A DUALIDADE INTERIOR E A ESCOLHA DO CAMINHO
- Carlos A. Buckmann
- 20 de abr. de 2025
- 4 min de leitura

A DUALIDADE INTERIOR E A ESCOLHA DO CAMINHO
A parábola dos dois leões, embora sua origem exata se perca nas brumas do tempo, ecoa através das culturas como um ensinamento perene sobre a natureza humana. Conta-se que um ancião sábio, ao ser questionado por um jovem sobre as batalhas internas que travamos, revelou a existência de duas feras poderosas em nosso íntimo: uma alimentada pela raiva, pela inveja e pelo ressentimento – o leão do ódio; e outra nutrida pela compreensão, pela clemência e pela capacidade de olvidar as ofensas – o leão do perdão. A indagação crucial do jovem, "Qual deles prevalecerá?", recebia a lapidar resposta: "Aquele que você alimentar mais."
Foi em um seminário sobre liderança e inteligência emocional, realizado aqui em Porto Alegre, que a força desta alegoria ressoou com particular intensidade. O palestrante, um renomado psicólogo organizacional, discorria sobre a intrincada teia das relações humanas no ambiente profissional, quando nos lembrou a sentença que ora nos serve de mote: "Existem dois leões dentro de você, um chama-se ódio e o outro chama-se perdão, vai sobreviver o que você alimentar mais."
Nesse contexto, a frase ilumina a encruzilhada constante em que nos encontramos diante das adversidades e dos conflitos interpessoais. Cada desentendimento, cada injustiça percebida, cada mágoa sentida, representa uma oportunidade de fortalecer um dos leões. Optar pela ruminação rancorosa, pelo desejo de retaliação, pela fixação no papel de vítima, é oferecer carne fresca ao leão do ódio, permitindo que ele cresça em ferocidade e domine nossas ações e reações. Por outro lado, escolher a via da empatia, da busca por compreensão, do exercício da resiliência e da disposição para liberar o passado, é nutrir o leão do perdão, conferindo-lhe a força motriz para a construção de relações saudáveis e de uma paz interior duradoura.
A decisão que tomamos, invariavelmente, molda a realidade que habitamos. Se nos deixamos consumir pelo ódio, tornamo-nos prisioneiros de um ciclo vicioso de amargura e desconfiança. Nossas interações se tornam defensivas, nossos julgamentos, severos, e nossa capacidade de encontrar alegria e serenidade se esvai. Como bem observou Sêneca, "A cólera é um ácido que pode causar mais dano ao recipiente em que é armazenado do que àquilo que é derramado sobre." Tornamo-nos, assim, os primeiros e maiores afetados pela toxicidade do ressentimento.
Diversos pensadores ao longo da história ecoaram essa dualidade e a importância da escolha consciente. Viktor Frankl, sobrevivente do Holocausto, em sua obra "Em Busca de Sentido", enfatizou a liberdade última do ser humano de escolher sua atitude em qualquer circunstância. Ele nos lembra que, mesmo diante do sofrimento extremo, reside em nós a capacidade de decidir como responder. Da mesma forma, autores como Desmond Tutu, com sua incansável defesa da reconciliação e do perdão como caminhos para a cura de nações, ilustram o poder transformador da escolha pela compaixão em detrimento da vingança.
No cotidiano, a prisão da atitude se manifesta de inúmeras maneiras. Um colega de trabalho que guarda rancor de uma crítica antiga pode sabotar inconscientemente projetos futuros, envenenando o ambiente profissional. Um vizinho que não consegue perdoar uma pequena ofensa pode viver anos em isolamento e animosidade. Um amigo que se apega à mágoa de uma desavença passada perde a oportunidade de reviver laços afetivos importantes. Em todos esses exemplos, a escolha de alimentar o leão do ódio constrói muros invisíveis que aprisionam o próprio indivíduo em um cárcere de sofrimento autoimposto.
Essa reflexão possui uma aplicação direta e crucial no mundo dos negócios. As empresas, em sua essência, são organismos vivos regidos pelas interações humanas. A mentalidade dos proprietários e gestores, a forma como eles lidam com conflitos, cometeram erros e perdoam falhas, permeia toda a cultura organizacional. Um líder dominado pelo ódio, pela inflexibilidade e pela busca incessante por culpados cria um ambiente de medo, desconfiança e baixa colaboração. A inovação é sufocada, a comunicação se torna truncada e o potencial da equipe é subutilizado.
Por outro lado, um líder que cultiva o perdão – não como condescendência, mas como reconhecimento da falibilidade humana e como motor para o aprendizado e o crescimento – fomenta um ambiente de segurança psicológica, onde os erros são vistos como oportunidades de melhoria e a colaboração floresce. A capacidade de perdoar um erro de um colaborador, de superar um revés financeiro sem cair na paralisia do ressentimento, de manter a ética e a integridade mesmo diante de pressões externas, são sinais de uma liderança que alimenta o leão do perdão, construindo um negócio mais resiliente, inovador e humano.
A parábola dos dois leões nos convida a uma introspecção profunda sobre as forças que moldam nossas vidas. A escolha de qual leão alimentar não é um evento isolado, mas sim uma série de decisões cotidianas que, cumulativamente, definem nosso caráter e nosso destino. Ao reconhecermos a dualidade inerente à nossa natureza, podemos exercer com maior consciência o poder da escolha, nutrindo a capacidade de perdoar, de compreender e de construir pontes em vez de muros. Pois, em última análise, a qualidade da nossa jornada e o legado que deixamos dependem da sabedoria com que alimentamos os leões que habitam o nosso ser.
A moral da história é simples: se você não quer virar personagem de filme de terror ou viver com a pressão nas alturas, comece a dar mais bifes de alface para o leão do perdão. Ele pode ser menos dramático e menos barulhento, mas a longo prazo, garante uma vida mais leve e, quem sabe, até umas boas risadas dos nossos próprios ataques de fúria passados. Afinal, rir de si mesmo é o melhor petisco para um leão zen faminto por paz. E, sejamos sinceros, um leão zen, de bem com a vida é muito mais agradável de se ter por perto do que um leão raivoso precisando de Rivotril.




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