A FORÇA INDOMÁVEL
- Carlos A. Buckmann
- 27 de abr. de 2025
- 4 min de leitura

A FORÇA INDOMÁVEL
Na aurora do século XX, quando a Índia ainda se encontrava sob os grilhões do domínio britânico, Mahatma Gandhi pronunciou uma das frases mais memoráveis da história: "A força não provém da capacidade física. Provém de uma vontade indomável." Essas palavras, nascidas no contexto das lutas pela independência, ecoaram como um chamado à resistência pacífica, uma pedra angular de sua filosofia. Gandhi, nascido Mohandas Karamchand Gandhi em 1869, cognominado Mahatma, a "Grande Alma", filho de um primeiro-ministro de estado na Índia, transcendeu seu papel como advogado. Tornou-se o arquétipo de liderança moral, um baluarte de princípios inabaláveis que moldariam não só o destino de sua terra natal, mas a própria compreensão do poder humano.
Em minha própria jornada, confesso ter vivenciado a veracidade dessas palavras em momentos cruciais. Não foram poucas as vezes em que me deparei com obstáculos aparentemente intransponíveis, situações que exigiam mais do que mera capacidade intelectual ou recursos materiais. Foi precisamente a persistência, a recusa em sucumbir ao desânimo, a crença inabalável em um propósito que me impulsionaram adiante. E ainda estou aqui, a caminho de completar 80 anos.
A força de uma vontade indomável, tal como preconizada por Gandhi, não implica em uma cegueira teimosa diante dos fatos concretos. Pelo contrário, reside em uma capacidade ímpar de manter o rumo em meio às turbulências, mas também de discernir quando o leme precisa ser ajustado. A vida, assim como o mundo dos negócios, é pródiga em apresentar obstáculos inesperados, desvios de percurso e, por vezes, muros aparentemente intransponíveis. A verdadeira maestria reside, então, na habilidade de dançar nessa dialética entre a obstinação e a adaptação.
No âmbito pessoal, essa dialética se manifesta na capacidade de perseguir um objetivo com fervor, mas de recalcular a rota quando as circunstâncias o exigem. Um escritor que almeja publicar um romance pode enfrentar inúmeras rejeições de editoras. A vontade indomável o impulsiona a continuar escrevendo e buscando oportunidades, mas a adaptação pode envolver a revisão da obra, a exploração de diferentes gêneros ou até mesmo a decisão de trilhar o caminho da publicação independente. A essência do desejo permanece, mas a forma de alcançá-lo se molda à realidade.
No intrincado universo dos negócios, a máxima “gandhiana” ressoa com ainda mais intensidade. Quantas empresas floresceram não por disporem inicialmente de vastos recursos financeiros ou tecnológicos de ponta, mas sim pela visão obstinada de seus fundadores? Steve Jobs, com sua visão audaciosa de colocar "mil músicas no seu bolso", enfrentou céticos e concorrentes estabelecidos. Sua vontade indomável de revolucionar a indústria da música e, posteriormente, a da telefonia e da computação pessoal, foi o motor que impulsionou a Apple a se tornar um gigante global. Da mesma forma, a trajetória da Natura, que nasceu pequena e com uma forte crença na sustentabilidade e nas relações humanas, demonstra como uma filosofia clara e uma persistência inabalável podem superar as limitações iniciais e construir um império empresarial com propósito.
Para as pequenas e médias empresas (PMEs), essa filosofia se revela um farol de esperança e uma bússola estratégica. Em um ambiente de negócios frequentemente dominado por grandes corporações, a capacidade de inovar com recursos limitados, de superar a escassez com criatividade e de manter o foco diante das dificuldades se torna um diferencial competitivo crucial. Uma PME que possui uma visão clara de seu nicho de mercado, uma paixão genuína pelo que faz e uma equipe engajada e resiliente pode, mesmo com orçamentos modestos, conquistar seu espaço e prosperar. A força motriz reside não no tamanho do capital inicial, mas na tenacidade em perseguir os objetivos e na adaptabilidade para contornar os obstáculos.
A frase de Gandhi nos convida a olhar para além da mera força física, direcionando nosso foco para a potência da vontade. Mas o que alimenta essa vontade, o que a mantém acesa mesmo diante dos ventos contrários? A resposta reside, em grande parte, na paixão e no propósito que impulsionam nossas ações.
Quando um indivíduo ou uma organização é movido por uma paixão genuína por aquilo que faz, a resiliência se torna intrínseca. A paixão infunde energia, criatividade e uma disposição para superar obstáculos que, de outra forma, pareceriam insuperáveis. Um artesão que ama o seu ofício, por exemplo, dedicará horas incontáveis ao trabalho, aperfeiçoando cada detalhe, não por obrigação, mas por um prazer intrínseco na criação. Essa dedicação apaixonada muitas vezes se traduz em produtos de qualidade superior e em um diferencial competitivo no mercado.
A história nos oferece inúmeros exemplos de indivíduos e organizações que personificaram essa indomável vontade. Nelson Mandela, encarcerado por décadas por sua luta contra o apartheid, emergiu da prisão com uma resiliência e um espírito de reconciliação que surpreenderam o mundo, liderando a transição para uma África do Sul democrática. Sua firmeza de propósito diante da adversidade é um testemunho eloquente do poder da vontade sobre as circunstâncias.
A assertiva de Gandhi transcende a esfera política e ecoa em todos os domínios da existência humana. Seja na busca por um ideal pessoal, na construção de um empreendimento bem-sucedido ou na superação de desafios coletivos, a força que verdadeiramente nos impulsiona não reside na mera capacidade física ou nos recursos materiais disponíveis, mas sim na inabalável determinação de nossa vontade. Que essa reflexão nos inspire a cultivar essa força interior, a persistir diante dos reveses e a acreditar, com convicção inabalável, na capacidade de alcançar nossos objetivos, por mais árduo que o caminho possa parecer. A força física é finita; a vontade, infinita. Como Gandhi bem ensinou, é a determinação que move montanhas, constrói impérios e inspira legados. Que cada empreendedor, cada sonhador, se encontre fortalecido não apenas pelo que tem, mas pelo que acredita poder alcançar. Pois na vontade indomável reside o verdadeiro poder de transformar o impossível em realidade.
Então, CONTINUE. Mesmo que alguns chamem isso de TEIMOSIA.




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