A ESCUTA COMO ATO DE REPARAÇÃO
- Carlos A. Buckmann
- 30 de out. de 2025
- 3 min de leitura

A ESCUTA COMO ATO DE REPARAÇÃO
Vivemos em sociedades que, por séculos, construíram muros não apenas de tijolos, mas de silêncios. Silêncios impostos às vozes negras, às mulheres, aos povos originários, aos moradores das periferias, aos corpos dissidentes.
A exclusão racial, de gênero, de classe e territorial não se limita à negação de direitos, ela opera, antes de tudo, como uma recusa de escuta.
Quem é excluído não apenas é empurrado para as margens; é impedido de falar, ou, pior ainda, é ouvido de forma distorcida, traduzida por lentes que o transformam em ameaça, em caso clínico, em estatística, em folclore. Sua dor é apagada, sua história, desacreditada. E assim, a violência histórica se perpetua, não só nas leis, mas nos ouvidos que se fecham.
A psicologia crítica, especialmente nas trilhas abertas por Frantz Fanon, compreendeu cedo que o sofrimento psíquico não é neutro: ele carrega as marcas do racismo, do patriarcado, do colonialismo. Fanon, em “Pele Negra, Máscaras Brancas”, mostrou como o colonizado internaliza a linguagem do opressor e se fragmenta na impossibilidade de ser reconhecido como sujeito pleno.
Já a psiquiatria, em suas versões mais sensíveis, reconhece que o diagnóstico muitas vezes reproduz preconceitos: corpos negros são mais facilmente rotulados como “agressivos”; mulheres, como “histéricas”; pobres, como “desestruturados”.
Mas há também vozes reparadoras: psicólogos comunitários, terapeutas decoloniais, clínicos que praticam a “escuta situada”, ou seja, aquela que considera o contexto histórico do sujeito, que não “patologiza” a resistência, que entende o trauma coletivo como fundamento do sofrimento individual. Para eles, escutar não é apenas técnica; é ética.
A filosofia, por sua vez, nos oferece ferramentas para pensar a escuta como “ato de justiça”.
Emmanuel Levinas via no rosto do outro um apelo ético incontornável: “Não matarás” é, antes de tudo, “não silenciarás”. A escuta, nessa perspectiva, é o primeiro gesto de humanização, reconhecer que o outro tem uma palavra que me precede e me interpela.
Hannah Arendt, ao refletir sobre o totalitarismo, alertava que regimes opressivos começam pela destruição do espaço comum da fala.
Já Paul Ricoeur propôs que a justiça passa pela “apacidade de contar e ser ouvido”, e que a reparação exige a restituição da narrativa ao sujeito ferido.
E não podemos esquecer Audre Lorde, filósofa e poeta, ou poetisa, como prefiro em nossa língua mão, que afirmava: “Tuas silenciadas verdades são exatamente o que o sistema quer manter enterrado.” Para ela, falar, e ser ouvido, é um ato político de sobrevivência.
É nesse encontro entre clínica, ética e política que a psicofilosofia*se posiciona como prática de reparação. Ela não se limita a “ouvir bem”; ela escuta com “memória histórica”. Sabe que quando uma mulher negra diz “não me senti segura”, ela não fala apenas de um medo individual, mas ecoa séculos de violência. Quando um jovem da periferia fala de “falta de futuro”, não expressa apenas desânimo, mas a materialização de um projeto de exclusão urbana e social.
A psicofilosofia, então, transforma a escuta em ato de testemunho: não para consolar com palavras vazias, mas para dizer: “Ouço você. Seu sofrimento tem nome. Sua história importa. E ela não é sua culpa.”
Num mundo saturado de ruído, de opiniões prontas, de discursos hegemônicos, de algoritmos que só repetem o que já sabemos, a escuta ativa é uma forma de resistência. Mais que isso: é um gesto de reparação simbólica, muitas vezes o primeiro passo rumo à reparação material. A psicofilosofia, nesse contexto, não se contenta em curar indivíduos isolados; busca curar “as feridas do tecido social, começando pelo mais simples e revolucionário dos atos:
- Dar espaço à voz que foi calada.
Você que tem o privilégio de ser ouvido sem precisar provar seu direito à fala: Escute. Não para responder, mas para acolher. Não para salvar, mas para reconhecer.
E digo àquelas cujas vozes foram distorcidas, ignoradas ou roubadas: Fale. Mesmo que tremendo. Mesmo que ninguém pareça pronto.
Porque toda palavra verdadeira, quando finalmente encontra um ouvido que a recebe sem julgamento, não apenas cura quem fala, ela devolve humanidade a quem escuta.
E é assim, palavra por palavra, silêncio por silêncio rompido, que se reconstrói um mundo onde todos têm direito, não só a existir, mas a serem ouvidos em sua plenitude.
Escutar, hoje, é um dos mais altos atos de amor político.
Pratiquemo-lo com coragem.




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