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A FACA E A FÉ

  • Carlos A. Buckmann
  • 15 de jun.
  • 4 min de leitura

A FACA E A FÉ (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Milton Nascimento nasceu no Rio de Janeiro, mas foi criado em Três Pontas, Minas Gerais.

            Perdeu a mãe ainda bebê, foi adotado por uma família que o apresentou ao rádio, às músicas, ao mundo.

            Sua voz não é apenas bela, é um acontecimento metafísico. Três oitavas de extensão, um falsete que parece vir de alguma capela perdida nas montanhas, um timbre que flutua entre o menino e o profeta. Quem ouve Milton pela primeira vez sente o ar ficar mais denso. Sua voz não pede permissão para entrar na alma; ela simplesmente ocupa o espaço como uma claridade que não sabemos se é divina ou telúrica.

            Milton nunca esteve sozinho. O Clube da Esquina, na rua Divinópolis, em Belo Horizonte, foi mais que um grupo de músicos, foi uma irmandade. Lô Borges, Beto Guedes, Toninho Horta, Márcio Borges, Wagner Tiso. Todos trocando canções como quem troca pão. E, acima deles, a figura de Milton como uma espécie de vértice silencioso.

            Ali, a MPB encontrou o rock, o jazz, o folclore, o baião e o tambor africano. Não era síntese; era festa. E, no meio da festa, a voz de Milton que, segundo os próprios parceiros, parecia vir de um lugar que ninguém mais alcançava.

            A canção “Fé Cega, Faca Amolada” (1990) é um ponto de inflexão na obra de Milton. Não há mais a doçura lamurienta de alguns sucessos. Há uma lâmina. A fé que ali se canta não é a fé mansa dos bancos de igreja. É uma fé que corta. E é sobre essa lâmina que vou filosofar agora.

            “Agora não pergunto mais pra onde vai a estrada / Agora não espero mais aquela madrugada”

            Deixar de perguntar para onde vai a estrada é abandonar a preocupação com o futuro como projeção ansiosa. O Dasein autêntico, dizia Heidegger, não espera, ele se antecipa na finitude. E aquela madrugada, essa promessa nunca cumprida de uma revelação, de um amor, de um milagre, também é abandonada. Não por desistência, mas por maturidade. A noite não me deve mais nada.

            “Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser faca amolada”

            A repetição é ritual. “Vai ter de ser” não é fatalismo, é uma necessidade imanente. O esforço de cada ser para perseverar em seu ser. Mas aqui a perseverança é cortante. A faca amolada é o instrumento que não hesita. Quem vive com fé cega não pede licença para agir. Age porque a lâmina já está pronta. Não há escolha, porque escolher seria duvidar. E a fé cega não duvida, ela brilha.

            “O brilho cego de paixão e fé, faca amolada”

            Paixão e fé. Duas cegueiras. A paixão não vê obstáculos; a fé não vê alternativas. Juntas, formam um brilho que ofusca. Sócrates dizia que a vida não examinada não vale a pena. Mas Milton nos oferece a inversão: a vida excessivamente examinada perde o gume. Há momentos em que a razão é um embotamento. A faca precisa estar cega de brilho para cortar o real.

            “Deixar a sua luz brilhar e ser muito tranquilo / Deixar o seu amor crescer e ser muito tranquilo”

            A tranquilidade não é passividade. É a serenidade estoica, dos que deixam o mundo ser o que é, mas sem indiferença. Marco Aurélio escreveu: “A alma se tinge das cores de seus pensamentos.” Se o pensamento é “deixar brilhar”, então a alma se torna luz. E o amor que cresce sozinho é como uma planta que ninguém rega, e ainda assim floresce.

            A faca amolada não precisa ser empunhada o tempo todo. Ela apenas descansa no fio da navalha da calma.

            “Plantar o trigo e refazer o pão de cada dia / Beber o vinho e renascer na luz de todo dia”

            Não há transcendência sem imanência. Plantar trigo é absurdo, pode chover granizo, pode vir a praga. Mas planta-se. Refazer o pão é absurdo, o pão acaba. Mas refaz-se. Beber vinho é renascer porque o vinho é sangue da terra, e a terra é o chão onde pisamos. E o chão, diz Milton, é sal da terra, conserva, purifica, mas também arde na ferida.

            “A fé, a fé, paixão e fé, a fé, faca amolada / O chão, o chão, o sal da terra, o chão, faca amolada”

            Fé, chão, faca. Não há hierarquia. O chão sem fé é apenas terra seca. A fé sem chão é delírio. A faca amolada é o elo cortante entre o céu e o solo.

            Kierkegaard, no “Temor e Tremor”, falou do cavaleiro da fé, aquele que, depois de dar o salto infinito, retorna ao finito com a leveza de quem dança.

            Milton canta essa dança. A faca amolada não é violência; é precisão. É o gesto de cortar o pão para dividir. É o brilho cego de quem, tendo desistido de perguntar para onde vai a estrada, simplesmente caminha e a própria caminhada se torna faca que corta o presente.

            Lembro de uma entrevista em que ele disse que “cantar é rezar duas vezes”. Sua voz não pergunta mais para onde vai a estrada porque ela própria é a estrada.

            O Clube da Esquina foi o celeiro onde essa voz aprendeu a ser faca, cortando o preconceito musical, a rigidez melódica, a mesmice.

            Ao escutar Fé Cega, Faca Amolada, sinto que não espero mais aquela madrugada.

            A madrugada sou eu. O brilho cego de paixão e fé é este momento em que escrevo e em que cada palavra é uma lâmina muito tranquila, plantando trigo no asfalto, bebendo vinho na garoa.

            Pois, no fim, toda faca amolada é um convite: Corte o que não serve, e o que restar será luz.

            Muito tranquilo.

(*) Assista o clipe no YouTube:

 

 
 
 

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