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A DOR QUE FALA

  • Carlos A. Buckmann
  • 13 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

A DOR QUE FALA

            Há um paradoxo silencioso na dor física: ela é uma das experiências mais íntimas e, ao mesmo tempo, uma das mais inexprimíveis.

            Quem sofre sabe, mas não consegue dizer plenamente. A linguagem tropeça diante do corpo que grita sem palavras.

            E, no entanto, a dor não é muda. Ela fala. Não com conceitos, mas com símbolos; não com diagnósticos, mas com narrativas enterradas na carne. O problema não é que a dor não tenha voz, é que raramente paramos para escutá-la como linguagem, e não apenas como sinal de alarme.

            Durante séculos, a medicina ocidental tratou a dor como um defeito técnico: um nervo comprimido, uma inflamação, um desequilíbrio químico. E, em muitos casos, com razão, a dor aguda é um sistema de sobrevivência. Mas quando a dor se torna crônica, difusa, resistente aos remédios, ela começa a revelar outra dimensão: a simbólica. É como se o corpo, cansado de ser ignorado pela alma, começasse a escrever sua história em linguagem de espasmo, rigidez, fadiga ou enxaqueca.

            A psicossomática já nos alertava para isso.

            Franz Alexander, um dos pioneiros, falava de “doenças psicossomáticas” não como fingimento, mas como expressão legítima de conflitos emocionais não resolvidos.

            Pierre Marty e Michel de M’Uzan, na França, desenvolveram o conceito de “pensamento operatório”, um modo de ser em que a pessoa não simboliza seus afetos, e estes, então, se descarregam diretamente no corpo.

            Já Carl Jung via os sintomas físicos como manifestações do inconsciente: “O corpo é a alma visível”, dizia.           

            E, mais recentemente, psiquiatras como Bessel van der Kolk, em “O Corpo Recorda”, demonstraram que traumas não processados se alojam nas células, nos músculos, na respiração, como se o corpo guardasse a memória que a mente não conseguiu integrar.

            A filosofia moderna, por sua vez, desconfia da cisão cartesiana entre corpo e alma.

            Merleau-Ponty, em “Fenomenologia da Percepção”, nos lembra que não temos um corpo, somos corpo. Somos seres encarnados, e toda experiência passa por essa carne que sente, sofre, deseja. Para ele, o corpo não é um objeto entre outros, mas o meio pelo qual estamos no mundo.

            Já Foucault, em seus estudos sobre a medicalização da vida, mostrou como a dor foi progressivamente silenciada, transformada em dado clínico, privada de sua dimensão subjetiva.

            E Nietzsche, com sua lucidez incômoda, escreveu: “Em todos os sofrimentos, há uma gota de mel”, sugerindo que até a dor tem algo a ensinar, se tivermos coragem de escutá-la.

            É nesse cruzamento entre clínica e filosofia que a psicofilosofia encontra seu caminho. Ela não nega a biologia da dor, respeita-a. Mas recusa-se a reduzi-la a ela.

            Para a psicofilosofia, a dor física pode ser um chamado ético: um convite a olhar para o que foi negligenciado, um luto não feito, um desejo reprimido, uma fronteira violada, um valor traído. Escutar a dor como narrativa não é romantizá-la, mas humanizá-la. É perguntar, com cuidado: “O que essa dor está tentando me dizer? Que parte de mim foi silenciada a ponto de precisar gritar com o corpo?”

            Essa abordagem é urgente hoje. Vivemos numa cultura que medicaliza tudo, que busca anestesiar qualquer desconforto, que valoriza a produtividade acima da integridade. Dor de cabeça? Tome um analgésico e siga trabalhando. Ansiedade? Regule com remédio. Cansaço crônico? “É só estresse.” Mas e se, em vez de calar a dor, aprendêssemos a conversar com ela? E se, em vez de vê-la como inimiga, a reconhecêssemos como mensageira?

            A psicofilosofia propõe exatamente isso: um diálogo com o corpo. Através da escrita reflexiva, do diálogo socrático, da atenção plena e da escuta fenomenológica, ela ajuda o indivíduo a decifrar os símbolos que sua dor carrega. Não para substituir o tratamento médico, mas para complementá-lo com sentido. Porque curar não é apenas eliminar o sintoma, é restabelecer a harmonia entre o que se vive e o que se sente.

            Da próxima vez que seu corpo doer, não se apresse em calá-lo.

Pergunte. Escute. Dê-lhe espaço para falar. Talvez ele não esteja pedindo um remédio, talvez esteja pedindo justiça, descanso, verdade, amor. 

            A dor, quando escutada como narrativa, deixa de ser prisão e se torna portal.

            Porque, no fundo, o corpo não mente. Ele apenas repete, em linguagem de carne, aquilo que a alma não conseguiu dizer em palavras.

            E às vezes, basta um momento de escuta atenta para que a cura comece, não com uma pílula, mas com um encontro.

            Consigo mesmo.

 
 
 

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