top of page

A CEIFA E O CAMPO LIVRE

  • Carlos A. Buckmann
  • 28 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

A CEIFA E O CAMPO LIVRE

            Este ano de 2025, ainda não findado, faltando pouco mais de trinta dias para que o calendário se feche como um livro cansado, já se revelou de grande safra para a senhora negra da foice.

            A Morte, com seu passo silencioso e sua lâmina afiada no tempo, ceifou nomes cujas vozes ecoavam em nossos ouvidos como promessas de eternidade. Cada um deles, à sua maneira, fez da arte um espaço de resistência, de beleza e de verdade. Justamente por isso tornaram-se alvos inevitáveis daquela que tudo iguala.

            Luís Fernando Veríssimo, escritor e jornalista, um dos maiores cronistas do Brasil, notável pelo humor e pela agudeza em suas crônicas diárias, além de cartunista e músico. Autor de obras como O Analista de Bagé e Comédias da Vida Privada.            Preta Gil, cantora, atriz e empresária, construiu uma carreira marcada pela diversidade musical e pelo ativismo em causas como a luta contra o preconceito e a valorização da pluralidade.

            Arlindo Cruz, cantor e compositor, figura central do samba brasileiro, fundador do grupo Fundo de Quintal, deixa um legado de canções que se tornaram hinos do gênero.

            Nana Caymmi, filha de Dorival Caymmi, intérprete de voz poderosa e profunda, gravou sucessos como Resposta ao Tempo e Cais.Dorinha Duval, atriz lembrada por seus papéis na televisão e no cinema, eternizada como a icônica Cuca na primeira versão do Sítio do Picapau Amarelo (1977).

            Sebastião Salgado, fotógrafo documental de renome mundial, conhecido por projetos de grande escala como Gênesis e Trabalho, registrando a humanidade e o planeta em preto e branco.

            Lúcia Alves, veterana da teledramaturgia brasileira, atuou em novelas icônicas como Irmãos Coragem e Barriga de Aluguel.

            Ângela Ro Ro, ícone da MPB, dona de voz rouca e personalidade intensa, marcou gerações com canções como Amor, Meu Grande Amor e Escândalo.

            Hermeto Pascoal, gênio da música universal, apelidado de “O Bruxo”, notável por transformar objetos inusitados em instrumentos e por sua improvisação no jazz e na música instrumental.

Jards Macalé, artista original e influente da MPB, transitou entre o rock e o experimentalismo, colaborando com nomes como Gal Costa.

            Na esperança de que a dama negra nos conceda uma trégua neste fim de ano, recordo a frase de Michel de Montaigne, escrita no século XVI em seus Ensaios, com rara lucidez:

            “A vida em si não é nem bem nem mal, é o lugar do bem e do mal, conforme nela o fazeis. (...) Todos os dias levam a morte, o último atinge-a.”

            Montaigne, senhor do castelo de Saint-Michel-de-Montaigne, ex-magistrado e leitor voraz dos antigos, retirou-se do mundo para observá-lo de perto, não com a pretensão de julgá-lo, mas de compreendê-lo. Seus escritos são espelhos côncavos da condição humana: neles vemos a fragilidade, a contradição, o desejo e o medo, sobretudo o medo da finitude.

            Esse pensamento, longe de ser solitário, ecoa em vozes diversas. Sêneca via na morte a mestra da vida. Spinoza considerava a liberdade o entendimento da necessidade. Camus nos exortava a imaginar Sísifo feliz, mesmo sabendo que sua rocha sempre voltaria a rolar.

            Todos, a seu modo, concordam: a vida não é dada com valor absoluto. É um campo aberto, neutro, onde plantamos o que somos e colhemos o que fizemos crescer.

            E por que, então, tantos vivem em constante terror diante da morte?

            Talvez porque, incapazes de suportar a neutralidade do existir, buscam significados pré-fabricados, verdades imutáveis, promessas de vida além do fim.

            As religiões, com seu olhar atento às rachaduras da alma humana, souberam explorar essa angústia com maestria. Ofereceram céus, recompensas, castigos e redenções. Em troca, exigiram obediência, silêncio, submissão. Ao longo dos séculos, impérios se ergueram sob cruzes, meias-luas e mantras. Povos inteiros foram domados não pela espada, mas pela promessa de que a dor teria sentido, desde que aceita sem questionar.

            Mas há quem tenha ousado viver sem essa muleta.

            Basta olhar para a Estônia, pequeno país báltico que, após décadas de ocupação e opressão ideológica, escolheu trilhar seu próprio caminho. Hoje, mais de 70% da população se declara sem religião. Em alguns casos, igrejas que perderam sua congregação ou foram danificadas foram adaptadas para outros fins, preservando sua estrutura e valor histórico. Não por decreto, mas por escolha consciente. Paradoxalmente, ou talvez não, a Estônia figura entre as nações com maior Índice de Desenvolvimento Humano, com educação laica de excelência, liberdade de expressão irrestrita e respeito radical à autonomia individual. Lá, a morte não é negada nem instrumentalizada. É simplesmente parte do ciclo, como a neve que cai e o sol que retorna.

            Nosso mundo precisa de mais “Estônias” para poder sobreviver.

            Volto, então, à frase de Montaigne. Se a vida é apenas o lugar onde o bem e o mal acontecem, nossa responsabilidade não é esperar recompensas póstumas, mas agir com lucidez aqui e agora.

            A existência humana, em sua essência, é ambígua, passageira e profundamente livre. Não há roteiro divino nem julgamento final, apenas a escolha cotidiana do que faremos com o tempo que nos é dado.

            E se todos os dias levam à morte, que seja com a consciência de que o último dia não nos definirá. Serão todos os outros que terão contado a história de quem fomos.

            A foice da Morte corta igualmente, mas o campo onde plantamos nossos gestos, esse sim, é inteiramente nosso.

 

 

 
 
 

Comentários


CONTATO

Porto Alegre, RS 

​​

Tel: (51) 9 9259-6364

Skype: betobuckmann​

betobuckmann@yahoo.com.br

Nós recebemos a sua mensagem, aguarde contato.

  • LinkedIn - Círculo Branco
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - Círculo Branco

© 2023 por Hugin. Criado orgulhosamente com Wix.com

bottom of page