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A ENFERMIDADE INCURÁVEL DO FANATISMO

  • Carlos A. Buckmann
  • 20 de mai. de 2025
  • 4 min de leitura

A ENFERMIDADE INCURÁVEL DO FANATISMO

            Há tempos, perambulo pelos caminhos da razão e da reflexão, observando os estragos causados por um dos mais perniciosos vícios humanos: o fanatismo. Essa paixão exacerbada, que subtrai do indivíduo sua capacidade de pensar livremente, conduz inexoravelmente à cegueira intelectual e moral. Moléstia insidiosa que se instala na fortaleza craniana e, qual erva daninha pertinaz, entorpece a razão, obscurece o discernimento e, por derradeiro, petrifica a alma. Há algo de profundamente perturbador na paixão sem freios, no fervor que não admite contraponto. O fanatismo, em qualquer de suas vestes — política, religiosa, ideológica — é uma espécie de combustão interna da razão. Observando os homens, percebo que nada os torna mais cruéis, mais obtusos e mais perigosos do que a convicção absoluta de estarem certos. Porém, como seria mais leve o mundo se todos conservássemos um grão de dúvida, uma nesga de humildade!

            Desde tenra idade, observamos os estertores desta patologia intelectual a se manifestarem em miríades de formas, desde as disputas pueris sobre a superioridade de um brinquedo até os conflitos bélicos que ensanguentam a história.  Já advertia Voltaire, com sua agudeza característica: "Quando o fanatismo gangrena o cérebro, a enfermidade é incurável."

            Voltaire, o grande filósofo iluminista, cujo nome de batismo era François-Marie Arouet, nasceu em 1694, numa França ainda presa aos grilhões do absolutismo e do dogmatismo religioso. Implacável crítico da intolerância, combateu com veemência os abusos do clero e do Estado, defendendo a liberdade de pensamento e de expressão. Seus escritos, impregnados de ironia e lucidez, tornaram-se armas contra o obscurantismo, influenciando gerações a questionar as “verdades” impostas.

            Não é preciso recorrer a tratados filosóficos para perceber os desastres perpetrados pelo fanatismo. As páginas da história estão manchadas pelo sangue dos que ousaram desafiar dogmas inquestionáveis. A Inquisição e suas fogueiras devoraram pensadores que se atreveram a enxergar além das verdades oficiais. As Cruzadas, sob o pretexto da fé, semearam morte e destruição. Regimes totalitários, inflamados por ideologias incontestáveis, conduziram milhões à aniquilação. O fanático não argumenta; impõe. Não dialoga; decreta. E, quando detém poder, converte sua convicção em tirania.

            Nietzsche alertava sobre os perigos de crenças absolutas ao afirmar que “as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras.” Schopenhauer, por sua vez, denunciava a irracionalidade do fanatismo religioso, comparando-o a uma teia que impede o indivíduo de enxergar a realidade. Bertrand Russell, cético por excelência, reafirmava que a dúvida é a única vacina contra o dogmatismo destrutivo. George Orwell escreveu “1984", que retrata um regime totalitário em que o pensamento independente é suprimido. O personagem O'Brien representa o fanático que acredita piamente no Partido, demonstrando como a ideologia pode ser usada para moldar e controlar mentes. Aldous Huxley, em o "Admirável Mundo Novo “, alerta para os perigos da alienação e do dogmatismo, evidenciando uma sociedade onde o conformismo e a supressão do pensamento crítico garantem a estabilidade. Dostoievski, na sua obra “Os Demônios" expõe os efeitos do fanatismo político e ideológico, mostrando como indivíduos são levados a atos extremos por crenças absolutas. John Stuart Mill, defendia a liberdade de pensamento e o perigo das crenças inquestionáveis. Karl Popper, Criador do princípio da falsificabilidade, argumentou que dogmas inflexíveis são incompatíveis com o progresso intelectual.  Sigmund Freud apontava o fanatismo como uma forma de neurose coletiva, em que o indivíduo abdica de sua autonomia mental.

            Mas o fanatismo não se restringe às doutrinas religiosas ou políticas. No mundo dos negócios, ele é igualmente letal. Empresas que se aferram a modelos ultrapassados, ignorando a evolução do mercado, acabam sucumbindo à própria rigidez. Líderes fanáticos desprezam críticas e tornam-se reféns de suas certezas, conduzindo corporações ao abismo.

            Para o indivíduo, o fanatismo é uma prisão mental autoimposta. Ele se fecha a novas ideias, recusa o diálogo, e sua visão de mundo torna-se estreita e inflexível. A dúvida, motor do intelecto e da evolução do conhecimento, é vista como uma heresia. As emoções exacerbadas e a identificação visceral com uma causa ou líder toldam a capacidade de análise crítica, levando a comportamentos irracionais e, por vezes, violentos. Para a sociedade, o fanatismo é um fermento de discórdia e polarização. Ele mina a coesão social, dificulta o debate construtivo e pode degenerar em conflitos fratricidas. A busca pela homogeneidade ideológica leva à supressão das minorias, à perseguição dos dissidentes e à estagnação do progresso.

            Confrontar o fanatismo e o dogmatismo é um desafio perene, dada a sua aparente intratabilidade. Extingui-lo talvez seja uma utopia, mas podemos cultivar antídotos. A educação, desde a mais tenra idade, para o pensamento crítico, para a valorização da diversidade de opiniões e para a humildade intelectual é fundamental. O fomento ao diálogo aberto e respeitoso, mesmo entre aqueles que divergem profundamente, pode criar pontes de entendimento. A exposição a diferentes perspectivas e culturas pode arejar mentes fechadas e relativizar certezas absolutas.          

            Se não podemos erradicar o fanatismo, resta-nos aprender a conviver com ele. A chave está na educação e no incentivo ao pensamento crítico. Devemos ensinar as novas gerações a questionar, a duvidar, a refletir antes de aderir cegamente a qualquer ideologia. A convivência com dogmáticos exige paciência, mas não submissão. Cabe-nos resistir à tentação do conformismo e defender, sempre, o direito de pensar livremente.

            Se o fanatismo é uma enfermidade incurável, que ao menos possamos tratá-lo com doses generosas de ironia. Como dizia Voltaire, “o homem foi feito para pensar. Se ele não pensa, é porque alguém está pensando por ele.”  - E se não podemos extinguir o fanatismo, ao menos que saibamos rir de suas pretensões. Com razão acrescentava Voltaire: “Deus fez o homem à sua imagem. E o homem retribuiu o favor.”

 

 

 
 
 

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