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A FORMAÇÃO DO OUVIDO DA ALMA

  • Carlos A. Buckmann
  • 21 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

A FORMAÇÃO DO OUVIDO DA ALMA

A Arte de Praticar a Psicofilosofia

            Como conclusão dessa série de crônicas psicofilosóficas, onde defendi o desenvolvimento dessa nova ciência hibrida, voltamos ao território mais íntimo e complexo: a mente humana, não como máquina de resolver problemas, mas como lugar de encontro, de dor, de silêncio, de palavra mal-dita.

            Diante dela, surge uma pergunta que não cessa: “Como se forma alguém capaz de escutar de verdade?” Não apenas ouvir sons, mas acolher o que habita entre as palavras, o que treme, o que se esconde, o que ainda não tem nome.

            Formar-se como ouvinte não é adquirir uma técnica. É cultivar uma postura. É desaprender antes de aprender: desaprender a pressa, a necessidade de consertar, o impulso de comparar, a vaidade de ter sempre uma resposta. A escuta verdadeira nasce de um vazio, não de ignorância, mas de disponibilidade. Exige saberes, sim, mas também vivências; exige ética, antes de método.

            As habilidades necessárias não são as do orador, mas as do guardião silencioso: a capacidade de permanecer com o desconforto alheio sem tentar aplacá-lo com conselhos; a sensibilidade para perceber o que não é dito; a humildade de reconhecer que cada história é única e intransferível; a paciência para esperar que a verdade brote no seu próprio tempo.

            Isso não se ensina em um curso de fim de semana. Forma-se na escola da própria vulnerabilidade, no confronto com os próprios limites, no exercício diário de deslocar o foco de si mesmo para o outro, sem projetar, sem salvar, sem dominar.

            A psicologia há muito reconhece essas qualidades como centrais. Carl Rogers chamava isso de “condições facilitadoras”: empatia genuína, consideração positiva incondicional e congruência. Para ele, o terapeuta não cura, cria um clima onde o outro pode se curar a si mesmo.

            Já Irvin Yalom, psiquiatra e escritor, dizia que a cura nasce do encontro humano autêntico, e que o terapeuta deve ser, antes de tudo, um “companheiro de viagem”.

            Daniel Stern, estudioso da intersubjetividade, mostrou que desde os primeiros meses de vida, o bebê precisa de um “outro que vê” para se constituir. Escutar, portanto, é um ato fundador, não apenas clínico, mas existencial.

            A filosofia aprofunda essa visão.

            Emmanuel Levinas via na escuta uma responsabilidade ética radical: o rosto do outro me interpela antes mesmo de eu falar. Escutar não é escolha, é dever.

             Hannah Arendt defendia que o pensamento exige solidão, mas o entendimento exige diálogo e, portanto, escuta.

            Foucault, em seus últimos anos, voltou-se para as “práticas de si” na Antiguidade, mostrando que cuidar de si incluía aprender a escutar os mestres, os amigos, os próprios sonhos.

            E Merleau-Ponty lembrava que escutar é um modo de tocar o outro com os ouvidos, uma forma de presença encarnada.

            É nesse solo fértil que a psicofilosofia planta suas raízes. Ela não forma técnicos, mas “testemunhas sensíveis”. Seu caminho combina a rigorosa escuta clínica com a profundidade ética da filosofia.

            Quem pratica a psicofilosofia estuda, sim, teorias, conceitos, métodos. Mas, sobretudo, cultiva em si mesmo o que os antigos chamavam de “askésis”: exercício contínuo de autoconhecimento, de silêncio interior, de resistência à fala precipitada. Participa de rodas onde escuta mais do que fala; escreve diários onde interroga suas próprias reações; medita sobre o que o perturba no outro, porque ali está seu próprio espelho. A formação, portanto, é integral: mente, corpo, ética, alma.

Em nossa sociedade marcada pela fala compulsiva, pelo julgamento instantâneo, pela cultura do conselho rápido e da solução mágica, essa figura, o ouvinte verdadeiro, é rara. E urgente. Porque quando alguém é verdadeiramente escutado, não só se sente menos só, se sente real. E é nesse reconhecimento que nasce a possibilidade de cura, de transformação, de pertencimento.

Então, não busque ser quem dá as respostas. Busque ser quem cria o espaço onde as perguntas podem florescer.

            A formação do ouvido da alma não se mede em títulos, mas em quantas vezes você calou seu impulso para deixar o outro existir, inteiro, contraditório, humano.

            Porque, no fim, o mundo não precisa de mais vozes. Precisa de mais ouvidos capazes de escutar não apenas o que é dito, mas o que ainda busca uma voz. 

            E talvez, só talvez, ao aprendermos a escutar com profundidade, descubramos que fomos, também nós, finalmente ouvidos.

 
 
 

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