A FÉ E OS DEUSES
- Carlos A. Buckmann
- 15 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

A FÉ E OS DEUSES
Encontrei-a por acaso, como costumam acontecer os encontros mais significativos: na esquina de uma tarde outonal, quando o vento já trazia o cheiro de folhas secas e o mundo parecia mais lento, mais propenso à reflexão.
Era uma jovem que eu conhecia há anos. não amiga, não confidente, apenas uma dessas figuras que cruzam nosso caminho com frequência suficiente para que os cumprimentos não sejam meras formalidades, mas ainda assim sem intimidade capaz de desarmar as máscaras sociais.
Sentamo-nos em um café cujas paredes guardavam, em prateleiras empoeiradas, livros que ninguém mais lia. Falávamos de filosofia, como sempre fazemos quando o silêncio ameaça ser mais incômodo que a fala. Ela mencionou Nietzsche, eu citei Pascal; ela sorriu ao falar de Sartre, e eu, com um gole de café amargo, respondi com Epicuro. Era um jogo antigo, esse de trocar ideias como quem troca pedras preciosas: sem pressa, com cuidado.
Até que ela perguntou, com uma ingenuidade que beirava a audácia:
- Você acredita em Deus?
Não hesitei. Sorri, como quem já esperava a pergunta há décadas, e devolvi: - Qual deles?
Ela franziu a testa. Seus olhos, antes tranquilos, acenderam-se de perplexidade. - Como assim, “qual deles”?
Expirei devagar, como se fosse preciso expelir todo o ar antes de convocar os séculos. E então falei:
- Desde que o homem ergueu os olhos para o céu, ele viu nele não um vazio, mas um espelho. Os sumérios viam Anu, Enlil, Inanna, deuses feitos de tempestades, amor e guerra. Os egípcios, Ísis, Osíris, Rá, forças cósmicas disfarçadas em figuras humanas. Os gregos tinham os olímpicos, tão humanos em seus ciúmes e paixões que mal pareciam divindades. Roma os herdou e deu-lhes nomes latinos, mas manteve-lhes o sangue. Os povos germânicos tinham Odin, cuja sabedoria custava um olho. Os astecas ofertavam corações pulsantes a Huitzilopochtli. Os iorubás, nos trópicos africanos, teciam o mundo com os Orixás, Xangô, Iemanjá, Oxalá. E os hindus? Ah, os hindus têm uma multidão de deuses que dançam no fogo da existência, uns nascendo dos outros, uns dissolvendo-se nos outros, como ondas no mesmo oceano.
Fez-se um silêncio. Ela mexeu o açúcar no café sem beber. - E então? - insistiu, quase insegura. Continuei:
- Como dizer que todos estavam errados? Que milênios de humanidade, nas mais diversas latitudes e culturas, estavam simplesmente equivocados ao tentar nomear o inominável, ao buscar sentido no caos? Não. Prefiro acreditar em todos eles, não como entidades sobrenaturais, mas como símbolos vivos da capacidade humana de encontrar sentido. Acredito nos deuses como acredito na poesia: não porque eles existem fora de nós, mas porque existem profundamente dentro.
E, se preciso escolher um deus para chamar de meu, escolho o de Spinoza: “Deus ou a Natureza”. Não um velho barbudo nos céus, mas a potência inerente a tudo o que vive, desde a semente que rompe o solo com teimosia silenciosa até o pensamento que, em um instante de clareza, atravessa séculos. Deus, para Spinoza, não é transcendente: é imanente. É o próprio tecido do real. É a vida vivendo a si mesma.
Ela me olhava como se eu tivesse dito algo ao mesmo tempo herético e sagrado. Para amenizar e encerrar a conversa, contei-lhe que, alguns meses antes, em meu escritório, um colega mencionou que estava lendo a Bíblia. Eu, educado em colégio Marista, onde a cruz pairava sobre os cadernos e os professores citavam São Tomás com a mesma naturalidade com que ensinavam tabuada, disse-lhe, sem ironia: - Já li a Bíblia muitas vezes. Mas me diga: você lê com fé ou com razão? - Ele não titubeou: - Com fé. - Nesse instante, expliquei, com respeito e pedindo desculpas, fechei o livro da conversa.
Porque, como bem sabia Kant, entre fé e razão há um abismo que nenhuma boa vontade pode preencher. A fé deseja o inexplicável; a razão, explicá-lo. Um, busca conforto; o outro, verdade, ainda que incômoda. E não há diálogo possível quando os interlocutores não concordam nem sobre o terreno onde pisam.
Para mim, pelo menos, esse foi um encontro prazeroso. Para ela, espero, um pouco mais filosófico.
Ao escrever estas linhas, não proponho que renunciemos à fé, ela é, em muitos, o último refúgio contra o desespero. Mas peço que não confundamos fé com verdade. Que não eleve um deus ao trono da razão apenas porque ele consola.
A humanidade já teve mil deuses. Talvez o próximo seja a dúvida, e nela, finalmente, encontremos a humildade de admitir: NÃO SABEMOS.
E, nesse “não sabemos”, reside a única grandeza que nos distingue dos ídolos que criamos.
Beto Buckmann
Crônicas entre ideias e pólvora.




Comentários