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A FILOSOFIA DO AMOR PARADOXAL

  • Carlos A. Buckmann
  • 6 de jun.
  • 5 min de leitura

A FILOSOFIA DO AMOR PARADOXAL (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Estava rascunhando o texto desta crônica, sentado à mesa de um café que costumo frequentar no centro de Porto Alegre, mais precisamente na Rua da Praia, hoje sem praia, apenas asfalto e memórias.

            O garçom, que me atende há tempos, aproximou-se com o café que sempre peço: média não requentada, por ironia ao velho Noel.

            Perguntou, solícito:

            “O que o senhor está escrevendo, dessa vez?”

            Respondi:

            “Uma crônica sobre uma canção de Sérgio Bittencourt, “Eu quero.” 

            Ele franziu a testa, espantado.

            “Sérgio quem? Nunca ouvi falar.”

            E eu, que já esperava esse tipo de reação, sorri amargamente.

            Esse espanto do garçom é um sintoma. Vivemos uma ignorância coletiva que não é apenas falta de informação, mas uma política ativa do esquecimento.

            A indústria cultural transforma arte em mercadoria descartável. Quem não está no fluxo do algoritmo, ou quem nunca esteve, simplesmente desaparece.

            Bittencourt, compositor admirável, dono de uma obra filosófica disfarçada de samba, é hoje um ilustre desconhecido para a maioria. E não é exceção. A Rua da Praia, que já foi palco de encontros e debates, agora é corredor de olhares fixos em telas. O garçom não tem culpa. A culpa é de um tempo que cultua o novo e enterra o antigo sem cerimônia.

            “Eu quero” é uma das letras mais densas já escritas na MPB. E nela, Sérgio Bittencourt nos ensina que o amor não é um sentimento simples, é um campo de batalha de vontades, paradoxos e liberdades. A filosofia está aí, em cada verso.

            “Eu quero que você me ame / Que você me chame quando precisar”

            O primeiro verso já instaura uma contradição. Querer ser amado é pedir que o outro nos queira. Mas o “quando precisar” acrescenta uma condição: o amor aqui não é posse, é disponibilidade.

            A verdadeira relação com o outro se dá na resposta ao seu chamado. Amar é estar à disposição da necessidade alheia, sem garantias. Bittencourt antecipa a ética da alteridade: eu quero que você me ame, mas sobretudo que me chame quando precisar.

            “Eu quero saber ir embora / Sem ter dia e hora pra poder voltar”

            A liberdade como condição do amor. Queremos ser o mundo inteiro para o outro, mas também queremos que o outro nos reconheça como livres. Saber ir embora sem saber quando voltar é o ápice da liberdade. Não é indiferença, é coragem de não prender.

            Quem ama de verdade permite a ausência. Bittencourt fala do “ser-para-a-partida” como consciência da alteridade. Eu, que já fiquei tempo demais onde não deveria, reconheço nesse verso uma lição tardia.

            “Eu quero enquanto o tempo passa que você na raça / saiba me ganhar”

            O tempo passa, essa é a única certeza. E nesse passar, o amor não é um estado, mas uma conquista contínua. “Na raça” significa esforço, suor, presença. Saber me ganhar é aumentar a potência do encontro. Bittencourt recusa o amor passivo, o “cair de paraquedas”. Quer o amor que se faz no ringue da vida. Da minha mesa, olho os casais que passam na Rua da Praia. Quantos ainda se ganham?

            “Eu quero ter a vida inteira / Pra fazer besteira e você perdoar”

            Não porque o erro seja desejável, mas porque a perfeição é inumana. Pedir a vida inteira para fazer besteiras é admitir nossa falibilidade. E pedir perdão é reconhecer o outro como juiz absoluto, não no tribunal da lei, mas no tribunal do coração. Bittencourt sabia: o amor que não comporta o erro é um amor de fachada.

            “O que eu sei hoje da vida / Até Deus duvida e eu vou te ensinar”

            “Até Deus duvida”. Há uma teologia negativa aqui. Não é que Deus não exista, mas que o conhecimento humano é tão precário que até a divindade hesitaria. “Eu vou te ensinar”, não como quem tem a verdade, mas como quem tem a dúvida compartilhada. Sócrates ensinava com perguntas. Bittencourt ensina com incertezas.

