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A Farmácia em Perspectiva: Um Mercado em Metamorfose

  • Carlos A. Buckmann
  • 16 de out. de 2025
  • 5 min de leitura

A Farmácia em Perspectiva: Um Mercado em Metamorfose

            O mercado do varejo farmacêutico brasileiro é um ecossistema complexo, cuja gênese remonta a um trajeto que se confunde com a própria história nacional. Não se trata de um mero comércio; é um serviço de saúde essencial, cuja evolução reflete as transformações sociais, econômicas e regulatórias do país.

            Se recuarmos ao período colonial, a dispensação era incipiente, majoritariamente exercida por boticários, práticos e, mais tarde, pelas boticas, que detinham o monopólio da manipulação e venda. A farmácia, tal como a conhecemos, começou a tomar forma com a regulamentação do século XIX, mas a verdadeira virada ocorreu no pós-guerra e, de forma mais acentuada, a partir da década de 1990. Foi quando o modelo de manipulação artesanal cedeu lugar à industrialização e à emergência do medicamento como produto de massa, culminando na configuração de “retail” de saúde que presenciamos hoje.

            O varejo farmacêutico transitou de um balcão de dispensação isolado para  uma plataforma de serviços que integra a venda de medicamentos, não medicamentos (HPC, cosméticos, conveniências) e, cada vez mais, a atenção farmacêutica e serviços clínicos. Esta transição, impulsionada por marcos como a Lei 9.782/99 (criação da ANVISA) e a 13.021/14 (que reconheceu a farmácia como estabelecimento de saúde), é o cerne da sua sofisticação atual.

            A consolidação é o termo de ordem no varejo farmacêutico. Os dados mais recentes do IQVIA para o Moving Annual Total (MAT) do último semestre são inequívocos ao demonstrar uma clara segmentação do crescimento e da participação de mercado, com um desequilíbrio estrutural em curso:

            Grandes Redes (Big Chains): Este grupo, caracterizado por sua alta capilaridade nacional, gestão profissionalizada e poder de compra maciço, continua a ser o vetor principal do crescimento. Sua estratégia se baseia na otimização da cadeia de suprimentos, no domínio da precificação (através de negociações diretas com a indústria) e na expansão acelerada, muitas vezes via aquisição. O crescimento em MAT para este segmento invariavelmente supera a média do mercado, consolidando-o como o principal player de market share.

O Associativismo (Networks/Banners): As associações e as redes de farmácias independentes formadas por meio de joint-ventures de compras ou soft-franchising demonstram uma resiliência notável. Seu desempenho é vital, pois representa a tentativa de players menores de replicar, em escala limitada, o poder de compra e a eficiência de gestão das grandes redes. O crescimento aqui é moderado, mas essencial para a manutenção da competitividade dos associados.

As Pequenas Redes e Farmácias Independentes (Small Chains & Independents): Este segmento, historicamente a espinha dorsal do varejo farmacêutico, enfrenta os maiores desafios. Farmácias com até 4 ou 5 lojas e as independentes puras sofrem com a erosão das margens, o alto custo operacional e a dificuldade de acesso aos mesmos patamares de desconto oferecidos pela indústria às Big Chains. Seu crescimento no MAT é o mais contido, e a perda de participação de mercado é uma tendência estrutural.

            A leitura técnica é clara: o mercado caminha para um oligopólio concentrado nas grandes redes, que, por sua vez, são os principais interlocutores da Indústria.

            A consolidação do varejo é apenas uma das faces da moeda. Em um movimento simétrico, observamos a solidificação de poder na Indústria Farmacêutica e no Setor de Distribuição.

            A Indústria, através de programas de relacionamento (PBMs), descontos em cascata e negociações de volume, estabeleceu um modelo de precificação que favorece inequivocamente as grandes redes. O preço de venda ao consumidor  e o Preço Máximo ao Consumidor (PMC) tornaram-se referências meramente teóricas. A realidade é o Preço Efetivo de Venda (PEV), determinado por descontos agressivos que apenas os Big Players e algumas redes associativas conseguem sustentar, dado o seu volume de vendas. Esta dinâmica cria uma "parede de preço" que isola o pequeno varejo da rentabilidade plena.

