A CIÊNCIA E A DÚVIDA
- Carlos A. Buckmann
- há 5 dias
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A CIÊNCIA E A DÚVIDA
(Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)
O Café Entre Fluxos, naquela tarde, parecia suspenso entre eras. As mesas de madeira escura refletiam a luz pálida que entrava pelas janelas de vidro fosco, onde a chuva fina desenhava mapas efêmeros.
Os frequentadores habituais, o poeta das bancas de jornal, a senhora dos gatos, o rapaz que escreve cartas de amor para desconhecidos, todos pareciam mais silenciosos, como se o ar estivesse carregado de eletricidade filosófica.
Na vitrola, alguém colocara um disco de cravo, talvez Bach, mas as notas dançavam com o som distante de uma lira, criando um estranho contraponto entre o renascimento e a antiguidade.
Foi nesse ambiente que a porta se abriu para dois homens completamente díspares.
O primeiro trajava uma capa negra e tinha o olhar penetrante de quem dissecava a natureza como quem abre um corpo sobre a mesa. Reconheci-o pelos retratos que vira em livros: Francis Bacon, o filósofo inglês, o arauto da ciência moderna.
O segundo era uma figura mais frágil, com túnicas simples e sandálias empoeiradas, como se tivesse caminhado desde a Grécia antiga. Pirro de Élis.
O destino, mais uma vez, mostrava seu senso de humor.
Escolheram a mesa junto à janela, onde a chuva escorria em lágrimas preguiçosas. Aproximei-me para servir-lhes dois cálices de vinho, parecia mais apropriado do que café para almas tão densas. Bacon pediu um tinto encorpado; Pirro, água.
"A água não turva o pensamento", disse, com um sorriso enigmático.
“Então é verdade que os filósofos ainda existem, começou Bacon, com um sotaque carregado do inglês elisabetano. Esperava encontrar togas e debates na ágora, não neste... estabelecimento burguês.”
“Os lugares mudam, as perguntas permanecem, respondeu Pirro, molhando os lábios na água. Dizem que o senhor quer instaurar um novo método para conhecer a verdade. É isso? Conhecer a verdade?”
Bacon ergueu o cálice, observando a luz através do vinho.
“Conhecer a natureza para dominá-la. Meu ‘Novum Organum’ propõe algo simples: abandonar os ídolos que turvam nossa mente; os ídolos da tribo, da caverna, do foro, do teatro. Precisamos de observação metódica, experimentação. Só assim construiremos conhecimento sólido.”
“Sólido?” Pirro inclinou a cabeça, como um pássaro curioso. “E o que é sólido? O senhor observa, experimenta, mas seus sentidos mentem. A água que bebo parece fresca, mas se estivesse com febre, pareceria fria. O que é, então, a verdadeira temperatura?”
O cravo na vitrola deu lugar a uma peça mais melancólica, talvez de Albinoni.
Bacon franziu o cenho, mas não era homem de se deixar abater por objeções.
“Por isso precisamos de instrumentos, de medições. Não confio cegamente nos sentidos, mas na razão que os interpreta. Meu projeto é ambicioso: uma Grande Restauração do Saber. Classificar todas as ciências, estabelecer um método indutivo que leve do particular ao geral. Imagine, Pirro, um mundo onde dominemos a natureza, onde a medicina cure todas as doenças, onde a técnica prolongue a vida!”
“E depois?” perguntou Pirro, com a tranquilidade de quem já viu impérios desmoronarem. “O senhor cura o corpo, mas cura a angústia de saber que tudo é incerto? Meu mestre, ensinou-me que a única atitude sábia é a epoché, a suspensão do juízo. Não afirmamos nada, porque tudo pode ser contestado. Viver sem dogmas, sem certezas, é a verdadeira paz.”
Bacon riu, uma risada curta, quase seca.
“A paz da inércia! Se todos suspendêssemos o juízo, ainda estaríamos nas cavernas, temendo o trovão como ira dos deuses. Meu método é um farol na escuridão. Claro que é imperfeito, mas é um começo. O conhecimento avança por aproximações sucessivas. Uma verdade hoje pode ser superada amanhã, mas é melhor do que a estagnação.”
“Aproximações...” murmurou Pirro, traçando círculos na mesa com o dedo. “O senhor aproxima-se de quê? Da verdade? Mas se não sabe o que é a verdade, como saber que está mais perto? É como um homem num quarto escuro que procura um gato preto que talvez nem esteja lá.”
O silêncio caiu entre eles. Na mesa ao lado, o poeta das bancas de jornal ergueu os olhos, como se tivesse ouvido algo que lhe interessava. Aproveitei para me aproximar e servir mais vinho a Bacon, que aceitou distraidamente.
