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A FELICIDADE QUE NÃO EXISTIA

  • Carlos A. Buckmann
  • 8 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

A FELICIDADE QUE NÃO EXISTIA

            Houve um tempo em que acreditei, com toda a força do meu coração, que a felicidade era um estado permanente, uma espécie de porto seguro ao qual bastava navegar com boa intenção.

            Eu me via, então, como um navegante iluminado: seguindo o farol da virtude, evitando os rochedos da inveja e ancorando diariamente na baía serena da gratidão. Acordava cedo, meditava, escrevia listas de agradecimentos, praticava atos aleatórios de bondade e dizia a mim mesmo, com voz solene: “Hoje será um dia feliz.” E, por algum tempo, funcionou. Acreditava tanto nisso que confundia o desejo com a realidade.

            Mas a vida, essa velha mestra impiedosa, tem o hábito de desmontar nossas construções interiores com a delicadeza de um terremoto.

            Um dia, depois de perder um projeto pelo qual me dedicara por anos, sentei-me no parapeito do meu apartamento, olhando a cidade cinzenta sob a chuva fina, e percebi: não estava feliz. Nem um pouco. E pior, não havia razão para estar triste, apenas para estar.

            A dor vinha não da perda, mas da ilusão desfeita. A felicidade, aquela que eu jurava ter conquistado, revelava-se efêmera, frágil como um reflexo na água. Uma frase de Voltaire me atingiu como uma bofetada no meio da cara:

            - “O interesse que tenho em acreditar numa coisa não é a prova da existência dessa coisa.”

            Voltaire, François-Marie Arouet, homem de espírito ágil, ironia cortante e coragem rara, viveu num tempo em que se queimavam livros e enforcavam pensadores. Combateu o fanatismo religioso, denunciou as tiranias do poder absoluto, foi preso na Bastilha, exilado, perseguido. Escreveu “Cândido” como sátira à doutrina de Leibniz, que pregava que vivemos no melhor dos mundos possíveis. Cândido, inocente e teimoso, atravessa guerras, terremotos, escravidão, tortura, sempre repetindo: “Tudo é para o melhor.” Até que, no fim, cansado, sujo, ferido, conclui: “Precisamos cultivar o nosso jardim.” Uma metáfora sutil: não basta crer; é preciso agir, regar, podar, colher. E em lugar de flores, que são belas por um breve momento, plantar árvores, que embora levem mais tempo para crescerem, nos darão frutos e sobras, que nos alegrarão mais, num futuro não tão distante. A verdade não está no otimismo cego, mas na responsabilidade sobre o real.

            Naquele parapeito úmido, entendi: meu desejo de felicidade constante não provava sua existência. Assim como o anseio por justiça não garante justiça, assim como a esperança em honestidade não torna todos honestos. O mundo não se curva aos nossos anseios. Ele simplesmente “É”. E é nesse chão duro que devemos caminhar.

            Na vida pessoal, essa filosofia é libertadora. Deixar de acreditar por conveniência emocional é o primeiro passo para encarar a realidade sem máscaras. Nietzsche diria que é assumir o “amor fati”, o amor ao destino, inclusive ao que dói. É aceitar que sofrer faz parte da condição humana, e que fingir o contrário é narcotizar a alma. Quando paro de exigir que tudo seja bom, posso finalmente ver o que é, e, talvez, mudar algo.

            Em sociedade, a aplicação dessa ideia é urgente.

            Quantas vezes defendemos ideias não porque são verdadeiras, mas porque nos confortam? Políticos prometem paraísos terrestres; religiões vendem salvações milagrosas; redes sociais alimentam bolhas de certezas falsas. Todos sofremos da tentação de acreditar no que queremos, não no que é.

            Descartes, ao duvidar de tudo até encontrar o “penso, logo existo”, mostrou que o conhecimento começa pela dúvida, não pela fé cega. E Spinoza, excomungado por pensar com liberdade, ensinou que a liberdade verdadeira nasce quando compreendemos as causas das coisas, não quando as negamos.

            Nos negócios, então, o prejuízo é direto.

            Empreendedores que acreditam piamente no sucesso de um produto só porque o amam estão fadados ao fracasso. Clientes não compram sonhos; compram soluções. O cliente não conhece seu sonho; ele conhece o dele e é isso que ele busca. Steve Jobs, apesar de seu carisma visionário, sabia disso: ele queria revolucionar o mundo, mas testava, ajustava, ouvia o mercado. A inovação não nasce do desejo, mas da observação rigorosa da realidade.

            É mordaz dizer isso, mas precisamos: somos todos, em maior ou menor grau, crentes em fantasmas. Acreditamos em amor eterno enquanto ignoramos o esforço diário. Acreditamos em líderes incorruptíveis enquanto fechamos os olhos para seus conflitos. Acreditamos em crescimento infinito num planeta finito.

            Vivemos como se o amanhã fosse obrigado a corresponder aos nossos desejos. E quando o mundo não coopera, culpamos o mundo, nunca nossa própria cegueira.

            Mas há esperança.

            Está justamente em reconhecer que acreditar não é saber. Que desejar não é ter. Que a verdade não mora no coração, mas no olhar atento, no diálogo, na evidência, na correção de erros. Quando abandonamos a tirania do “quero acreditar”, abrimos espaço para o “posso aprender”.

            E talvez, então, só talvez, encontremos uma felicidade mais modesta, mas mais duradoura: a felicidade de quem vê o mundo como ele é, e, mesmo assim, escolhe plantar seu jardim.

 
 
 

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