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A DAMA DOS RELÓGIOS E O EMBATE ENTRE LUZ E SOMBRA.

  • Carlos A. Buckmann
  • 19 de jul. de 2025
  • 4 min de leitura

A DAMA DOS RELÓGIOS E O EMBATE ENTRE LUZ E SOMBRA.

            O cronista bartender enxugava as últimas gotas de orvalho da vitrine quando ouviu o tilintar suave da porta se abrindo. Dessa vez, quem adentrava o Café Entre Fluxos trazia o tempo não apenas nos passos, mas nos punhos e no pescoço, uma senhora de cabelos prateados, envolta em colares de relógios antigos, cada um marcando uma hora diferente

            - Preciso de um café que desacelere, disse, com um sorriso que parecia resistir ao desgaste dos séculos.

            O cronista preparou uma infusão lenta, extraída de grãos envelhecidos em barris de carvalho, envoltos por lendas do tempo. Enquanto a bebida se moldava ao aroma da conversa, a dama revelava que veio do ano de 1889, vinda diretamente de uma feira de invenções em Paris.

            - O tempo, caro cronista, não é linha nem ciclo, dizia, girando um dos relógios em seu colar.  É café. Puro, forte e imprevisível.

            E ali ficaram, embalados por acordes de um saxofone que tocava sem músico, vindo do canto do café onde os sons viajavam por fendas temporais.

            Quando partiu, deixou um relógio marcando a hora exata em que o cronista a viu pela primeira vez, 09h47, e com isso, um novo fluxo começava a se desenhar.

            O cronista bartender ainda sentia o aroma do tempo deixado pela Dama dos Relógios quando, entre um pensamento e outro, viu a porta se abrir. Reconheceu de imediato a imponência serena dos traços de Sêneca, envolto em túnicas leves e postura digna, seguido pelo semblante introspectivo e quase amargurado de Arthur Schopenhauer, como se o mundo o tivesse empurrado para dentro do café.

Antes mesmo de serem recebidos, os dois olharam em direções opostas...

            - Aquela mesa junto à janela, por favor, disse Sêneca, apontando com firmeza para o lugar onde a luz da manhã se derramava como esperança.

Schopenhauer estreitou os olhos:            - Luz demais perturba a verdade. Prefiro a penumbra do fundo. A claridade engana os sentidos.

O cronista, já intrigado, os deixou escolher, ou discutir.

            O café, em silêncio contemplativo, parecia saber que ali não se discutia apenas mesas, mas mundos. O cronista bartender, com a paciência de quem serve não só bebidas, mas instantes raros, observava Sêneca e Schopenhauer ocuparem a mesa central: um terreno neutro entre claridade e penumbra, como se fosse necessário um campo intermediário para que a razão e a vontade pudessem coexistir por uma manhã; sentaram-se próximos ao centro, entre luz e sombra, como dois polos de uma alma que hesita entre aceitar o mundo e resistir a ele.

            Sêneca pediu um chá cítrico com infusão de lavanda, enquanto lançava uma assertiva a seu companheiro de mesa:

            - Viver de acordo com a natureza, Arthur, é aceitar que somos parte de algo maior. A serenidade não vem da ausência de dor, mas do entendimento profundo da nossa condição. Os deuses não nos punem, somos nós que escolhemos sofrer por aquilo que não podemos controlar.

Schopenhauer rebateu, olhos cravados na xícara:

            - A natureza não tem interesse em nós, caro Lucius. Ela nos criou através da cegueira da vontade, e nos abandona à miséria do desejo incessante. O homem que compreende essa verdade não busca harmonia, busca a suspensão da dor. A vontade é um tirano invisível.

O cronista bartender começou a preparar uma bebida especial. Misturou elementos contrastantes: flor de laranjeira, pelo perfume estoico; e cacau amargo, pela densidade pessimista.

Sêneca, observando o preparo, comentou:

            - Tudo é efêmero. Inclusive o sofrimento. Nossa liberdade está na prática da virtude. Se aceitamos a transitoriedade, encontramos força.

Schopenhauer, quase mordaz, retrucou:

            - A virtude é uma ideia reconfortante, mas não elimina o absurdo. A arte, sim, nos eleva. Só quando contemplamos o belo podemos esquecer, ainda que por instantes, a tragédia de existir.

            O som de uma velha vitrola começou a girar por conta própria, entoando um trecho de Bach. A música, suspensa no ar do café, parecia fazer com que até o tempo hesitasse. Sêneca fechou os olhos por um momento:

            - E mesmo no absurdo, há beleza. Talvez concordemos nisso.

            - Em beleza, talvez. No mundo, jamais - disse Schopenhauer, com um suspiro resignado.

 

            - Arthur, há paz em aceitar o mundo como ele é. A natureza segue sua ordem, e nela, nosso espírito pode encontrar tranquilidade.

Schopenhauer, com seu café negro e amargo como sua visão, respondeu:

            - Paz é uma ilusão conveniente. Aceitar o mundo não é virtude, é resignação. A vontade nos devora. Desejar é sofrer. O sábio se retira do mundo e cultiva o desprezo silencioso por suas farsas.

Sêneca sorriu com leveza:

            - A dor é inevitável, mas não nos define. É na razão que encontramos refúgio. Somos livres na medida em que dominamos a nós mesmos.

            - E nessa pretensa liberdade vocês estoicos se tornam marionetes da razão, esquecendo que a vida pulsa no caos, retrucou Schopenhauer. - A arte, e não a razão, é o único consolo frente ao absurdo da existência.

            O filósofo bartender observava, encantado. A conversa tinha virado um embate entre um estoicismo luminoso e um pessimismo lírico. Copos tilintavam como sinos filosóficos, e o Café Entre Fluxos tornava-se mais uma vez o palco de encontros que atravessam séculos.

            Enquanto a luz mudava de ângulo e a sombra se alargava, ficou claro que, mesmo discordando, ambos estavam ali por uma razão comum: o desejo de compreender, apesar de tudo.

            No fim, o cronista os presenteou com o “Café Conciliador”: servido morno, sobre espuma de leite de cardamomo. E pela primeira vez, os dois brindaram, não à concordância, mas ao respeito entre ideias que, de tão diferentes, se tornavam essenciais uma à outra.

 

 

 
 
 

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