top of page

A DESUMANIZAÇÃO DO SER HUMANO

  • Carlos A. Buckmann
  • 1 de ago. de 2025
  • 4 min de leitura

A DESUMANIZAÇÃO DO SER HUMANO

            Aqui jaz o meu olhar sobre a humanidade. Encontro-me, neste instante crepuscular do século XXI, a analisar o alvorecer da humanidade vindoura. No epicentro desta observação, emerge uma inquietante desumanização, urdida na trama da ausência de empatia. A complexidade crescente das interações sociais, paradoxalmente, parece acentuar a distância entre os indivíduos, engendrando um cenário onde a alteridade é, muitas vezes, obliterada em favor de uma auto referencialidade narcísica. A civilização, em seu ímpeto de progresso, por vezes olvida os pilares éticos que a sustentam, transfigurando o ser em mera função, o sujeito em objeto.

            Remonto, em um exercício de reflexão antropológica, às sociedades tribais. Em sua aparente simplicidade, desprovidas dos sofisticados arcabouços teóricos e tecnológicos que hoje nos definem, estas culturas ancestrais demonstravam uma profundidade ímpar na compreensão do tecido social. A interconexão entre os membros da comunidade era intrínseca, tecida em rituais e costumes que promoviam a coesão e o respeito mútuo. A sabedoria ancestral das tribos indígenas, por exemplo, manifestava-se na reverência pela natureza e na capacidade de reconhecer a humanidade até mesmo em seus adversários. Não se tratava de uma mera tolerância, mas de um entendimento ontológico de que o outro, mesmo em conflito, compartilhava da mesma condição humana, merecendo consideração e, em certas circunstâncias, até mesmo admiração por sua bravura.

            É neste ponto de inflexão que ressoa a voz clarividente de Paulo Freire. Sua pedagogia, intrinsecamente ética, ergue-se sobre a premissa de que a emancipação humana é um processo dialógico e coletivo. A máxima “Ninguém pode ser autenticamente humano enquanto impede que outros também o sejam”, não é apenas uma sentença, mas um imperativo ético que permeia toda a sua obra. Freire nos convoca à radicalidade do amor e à práxis libertadora, compreendendo que a verdadeira humanização só se efetiva na medida em que se promove a humanização do outro. De igual modo, Jean-Paul Sartre, em O Ser e o Nada, ao explorar a intersubjetividade e a responsabilidade radical da liberdade, corrobora indiretamente a impossibilidade de uma humanidade plena em isolamento.

            Contudo, o cenário geopolítico atual desvela a face mais crua da desumanização. Os conflitos entre Rússia e Ucrânia e entre Israel e Palestina são paradigmáticos da prevalência da ganância e do poder sobre a vida humana. Nestes teatros de guerra, a retórica da desumanização do adversário é um instrumento vil para justificar a barbárie. Interesses econômicos, geopolíticos e a busca por hegemonia sobrepõem-se à dignidade e à existência dos povos. A verdade, muitas vezes, é soterrada sob montanhas de desinformação, alimentando um ciclo vicioso de ódio e vingança, onde a empatia é a primeira vítima.

            Ainda nesse panorama de manipulação, a política de “blefes” de Donald Trump nos Estados Unidos emerge como um exemplo inquietante. Sua retórica, marcada por bravatas e distorções, parece servir não apenas para consolidar sua base eleitoral, mas também para mascarar uma realidade econômica subjacente complexa. A China, por exemplo, é uma das maiores detentoras de dívida Americana principalmente na forma de títulos do Tesouro, aproximadamente US$ 756,3 bilhões.  Isso a coloca como a terceira maior detentora estrangeira de dívida dos EUA, atrás do Japão (US$ 1,13 trilhão) e do Reino Unido (809,4 bilhões) num total de US$ 2,7 trilhões, só com essas três potências.  Em contrapartida a reserva de ouro em Fort Knox está avaliada em aproximadamente US$ 493,755 bilhões no preço de mercado atual, o que não pagaria nem a dívida com a China.  Claro que em “economês”, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. A grandiloquência e a estratégia de desviar o foco para questões periféricas ou para a invenção de inimigos externos tornam-se, nesse contexto, táticas para ocultar a fragilidade de um sistema que se sustenta precariamente em dívidas e desequilíbrios. Trump é mestre em um poker de cartas marcadas.

            Se a máxima de Paulo Freire não se tornar a bússola moral que guia nossas ações, as consequências para o mundo serão catastróficas. Projetar um futuro em que a desumanização prevalece é vislumbrar um abismo. A polarização social se intensificará, a violência se tornará a linguagem predominante, e a autodestruição da espécie humana, outrora um temor distante, emergirá como uma probabilidade sombria. Sem o reconhecimento da humanidade do outro, sem a prática da solidariedade e da justiça, a própria ideia de civilização se esvai, cedendo lugar a um caos distópico onde a dignidade humana será um mero vestígio de um passado esquecido.

            Neste compasso atual, a humanidade marcha, inexoravelmente, para um futuro incerto. Se persistirmos no ritmo da desumanização, da ganância desenfreada e do individualismo radical, não nos restará senão a amarga colheita de uma existência desprovida de sentido, onde a plenitude do ser será um anacronismo em um mundo despojado de sua essência mais fundamental. O que esperar, então, de nós mesmos? Talvez, apenas o eco vazio de nossas próprias escolhas egoístas, ressoando em um universo que não mais nos reconhecerá como seres humanos.

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora.

 
 
 

Comentários


CONTATO

Porto Alegre, RS 

​​

Tel: (51) 9 9259-6364

Skype: betobuckmann​

betobuckmann@yahoo.com.br

Nós recebemos a sua mensagem, aguarde contato.

  • LinkedIn - Círculo Branco
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - Círculo Branco

© 2023 por Hugin. Criado orgulhosamente com Wix.com

bottom of page