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A FÍSICA DO VIVER

  • Carlos A. Buckmann
  • 26 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

A FÍSICA DO VIVER

            Observo, da janela do meu quarto, uma folha que se desprende do galho mais alto do ipê. Ela não cai, ela “dança”. Gira, hesita, avança, recua, como se o vento fosse seu parceiro numa valsa invisível. Nada na natureza repousa verdadeiramente.

            O rio não para; as nuvens não se fixam; até as montanhas, que parecem eternas em sua imobilidade, são lentas esculturas do tempo, corroídas pelo vento, erguidas por forças tectônicas. A vida pulsa em movimento, desde o espermatozoide que alcança o óvulo até o último suspiro que se dissolve no ar. O repouso é ilusão, intervalo, pausa entre atos, nunca estado final.

            Nós, humanos, somos feitos de deslocamentos. Fisicamente, claro: caminhamos, corremos, fugimos, abraçamos. Mas também emocionalmente: amamos, odiamos, desejamos, nos arrependemos.

            Psicologicamente, somos fluxos. Carl Jung diria que somos rios de inconsciente, sempre buscando a individuação, movimento interno rumo ao si mesmo. Nietzsche, com seu eterno retorno, nos lembraria que até a repetição é movimento circular, não estagnação. E Bergson, com sua “duração”, afirmaria que o tempo não é cronômetro, mas experiência viva, movimento qualitativo da consciência.

            Onde há vida coletiva, há tensão, conflito, evolução.

            Revoluções nascem de corpos em movimento, nas ruas, nas ideias, nas greves. O capitalismo, por mais cruel que seja, é máquina de movimento: mercadorias circulam, capitais voam, trabalhadores se deslocam. Até o silêncio social é movimento contido, pressão que um dia explode. Hannah Arendt já nos alertava: a ação humana é o que nos distingue, e ação é movimento no mundo compartilhado.

            Nos negócios, então, o movimento é dogma. Inovar, expandir, pivotar, escalar, verbos de ação, não de repouso.

            Empresas que param, morrem. Mercados que congelam, entram em colapso. Até o estoque parado é perda, o dinheiro deve fluir, girar, multiplicar-se. O mundo corporativo é uma dança frenética de oferta e procura, de risco e recompensa. Quem se senta, é ultrapassado.

            Galileu Galilei, aquele homem que ousou olhar para o céu com um telescópio e desafiar a Terra imóvel no centro do universo, proferiu:

            - “A condição natural dos corpos não é o repouso, mas o movimento.” 

            Nascido em Pisa, em 1564, Galileu não foi apenas físico ou astrônomo; foi um filósofo da natureza. Com ele, o universo deixou de ser hierárquico e fixo para tornar-se dinâmico, mecânico, regido por leis observáveis. Suas descobertas, as luas de Júpiter, as fases de Vênus, a inércia, abalaram os alicerces da cosmologia aristotélica e abriram caminho para Newton e, depois, Einstein. Galileu nos ensinou que o movimento não é exceção, é regra. Que o corpo em movimento tende a permanecer em movimento. Que o repouso é que precisa ser explicado, e vencido.

            E se isso é verdade para os astros, por que não para nós?

            Vivemos num tempo que idolatra a produtividade, sim, mas também que romantiza o “descanso absoluto”, como se parar fosse virtude em si. Não é.      Descansar é necessário, sim, mas como pausa estratégica, como respiração entre passos. O perigo está em confundir o descanso com a paralisia.        Há quem se instale no sofá da alma e chame isso de paz. Há quem se esconda na inércia e acredite estar seguro. Mas a vida não perdoa o imóvel. O mundo passa, e quem não se move, é abandonado, não por crueldade, mas por lei natural.

            Não estou aqui para glorificar o movimento cego, o ativismo sem propósito, o corre-corre vazio. Movimento sem direção é turbilhão, não progresso. Mas movimento com intenção, com coragem, com curiosidade, esse é o cerne da existência. Camus, ao falar de Sísifo, nos lembra que mesmo na repetição absurda, há dignidade no ato de empurrar a pedra. Porque o movimento, mesmo quando parece inútil, é afirmação de vida.

            Então, levante-se.

            Mesmo que seja devagar. Mesmo que seja com medo. Mesmo que seja sem saber exatamente para onde. Levante-se.

            Porque o universo inteiro está em movimento, e você, parte desse cosmos, não foi feito para ficar parado. Você foi feito para girar, crescer, errar, recomeçar, amar, lutar, construir, desfazer, sonhar, tentar.

            Repousar? Sim, quando necessário. Mas nunca se render ao repouso como destino.

            Galileu olhou para o céu e viu corpos em movimento. Olhe para dentro de si, e veja que você também é um desses corpos. E siga em frente.

            O mundo não espera. E a vida, essa força indomável, só pertence a quem se move.

BETO BUCKMANN

Crônicas entre ideias e pólvora

 
 
 

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