A GÊNESE DO AMANHÃ
- Carlos A. Buckmann
- 25 de mai. de 2025
- 4 min de leitura

A GÊNESE DO AMANHÃ.
A vertiginosa celeridade com que a tessitura da existência e a dinâmica empresarial se metamorfoseiam impõe-nos uma reflexão constante sobre a natureza da previsão. Aquilo que outrora tangenciava os domínios da ficção científica, transmutando-se em artefatos e processos corriqueiros, atesta a volatilidade intrínseca ao tempo e a nossa capacidade, por vezes surpreendente, de inovar. A ubiquidade da comunicação instantânea, a sofisticação algorítmica que governa nossos hábitos de consumo e a crescente imbricação entre o físico e o digital são testemunhas eloquentes de um presente que outrora residia apenas nos anais da especulação futurista.
Ainda me lembro, como se fosse ontem, da primeira vez que ouvi alguém falar sobre inteligência artificial nos negócios — um conceito que, há poucas décadas, parecia pertencer mais aos filmes de ficção científica do que às prateleiras do varejo. Hoje, no entanto, ela está lá: discretamente embutida nos algoritmos que decidem o que o cliente deseja comprar antes mesmo que ele saiba disso. A velocidade com que o mundo se transforma não é apenas vertiginosa — é inegociável.
O que ontem era visto como um delírio futurista, hoje integra o cotidiano das empresas mais competitivas. O delivery por aplicativo, os robôs que fazem inventário, os sistemas preditivos de consumo, os programas de fidelidade baseados em comportamento de compra... tudo isso, que parecia distante, agora determina o presente — e molda o amanhã. Não há mais tempo para esperar que o futuro nos alcance. É preciso ir ao encontro dele.
Nesse contexto de incessante mutação, ecoa com particular ressonância a assertiva profética de Peter Drucker: “A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo.” Drucker, pensador austríaco naturalizado americano (1909-2005), cuja erudição transbordava os limites da administração, legou-nos um corpus intelectual vastíssimo, permeado por insights profundos sobre gestão, economia e sociedade. Sua perspicácia residia na habilidade de discernir as tendências emergentes e, crucialmente, de enfatizar o papel proativo das organizações e indivíduos na conformação do porvir. Longe de ser um mero exercício de adivinhação, o futuro, para Drucker, era um constructo, uma tela em branco à espera da pincelada da ação deliberada e estratégica.
Outros pensadores também endossam essa visão. Clayton Christensen, em The Innovator’s Dilemma (O Dilema da Inovação), argumenta que a disrupção nasce justamente quando empresas ousam criar novas formas de fazer, em vez de apenas otimizar o velho. Gary Hamel afirma que “a única vantagem competitiva sustentável é a capacidade de reinventar-se constantemente”. E John Kotter, especialista em mudança organizacional, defende que líderes eficazes são aqueles que inspiram movimento — e não manutenção.
Inúmeras corporações inscreveram seus nomes nos anais da história empresarial ao encarnarem essa filosofia. A Apple, por exemplo, não apenas antecipou a convergência entre computação pessoal, entretenimento e telefonia móvel, mas a engendrou ativamente, redefinindo setores inteiros com seus produtos disruptivos. Da mesma forma, a Amazon transcendeu a mera livraria online para erigir um ecossistema de comércio eletrônico e serviços de computação em nuvem que moldou a maneira como consumimos e as empresas operam globalmente. Esses exemplos paradigmáticos ilustram a potência de uma visão audaciosa aliada a uma execução impecável na criação de um futuro outrora impensável.
No âmbito específico do mercado farmacêutico brasileiro, a Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias (FEBRAFAR) emerge como um exemplo notável de associativismo que, ao longo de sua trajetória, desempenhou um papel crucial na conformação do setor. Ao congregar redes independentes, a FEBRAFAR não apenas fortaleceu a capacidade negocial de seus membros, mas também fomentou a troca de melhores práticas, a implementação de padrões de qualidade e a antecipação de tendências regulatórias e de mercado. Sua atuação proativa contribuiu significativamente para a profissionalização e o desenvolvimento do segmento, demonstrando como a colaboração estratégica pode ser um motor poderoso na criação de um futuro mais robusto e resiliente para seus integrantes. Desde sua fundação em 2000, a FEBRAFAR tem impulsionado a profissionalização do varejo independente, conectando diferentes players do mercado e fortalecendo a competitividade das farmácias associadas. Seu modelo colaborativo e proativo, permite que pequenos empresários com acesso às melhores ferramentas de gestão, com uso de tecnologias próprias e únicas, aprimorem a gestão e ampliem sua relevância no setor.
A proposição de que a criação precede a previsão encontra eco em outros luminares do pensamento estratégico e da inovação. Clayton Christensen, com sua teoria da inovação disruptiva, demonstra como novas entrantes, ao desafiarem os modelos de negócio estabelecidos, pavimentam caminhos inesperados para o futuro. W. Brian Arthur, economista da complexidade, argumenta que os sistemas econômicos evoluem de maneira não linear, influenciados por “path dependence” e “increasing returns” (dependência da trajetória e retornos crescentes), nos quais as escolhas iniciais e os investimentos estratégicos podem criar trajetórias futuras distintas. Esses autores, cada um a sua maneira, reforçam a ideia de que o futuro não é um destino inexorável, mas sim o resultado de decisões e ações presentes.
Para as pequenas empresas, e em particular para as pequenas farmácias, a adoção dessa mentalidade proativa não é um luxo, mas uma necessidade premente em um ambiente de competição acirrada e de rápidas transformações. Em vez de se limitarem a reagir às mudanças do mercado, essas empresas podem e devem buscar ativamente a criação de seu próprio futuro. Isso pode envolver a identificação de nichos de mercado desatendidos, a implementação de serviços diferenciados, o investimento em tecnologia para otimizar a gestão e aprimorar a experiência do cliente, e a construção de relacionamentos sólidos com a comunidade local. A capacidade de inovar em pequena escala, de adaptar-se com agilidade e de antecipar as necessidades de seus clientes pode ser o diferencial crucial para a sustentabilidade e o sucesso a longo prazo.
A máxima de Drucker nos convida a abandonar a postura de meros espectadores do devir e a nos tornarmos arquitetos conscientes do amanhã. A história nos ensina que aqueles que ousam imaginar e implementar novas realidades são os verdadeiros artífices do futuro. E, parafraseando um célebre físico, se o futuro é incerto, que ao menos nos encontre trabalhando nele – de preferência, antes que ele nos encontre desprevenidos.




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