            O Setor de Distribuição, por sua vez, também se consolidou. Os grandes distribuidores atuam como facilitadores logísticos e financeiros, mas a pressão sobre as margens do pequeno e médio varejo se mantém, pois, os melhores termos e condições (prazos de pagamento, mark-up menor) são, novamente, reservados para quem compra em grande escala.

            Em essência, a Indústria e a Distribuição coadunam com a concentração do varejo, pois a gestão de um número menor de grandes clientes é logisticamente e financeiramente mais eficiente do que o relacionamento pulverizado com milhares de independentes.

            A discussão sobre a venda de Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs) em supermercados e conveniências é um ponto nevrálgico do debate regulatório e econômico.

            Mas precisamos estar atentos a visão dos empresários de supermercados: A perspectiva é estritamente econômica. Os MIPs são produtos de alto giro, com margens razoáveis e que complementam o mix de saúde e bem-estar. Eles argumentam que a venda sem prescrição não exige a presença do farmacêutico, e a liberação ampliaria a concorrência, beneficiando o consumidor com preços potencialmente mais baixos e maior conveniência de compra.

Em contrapartida, a visão dos empresários farmacêuticos é veemente e fundamentada em dois pilares:

            Segurança Sanitária: Embora MIPs não exijam prescrição, a farmácia é, por lei, um estabelecimento de saúde. A presença do farmacêutico é mandatória para a orientação sobre uso racional, interações medicamentosas e indicação. O risco de automedicação perigosa e o descarte incorreto de medicamentos aumentaria exponencialmente em um ambiente sem supervisão técnica.

            A retirada de uma categoria de alto valor agregado como os MIPs desequilibraria financeiramente o varejo farmacêutico, especialmente as farmácias de bairro e as independentes, que utilizam essa margem para subsidiar o serviço de atenção farmacêutica. O setor argumenta que a medida desvirtuaria o papel de saúde da farmácia.

            Tecnicamente, a liberação de MIPs para o varejo alimentar é viável do ponto de vista logístico e econômico, mas inviável sob a perspectiva sanitária e de política pública de saúde, dada a legislação vigente 13.021/14.  A farmácia não é um mero ponto de venda, mas sim a porta de entrada para o sistema de saúde; essa função não pode ser terceirizada.

            Diante deste quadro de alta concentração, o futuro das farmácias de médio e pequeno porte não reside na competição direta por preço com as grandes redes. A sobrevivência e o crescimento dependem da diferenciação estratégica e da adesão ao modelo de serviços:

            A saída será a especialização e nicho: Deixar de ser generalista e buscar a especialização (ex: farmácias de manipulação de alta complexidade, farmácias focadas em dermocosméticos premium, ou em nutrição esportiva/natural). O valor do serviço especializado supera a guerra de preços do genérico.

            A farmácia clínica e a atenção primária: A Lei 13.021/14 não é apenas um ônus, mas uma oportunidade. A farmácia deve atuar como clínica de atenção primária, monetizando serviços como vacinação, testes rápidos (COVID-19, glicemia, pressão), acompanhamento farmacoterapêutico, e programas de adesão. A farmácia de bairro tem a vantagem da confiança e da proximidade do paciente.

            Adesão ao Associativismo de Alto Nível: Para ganhar escala de compra, a união é mandamental. O associativismo moderno deve ir além da simples compra conjunta, oferecendo consultoria de gestão, software de ponta, e-commerce compartilhado e branding unificado.

            O pequeno e médio varejo precisa de uma gestão de estoque e categorias impecável, usando ferramentas de Business Intelligence (BI) para entender a real rentabilidade por metro quadrado. A farmácia eficiente não é a maior, mas a que possui o estoque mais enxuto e o mix de produtos mais ajustado à sua vizinhança.

            O caminho é árduo. A farmácia que apenas dispensa medicamentos está fadada a ser engolida pela escala das grandes redes.

            A farmácia que se transforma em um prestador de serviços de saúde acessível e um consultor de bem-estar para a comunidade é a que tem a melhor perspectiva de se manter e prosperar neste complexo e fascinante mercado.

 

 
 
 

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