E o senhor, Pirro, continuei, ousando interromper, como viveu essa filosofia na prática? Dizem que foi tão longe na suspensão do juízo que só não caía em precipícios porque os amigos o seguravam.
Pirro sorriu, um sorriso de quem já ouviu essa história muitas vezes.
“Exageros, meu caro. A suspensão do juízo não é paralisia. Vivia como todos, comia, bebia, evitava carroças. Mas sabia que minhas opiniões eram apenas isso: opiniões. Não matava por elas, não morria por elas. Isso me dava uma liberdade que os dogmáticos nunca terão.”
Bacon tamborilou os dedos na mesa, impaciente.
“Liberdade para quê? Para nada! Minha filosofia também liberta, mas para agir. Meu ‘Ensaio sobre a Interpretação da Natureza’ é um chamado à ação. Conhecer para poder. O conhecimento é poder, Pirro. Poder para construir hospitais, navios, cidades.
“E para construir masmorras, instrumentos de tortura, bombas” replicou Pirro, sem elevar a voz. “O mesmo conhecimento que cura pode matar. O mesmo poder que liberta pode escravizar. O senhor fala em dominar a natureza, mas quem dominará os dominadores?”
Bacon pareceu refletir. Talvez nunca tivesse considerado essa objeção com tanta simplicidade.
“Por isso precisamos de filósofos, de ética. Meu projeto não é apenas técnico; é humano. Acredito que o conhecimento, bem orientado, levará à felicidade.”
“Felicidade...” Pirro suspirou. Os atenienses também acreditavam. E morreram pela pátria, pela glória, pelos deuses. Eu apenas digo: não tenham tanta certeza. A dúvida é o único refúgio contra a tirania das certezas.”
A conversa alongou-se pela tarde. Falaram de projetos: Bacon dos seus escritos inacabados, da esperança de fundar uma nova ciência; Pirro da sua escola em Élis, onde ensinava a arte de não ter opiniões. Falaram da sociedade do seu tempo: Bacon, sobre a Inglaterra de Isabel I, as perseguições religiosas, a necessidade de ordem; Pirro, sobre a Grécia pós-Alexandre, o caos dos reinos helenísticos, a busca por serenidade num mundo em frangalhos. Discordavam em quase tudo, mas havia um respeito crescente entre eles, como se cada um reconhecesse no outro a mesma paixão pela verdade, ainda que a definissem de modos opostos.
Quando a noite começou a cair, e as velas foram acesas sobre as mesas, levantei-me para perguntar:
Mestres, e hoje? Vivemos num mundo onde a ciência de Bacon criou maravilhas e horrores. Temos a bomba atômica e a edição genética. E a dúvida de Pirro? Ela sobrevive? As pessoas hoje duvidam de tudo, mas não por filosofia, por cinismo. Negam fatos, abraçam teorias da conspiração, chamam "verdade" ao que lhes convém. O que diriam?
Bacon franziu o cenho.
“Isso não é dúvida metódica, é preguiça intelectual. Meu método exige rigor, não desleixo. Hoje as pessoas querem os resultados da ciência sem o trabalho da ciência.”
“E a dúvida sem método, acrescentou Pirro, é apenas confusão. Eu ensinava a suspender o juízo para alcançar a ataraxia, a imperturbabilidade. Hoje suspendem o juízo e ficam perturbados, ansiosos, perdidos. Não aprenderam a lição.”
Levantaram-se quase ao mesmo tempo. Bacon deixou uma moeda de ouro sobre a mesa, um gesto de grandeza. Pirro deixou um raminho de oliveira, que tirou do bolso da túnica. Despediram-se com um aperto de mão, Bacon firme, Pirro leve, e desapareceram na noite chuvosa.
Fiquei a olhar para os objetos que deixaram: a moeda e o ramo. Símbolos perfeitos. Um representava o poder, o conhecimento que conquista; o outro, a paz, a sabedoria que duvida.
E pensei na história, nesses dois milénios que separam esses homens, e em como a humanidade continua a oscilar entre a certeza e a dúvida, sem jamais encontrar o equilíbrio.
Bacon sonhou com o domínio da natureza, e hoje dominamos tanto que podemos destruir o planeta; Pirro sonhou com a suspensão do juízo, e hoje suspendemos tanto que já não distinguimos fato de ficção. E nós, aqui, neste Café Entre Fluxos, servimos a fantasmas que insistem em nos lembrar do que esquecemos.
No meu livro de guardanapos, escrevi a frase que Pirro murmurou ao sair, como quem não quer acreditar, mas precisa dizer:
"A única coisa que sei é o que a ‘epoché’ me ensinou: que em vez de afirmarmos ou negar algo com certeza, deveríamos simplesmente não nos pronunciar. mas hoje, ao que parece, ninguém quer saber de mais nada, precisa se pronunciar."




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