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A CEGUEIRA QUE VÊ

  • Carlos A. Buckmann
  • 16 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

A CEGUEIRA QUE VÊ, MAS NÃO ENXERGA

            Temos olhos e, mesmo assim, andamos às escuras.

            Nossos olhos registram formas, cores, movimentos; capturam imagens com precisão quase mecânica.

            Mas o olhar, esse, não. O olhar é escolha. É intenção. É abertura. E é possível ter a retina intacta e o coração cego. É possível ver tudo e não enxergar nada. 

            Foi isso que José Saramago nos revelou com a força de um profeta laico em “Ensaio sobre a Cegueira”: a pior cegueira não é a que apaga a luz do mundo, mas a que nos impede de reconhecer o que está diante de nós, o sofrimento alheio, a beleza efêmera, a própria humanidade do outro. Essa cegueira não é física; é mental, ética, existencial. É a recusa em ver além do que já decidimos ver. É o julgamento que fecha a porta antes mesmo de ouvir a batida.

            A visão metafórica, a capacidade de perceber com profundidade, de interpretar com empatia, de reconhecer o outro como sujeito e não como obstáculo, é o que nos torna verdadeiramente humanos. Sem ela, somos meros espectadores armados de opiniões, incapazes de tocar o real. E, pior: incapazes de nos tocar a nós mesmos. Porque quem não vê o outro, também não se vê. Quem reduz o mundo a estereótipos, reduz a si mesmo a uma sombra.

            A psicologia há muito estuda essa “cegueira cognitiva”. 

            Daniel Kahneman, em “Rápido e Devagar” (livro que recomendo), mostra como nossos vieses inconscientes nos levam a julgar com base em atalhos mentais, muitas vezes injustos.

            Já Carl Rogers insistia que a empatia, a capacidade de “entrar no quadro de referência do outro”, é condição essencial para qualquer relação autêntica.

            Do lado da psiquiatria, Irvin Yalom observa que muitos conflitos humanos nascem não da maldade, mas da incapacidade de ver o outro em sua totalidade.

            E Bessel van der Kolk acrescenta: “quando estamos presos em nossos próprios traumas, perdemos a capacidade de perceber o presente e, com ele, o outro.”

            A filosofia moderna, por sua vez, nunca deixou de alertar contra essa cegueira voluntária.

            Emmanuel Levinas via no rosto do outro um apelo ético inadiável: “Tu não matarás” não é um mandamento, mas uma revelação, o rosto me diz: “sou vulnerável, não me reduzas a objeto”.

            Hannah Arendt, ao analisar o totalitarismo, mostrou como a banalização do mal começa justamente com a recusa em pensar, e em ver.

            E Merleau-Ponty lembrava que “ver é entrar em comunhão com o visível”. Não há olhar verdadeiro sem presença, sem abertura, sem risco de ser transformado pelo que se vê.

            É nesse cruzamento entre clínica sensível e ética filosófica que a psicofilosofia encontra seu lugar. Para ela, enxergar não é apenas perceber, é “reconhecer”. Reconhecer o outro em sua alteridade, sim; mas também reconhecer a si mesmo em suas sombras, seus preconceitos, suas recusas. A psicofilosofia propõe exercícios de “descegueiramento”: parar antes de julgar, escutar sem interromper, perguntar antes de concluir. Usa o diálogo socrático não para vencer, mas para desarmar, a si mesmo, primeiro. Porque a verdadeira visão começa quando admitimos que talvez não estejamos vendo.

            Em nossa era de polarização, de bolhas algorítmicas, de discursos que só confirmam o que já acreditamos, essa prática é revolucionária.

             A psicofilosofia nos lembra que o mundo não é o que vemos, é o que “permitimos ver”. E que, muitas vezes, o que temos à frente, um mendigo na rua, um colega em silêncio, um estranho com olhos úmidos, não é um incômodo, mas um espelho. Um convite à humanidade.

Então, abra os olhos, não os da face, mas os da alma.

            Desconfie das certezas rápidas. Interrompa o julgamento automático. Pergunte: “O que estou deixando de ver?”

Porque a cegueira mental não é destino, é escolha. E a visão, mesmo em tempos sombrios, é um ato de coragem.

            Saramago não nos deu um conto de horror, nos deu um espelho. E, nele, vemos não monstros, mas a nós mesmos. Resta-nos, então, escolher: continuaremos a andar cegos, mesmo com os olhos abertos? Ou ousaremos enxergar, de verdade, o que está diante de nós? 

            A cura do mundo começa quando paramos de ver o outro como ameaça… e começamos a vê-lo como possibilidade.

 
 
 

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