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A Dança do Esforço e da Recompensa no Palco do Trabalho

  • Carlos A. Buckmann
  • 29 de abr. de 2025
  • 5 min de leitura

A Dança do Esforço e da Recompensa no Palco do Trabalho

            O burburinho do escritório ecoava pelos cantos, cada clique de teclado, cada sussurro ao telefone, um tijolo na construção da jornada diária. Em meio a planilhas e prazos, a eterna questão pairava no ar: o que move um indivíduo a dedicar suas horas, sua energia, seu intelecto ao trabalho? A resposta, aparentemente simples, reside na tênue e complexa relação entre esforço e recompensa.

            Para muitos, a recompensa assume a forma tangível do salário ao final do mês, o reconhecimento formal em uma avaliação de desempenho, a promoção almejada. E não há demérito algum nessa busca. Afinal, o trabalho, em sua essência, é uma troca: tempo e talento em prol de sustento e crescimento.

            No entanto, o pensador espanhol José Ortega y Gasset nos lança uma reflexão incisiva: “Pouco se pode esperar de alguém que só se esforça quando tem a certeza de vir a ser recompensado.” A força dessa afirmação ressoa com particular intensidade no mundo contemporâneo, um tempo em que o imediatismo e a cultura da gratificação instantânea por vezes toldam a visão sobre o valor intrínseco do esforço. O que, pela minha observação é a marca da chamada “geração Z”, onde só o imediato dos “Likes” e “Dislikes” importam.

            Imagine o jovem profissional, recém-formado e ávido por ascender na hierarquia de uma pequena ou média empresa (PME). Se sua motivação residir unicamente na promessa de um bônus futuro ou de um cargo de liderança, sua dedicação poderá se mostrar volátil. A cada obstáculo, a cada tarefa que demande um esforço extra sem a garantia imediata de um "prêmio", a chama da sua motivação poderá vacilar.

            Os novos métodos de gestão de Recursos Humanos em PMEs atentam para essa nuance. A velha abordagem puramente transacional, focada unicamente em recompensas financeiras e promoções formais, cede espaço a modelos mais holísticos. A valorização do propósito, o investimento no desenvolvimento pessoal e profissional, o reconhecimento genuíno do esforço diário (mesmo que não culminem em uma recompensa material imediata) ganham protagonismo.

            Empresas inovadoras implementam programas de reconhecimento informal, celebram pequenas vitórias, oferecem flexibilidade e autonomia, criando um ambiente onde o funcionário se sente valorizado não apenas pelo resultado final, mas pela sua dedicação ao processo. O feedback constante e transparente, que destaca o impacto do trabalho individual no sucesso coletivo, nutre um senso de pertencimento e propósito que transcende a mera expectativa de uma recompensa futura.

            Contudo, a sombra da mentalidade puramente recompensadora ainda paira. Em conversas informais, é possível ouvir relatos de funcionários que "só fazem o mínimo necessário" até que uma bonificação seja anunciada, ou que se mostram desmotivados diante de projetos desafiadores que não vêm acompanhados de uma gratificação imediata.

            As consequências dessa postura na vida pessoal podem ser significativas. A constante busca por recompensas externas pode gerar ansiedade e frustração, especialmente quando as expectativas não se concretizam no tempo desejado. A falta de engajamento genuíno com o trabalho pode levar a um sentimento de vazio e insatisfação profissional, impactando a saúde mental e o bem-estar geral.

            A frase de Ortega y Gasset, proferida em um contexto histórico e social distinto, tem uma atualidade surpreendente. Ela nos lembra que a verdadeira maestria, a excelência genuína, floresce de um esforço intrínseco, de uma paixão pela atividade em si, e não apenas da miragem de uma recompensa futura. Para Gasset, a atitude de só se esforçar por recompensa revela uma limitação do espírito humano, uma falta de iniciativa e de compromisso genuíno com a tarefa em mãos. Ele valoriza um esforço mais espontâneo e desinteressado, que brota de uma conexão mais profunda com o trabalho ou com os objetivos da organização.

            Por outro lado, a "Mais Valia" de Karl Marx é um conceito central para sua crítica da economia política capitalista. Marx argumenta que, no sistema capitalista, os trabalhadores produzem mais valor do que recebem em salários. Essa diferença entre o valor criado pelo trabalho e o valor pago ao trabalhador (na forma de salário) é a "Mais Valia", que é apropriada pelos capitalistas como lucro. O foco de Marx não está na motivação individual do trabalhador, mas sim na estrutura econômica e nas relações de poder inerentes ao capitalismo. A "Mais Valia" representa, para Marx, a exploração do trabalho, onde uma parte do tempo e do esforço do trabalhador não é remunerada e serve para enriquecer a classe capitalista.

            Embora ambos os pensadores abordem a dinâmica entre esforço e o que é "ganho" no trabalho, suas preocupações e análises são distintas:

- Foco: Gasset se concentra na psicologia da motivação individual e na ética do trabalho. Marx, por sua vez, analisa a estrutura econômica e a exploração de classes.

- Valor do Esforço: Para Gasset, o valor do esforço transcende a recompensa material; há um valor intrínseco na dedicação e no empenho. Para Marx, o esforço do trabalhador é a fonte de todo valor, mas parte desse valor é expropriada pelo capitalista através da "Mais Valia".

- Recompensa: Gasset critica a mentalidade de que o esforço só é válido se houver uma recompensa garantida. Marx analisa a recompensa (salário) como frequentemente inferior ao valor real do trabalho produzido, revelando uma desigualdade estrutural.

- Objetivo: A crítica de Gasset visa a uma postura mais engajada e menos calculista no trabalho. A análise de Marx visa desvelar os mecanismos de exploração e as contradições do sistema capitalista.

            Resumindo, enquanto Ortega y Gasset adverte contra uma motivação puramente extrínseca e imediatista no trabalho, Karl Marx desmascara o sistema em que o próprio esforço do trabalhador se torna a base para a acumulação de riqueza por outros, muitas vezes sem uma recompensa justa e proporcional. Suas perspectivas, embora distintas, oferecem insights valiosos sobre a complexa relação entre o que investimos no trabalho e o que dele obtemos, tanto em termos materiais quanto em realização pessoal.

            Para a gestão de pessoal em PMEs, a lição é clara: é crucial cultivar um ambiente onde o esforço seja valorizado em sua essência. Reconhecer o empenho, celebrar o aprendizado, oferecer oportunidades de crescimento que vão além da progressão hierárquica, e conectar o trabalho individual a um propósito maior são caminhos para construir equipes engajadas e resilientes. A recompensa, quando vier, será uma consequência natural de uma cultura que valoriza a dedicação e o comprometimento, e não o único motor que impulsiona a ação. Afinal, a mais valiosa recompensa muitas vezes reside na satisfação de superar desafios e na consciência do próprio crescimento.

            No fim das contas, que a gente se esforce por paixão (como diria Gasset), mas que a recompensa, ao menos, cubra a “mais valia” direitinho (com a bênção de Marx, só pra garantir o cafezinho).

 

 

 

 

 

 

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