            “Eu sei dizer tudo que eu sinto / E até o que eu não sinto pra me disfarçar”

            Não é cinismo; é máscara social. Dizer o que não se sente é parte do jogo. Mas Bittencourt não se orgulha, constata. E, ao constatar, filosofa sobre a dificuldade da autenticidade. O eu lírico admite que se disfarça.

            “Eu sei calar na hora exata / Eu sei que a dor não mata mas pode marcar”

O silêncio na hora exata é uma sabedoria estoica. Calar não é fraqueza, é poder sobre a língua. E o segundo verso: “a dor não mata mas pode marcar”. Verdade que toda cicatriz confirma. A dor não é fatal, mas é escritora: inscreve memória no corpo. Quantas marcas eu carrego? Olho para as mãos. Algumas visíveis. Outras, nem tanto.

            “Eu sei traçar a minha meta / ninguém é poeta por saber rimar”

            Ser poeta não é técnica, é visão de mundo. Bittencourt radicaliza: rimar é o de menos. Traçar a meta, saber aonde se quer chegar, é o que define o poeta. E essa meta não precisa ser fama ou dinheiro. Pode ser apenas, como no começo da canção, saber ir embora.

            “E por falar em poesia / Vai raiar o dia e eu vou te buscar”

            O amanhecer como promessa. A poesia convoca a ação. “Vou te buscar” é um verbo no futuro do presente, mas carregado de urgência. Bittencourt conecta poesia e deslocamento. A filosofia da MPB é uma filosofia do movimento: buscar, partir, voltar, errar. Eu olho o relógio. O café já está frio. Talvez eu também deva sair para buscar alguém.

            “Eu quero juro de verdade / Que toda cidade veja eu te levar”

            A exibição como prova de amor. Não é narcisismo; é testemunho. O amor que se esconde é um amor que teme. Bittencourt quer que a cidade inteira veja, porque o amor, quando verdadeiro, não se envergonha da luz. Cidade, aqui, é a polis grega, o espaço do aparecer.

            “Por todos os meus descaminhos / Somos tão sozinhos que o melhor mesmo é se dar”

            “Descaminhos”: não há rota reta na vida. E a solidão é a condição de fundo. Bittencourt diz “somos tão sozinhos”. Plural.

            A solidão compartilhada é ainda solidão, mas é menos pesada. O melhor é “se dar”, entregar-se, doar-se. Dar-se é o cuidado extremo: dissolver a própria solidão na do outro. Eu, sentado neste café, olho ao redor. Todos estão sozinhos, mas ninguém se dá. Talvez por medo. Talvez por esquecimento.

            “Eu quero que você se dane / E mesmo que eu te engane / É assim que eu sei te amar.”

            Querer que o outro “se dane” não é desejar seu mal; é desejar sua independência. É o oposto da posse. “Mesmo que eu te engane”, admissão nua da falibilidade. E a conclusão: “é assim que eu sei te amar”.

            Não como deveria ser, mas como é possível. Bittencourt recusa o amor idealizado de novelas. Abraça o amor imperfeito, contraditório, humano.

            O eu lírico se ama tanto que admite seus defeitos. Amar, para ele, é dizer a verdade sobre a própria incapacidade de amar direito. É um ato de honestidade brutal.

O garçom, que me observou escrever este texto, voltou à mesa.

            “Terminou, doutor?”

            Terminei. Guardei o caderno, paguei a despesa e fui em direção à Rua da Praia, agora quase noite. Pensei no Sérgio Bittencourt que o garçom não conhece. Pensei na ignorância coletiva que apaga artistas inteiros como se eles nunca tivessem existido.

            Mas pensei também que, enquanto houver um cronista sentado numa mesa de café, garimpando versos esquecidos, a filosofia da MPB resistirá.

            Amanhã, quando raiar o dia, voltarei aqui. Não sei se o garçom terá pesquisado o nome. Não importa. A música já está guardada onde as ondas do rádio não alcançam: no silêncio entre um gole de café e outro.

            E nesse silêncio, Sérgio Bittencourt, que nunca foi João Ninguém, ainda ensina.

            Eu quero.

            Nós queremos.

            A cidade, toda ela, precisa ouvir.

(*) Assista o clipe no YouTube

 
 
 

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