A CHAVE QUE GUARDA O QUE NÃO SE PERDE
- Carlos A. Buckmann
- 17 de jun.
- 5 min de leitura

A CHAVE QUE GUARDA O QUE NÃO SE PERDE (*)
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
Milton Nascimento e Fernando Brant construíram uma das parcerias mais fecundas da música brasileira, mais de duzentas canções, segundo alguns registros.
Mas Canção da América, composta em 1979, tem uma gênese particular.
Tudo começou em Los Angeles, onde Milton gravava o álbum “Journey To Dawn”. Lá, encontrou o músico sul-africano Ricky Fataar, que dividia com ele o mesmo estranhamento diante daquela cidade de vidro e asfalto, onde "todo mundo só andava de carro, ninguém visitava ninguém".
Nasceram conversas, passeios, uma amizade breve mas intensa. Quando Milton retornou a Los Angeles, desta vez com Brant, tentou reencontrar o amigo. Não conseguiu. Fataar havia sumido, ninguém sabia onde estava.
Sentado no quarto, sozinho, Milton compôs em inglês uma canção chamada “Unencounter”, um neologismo para "desencontro". Brant, então, verteu a letra para o português, mantendo a alma, e batizou-a de “Canção da América”.
Voltemos à amizade. O cronista, que já atravessou desertos e avenidas, sabe que há bens que o tempo não corrói. Não são coisas, são laços. E “Canção da América” é, antes de tudo, uma meditação sobre esse paradoxo: como guardar o que é feito de encontro, de voz, de presença, quando a própria vida insiste em nos dispersar?
A filosofia, com suas categorias e sistemas, muitas vezes se perde diante desse mistério. É preciso então deixar a canção falar. É preciso ouvir cada estrofe como quem ouve uma sentença ancestral.
“Amigo é coisa pra se guardar / Debaixo de sete chaves / Dentro do coração”
O verso inaugural já instaura uma ontologia da amizade. Amigo não é pessoa, é "coisa" mas coisa no sentido mais nobre: objeto de cuidado, tesouro que exige custódia.
Sete chaves, número bíblico da plenitude, sugerem que o guardar não é casual, mas ritual. E o cofre não é de metal: é o coração.
Ecoa Santo Agostinho, que escreveu nas “Confissões”: "Inquietum est cor nostrum, donec requiescat in te", (inquieto está nosso coração até que descanse em Ti). Mas, na canção de Milton, o coração não descansa em Deus; descansa no amigo. A amizade torna-se o lugar da morada interior, o santuário onde o outro habita sem pedir licença.
“Assim falava a canção / Que na América ouvi / Mas quem cantava chorou / Ao ver seu amigo partir”
A canção é memória de uma canção anterior. Trata-se de uma tradição oral que atravessa o continente, uma sabedoria anônima que o eu-lírico recolheu em sua viagem.
Mas o ato de cantar não é neutro: quem cantava chorava. Por quê? Porque a canção só se torna verdadeira quando a perda a confirma. A imagem do passado escapa como um relâmpago no instante em que pode ser apreendida. A partida do amigo é esse relâmpago: ela ilumina retroativamente o que a amizade sempre foi, um bem que só se revela plenamente quando ameaçado de extinção.
“Mas quem ficou / No pensamento voou / Com seu canto que o outro lembrou / E quem voou / No pensamento ficou / Com a lembrança que o outro cantou”
Eis o núcleo metafísico da canção. A separação não é binária, ficar versus partir, mas uma dobra ontológica. Quem fica voa no pensamento; quem voa fica na lembrança. A física clássica não dá conta disso; a mecânica quântica talvez se aproxime: duas partículas que interagiram permanecem entrelaçadas, não importa a distância.
Lévinas diria que o rosto do outro nos convoca para além da presença física; a amizade é uma ética da alteridade que resiste ao espaço e ao tempo.
O pensamento voa, a lembrança canta, e nesse voo e nesse canto, a ausência se torna uma forma de presença mais pura, porque despojada de carne, mas plena de significado.
“Amigo é coisa pra se guardar / No lado esquerdo do peito / Mesmo que o tempo e a distância / Digam não”
O lado esquerdo do peito: onde fica o coração, claro. Mas também onde, segundo a tradição, se aloja a alma. Guardar ali é tornar o amigo órgão de si mesmo. Não é metáfora, é uma afirmação quase anatômica.
O tempo e a distância são forças entrópicas que tendem ao esquecimento; elas "dizem não" à permanência. Mas a amizade, como a fé de que falava Kierkegaard, é um salto no escuro: ela afirma apesar de, ela guarda contra a evidência.
O filósofo estoico Sêneca, em suas “Cartas a Lucílio”, que é meu livro de cabeceira, escreveu que a amizade verdadeira não exige a presença corporal; o amigo está conosco onde quer que estejamos, porque o pensamento o convoca. Milton e Brant parecem ter lido Sêneca, ou talvez tenham aprendido a mesma lição na dura poesia das estradas mineiras.
“Mesmo esquecendo a canção / O que importa é ouvir / A voz que vem do coração”
A canção pode ser esquecida, a letra, a melodia, os acordes. Mas a voz que vem do coração não se apaga. Ela é o que resta quando todo o resto se desfaz.
É o que os místicos chamam de “núcleo” da alma, o ponto onde o divino e o humano se tocam.
Plotino, o filósofo neoplatônico, falava do Uno como uma fonte de luz da qual toda alma participa. A voz do coração é essa participação: não é individual, é relacional. Ela é o eco do outro em mim, e de mim no outro. Quando a ouço, não estou apenas escutando uma memória. Estou reatualizando o encontro. Estou, como dizia o poeta espanhol Antonio Machado, "caminhando, se hace el camino"
E o caminho da amizade se faz ouvindo.
Retorno, então, àquela tarde em Los Angeles, ao quarto de hotel, à solidão de Milton diante do telefone que não tocava. O que ele fez? Compôs. Não para preencher o vazio, mas para habitá-lo.
A música não substitui o amigo ausente; ela o transforma em presença audível. E Fernando Brant, ao traduzir a letra, não apenas verteu palavras, verteu almas. Tornou a canção brasileira, americana, universal. Porque a amizade, como a filosofia, não tem pátria. Ela é, como disse Cícero em “Da Amizade”, "uma concordância de vontades, sentimentos e opiniões" que transcende qualquer geografia.
O cronista, ao escutar “Canção da América”, não pensa em um amigo específico, pensa em todos. Em cada despedida que ficou sem abraço, em cada reencontro que o destino adiou. E aprende, com Milton e Brant, que guardar não é prender; é libertar o outro para que ele possa existir em nós, mesmo quando o mundo insiste em dizê-lo distante.
Porque, no fim, o que importa não é a canção que se lembra, mas a voz que se ouve. E essa voz, vinda do lado esquerdo do peito, é a prova de que a amizade é indestrutível, não porque desafie a morte, mas porque a transforma em memória, e a memória em canto.
E o canto é infinito.
(*) Assista o clipe no YouTube:




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