do pressuposto de que identidade é “práxis”: um fazer-se contínuo entre o afeto e o conceito, entre o grito e a reflexão. Inspirada em autores como Viktor Frankl, que via no “logos”, no sentido, a cura possível mesmo nos abismos do sofrimento, e em pensadores contemporâneos como Byung-Chul Han, que analisa a exaustão do eu “hiperconectado”, a psicofilosofia propõe um cuidado que escuta tanto o coração quanto a mente, sem hierarquizar um em detrimento do outro.

            Na consulta psicofilosófica, se é que podemos chamá-la assim, não há apenas diagnóstico, mas diálogo existencial. Não se pergunta apenas “o que você sente?”, mas “o que isso quer dizer para você?”. Não se busca apenas normalizar, mas humanizar. Trata-se de ajudar o indivíduo a reconhecer que sua identidade não está pronta, nem perdida: está em obra. E que, nessa obra, cada lágrima e cada pensamento são tijolos.

            Numa era de ansiedade generalizada, de identidades fragmentadas pelas redes sociais, de corpos exaustos e mentes sobrecarregadas, a psicofilosofia surge como antídoto contra a alienação. Ela nos lembra que não somos apenas usuários de algoritmos ou portadores de transtornos, mas seres capazes de narrar, reinterpretar e transformar nossa própria história. 

            Por isso, não tema o conflito entre o sentir e o pensar. Ele não é sinal de fraqueza, mas de vitalidade. A identidade não é um monumento a ser erguido, mas um rio a ser navegado, com coragem para mergulhar nas águas do afeto e lucidez para traçar o curso do pensamento.

            E se, às vezes, as águas turvam a visão, lembre-se: é justamente na turbulência que o “eu” se encontra. 

            Construa-se. Pense. Sinta.

             E, sobretudo, não pare de perguntar:

            Quem sou eu, agora?

 
 
 

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