A FILOSOFIA DO MALANDRO
- Carlos A. Buckmann
- 4 de jun.
- 4 min de leitura

A FILOSOFIA DO MALANDRO (*)
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
Noel Rosa tinha um dom raro: extrair do dia a dia, das coisas miúdas, da poeira do balcão, temas para músicas incríveis.
Enquanto poetas empinavam voos métricos para o céu das abstrações, ele descia ao porão da existência: o botequim. Ali, entre café requentado e resultados de futebol, ele encontrou matéria-prima para uma das canções mais filosóficas da MPB: o “malandro” carioca da primeira metade do século XX. E é nesse microcosmo que a filosofia se revela.
“Seu garçom faça o favor de me trazer depressa / Uma boa média que não seja requentada”
Walter Benjamin, ao falar da perda da aura na era da reprodutibilidade técnica, talvez não imaginasse que seu conceito caberia perfeitamente num pedido de café. “Não seja requentada”, eis o grito da autenticidade. O que queremos, no fundo, é a experiência única, o instante que não se repete. Mas o botequim, como a modernidade, oferece sempre o requentado. Noel sabia: a luta contra o déjà vu é a luta do homem comum. Eu, cronista, também peço minha média original. Raramente vem.
“Feche a porta da direita com muito cuidado / Que não estou disposto a ficar exposto ao sol”
A escolha de fechar a porta é um ato de liberdade. O eu lírico não se submete ao ambiente; ele o molda.
Heidegger falaria do ser-no-mundo como sempre situado. Aqui, o sujeito decide sua situação: não à exposição. Filosofia existencial aplicada ao salão. Eu mesmo, certa manhã, pedi ao garçom que trocasse minha mesa. Não era sol, era corrente de ar. Mas a essência era a mesma: recusar o dado.
“Vá perguntar ao seu freguês do lado / Qual foi o resultado do futebol”
Que coisa notável: o “malandro” não pergunta diretamente. Ele delega ao garçom a mediação do outro.
Husserl, o fenomenólogo, ensinou que a consciência é sempre consciência de algo. Mas aqui a consciência do resultado do futebol passa pelo corpo do garçom. A intersubjetividade no botequim é um jogo de espelhos: eu quero saber, mas não quero falar com o freguês. Delego. A MPB capta essa dança sutil do não-dito. Quantas vezes, neste balcão da vida, pedimos que alguém pergunte por nós?
“Se você ficar limpando a mesa / Não me levanto nem pago a despesa”
Foucault, ao analisar as microfísicas do poder, mostrou que até o gesto mais banal, limpar uma mesa, é uma relação de força. O freguês, aqui, impõe sua lei: a limpeza interrompe o fluxo do seu estar. Não é mesquinhez; é um ato de resistência contra o tempo do trabalho alheio. O garçom que limpa simboliza a urgência do capital: consuma e saia. Noel responde com a imobilidade. Não saio, não pago. Pequena greve existencial. Eu, por vezes, faço o mesmo em cafeterias vagas: finjo que não vi o pano.
“Vá pedir ao seu patrão / Uma caneta, um tinteiro / Um envelope e um cartão”
O botequim transforma-se em escritório.
Hannah Arendt distinguia entre “labor” (o trabalho do corpo, repetitivo) e “ação” (a atividade política, criativa). Aqui, pedir caneta e envelope é tentar alçar o botequim à esfera da ação, escrever, enviar, responder. Mas o pedido é feito ao patrão, não a si mesmo. Há uma dependência das ferramentas.
Noel ironiza nossa pretensão de transcendência: queremos fazer arte, mas dependemos do dono do bar. A MPB nunca nos deixa esquecer que o espírito precisa de material.
“Telefone ao menos uma vez / Para três-quatro-quatro-três-três-três”
O número repetido, quase infantil, é um poema à parte.
Adorno, crítico da indústria cultural, via no telefone um símbolo da administração da vida. Mas Noel subverte: o telefone aqui é um pedido absurdo, uma repetição que vira mantra. “Três-quatro-quatro-três-três-três”, a sequência não leva a lugar nenhum. É puro som, puro ritmo. Nesse nonsense, há uma crítica à racionalidade burocrática. Pois quantas vezes discamos números que não lembramos, apenas obedecemos?
“Seu garçom me empresta algum dinheiro / Que eu deixei o meu com o bicheiro”
Nietzsche proclamou a transvaloração dos valores.
Aqui, Noel a pratica: o bicheiro, figura do jogo ilegal, da contravenção, é fiador informal do sujeito. A economia paralela sustenta a economia do café. O garçom, funcionário honesto, é convocado a emprestar. Que inversão! O filósofo do martelo diria que Noel quebrou as tábuas de valores: o bicheiro é mais confiável que o banco.
“Vá dizer ao seu gerente / Que pendure esta despesa / No cabide ali em frente”
Kierkegaard, o pai do existencialismo, distinguia os estádios: estético, ético, religioso. Este verso é a glória do estádio estético: viver o instante, adiar a dívida, transformar a cobrança em poesia. Pendurar a despesa no cabide é um ato surreal.
A seriedade do débito encontra o humor do gesto. O que a filosofia chama de “angústia perante a possibilidade”, Noel chama de “depois a gente acerta”.
Noel conseguia extrair do dia a dia temas para músicas incríveis porque sabia que o cotidiano é o único lugar onde a filosofia ainda respira.
Não nos grandes sistemas, mas no “malandro” pedindo de uma média não requentada. Não na teoria do conhecimento, mas na porta fechada para não levar sol.
A MPB, quando filosofa, não ergue púlpitos. Puxa uma cadeira de botequim, pede um cigarro pra espantar mosquitos e, entre um gole e outro, nos ensina que a vida é conversa fiada.
E que o sentido, se existe, está nesse intervalo. Na despesa pendurada. No número discado sem destino. No café que, ao vir, nunca é o prometido.
Levanto-me, mas deixo o guardanapo.
Ainda tenho fé no requentado.
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