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A CEGUEIRA DA INCOMPREENSÃO

  • Carlos A. Buckmann
  • 13 de abr. de 2025
  • 6 min de leitura

A CEGUEIRA DA INCOMPREENSÃO.

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) foi um gigante da literatura alemã, um polímata que transitou com maestria pela poesia, drama, romance, filosofia, ciência e até mesmo pela política. Sua vasta obra, que inclui clássicos como "Os Sofrimentos do Jovem Werther" e "Fausto", reflete uma mente inquisitiva e uma profunda observação da natureza humana e do mundo ao seu redor. Em meio a essa riqueza de pensamento, emerge a lapidar frase: "Só vemos o que entendemos, e o que não entendemos deixamos de ver".

A filosofia por trás dessa afirmação “goethiana” reside na intrínseca ligação entre a percepção e a cognição. Não somos meros receptores passivos de estímulos sensoriais; nossa mente atua como um filtro, interpretando e dando significado ao que captamos. O entendimento prévio, o conhecimento acumulado, as experiências vividas e até mesmo nossas crenças e preconceitos moldam a maneira como enxergamos o mundo. Aquilo que ressoa com nosso universo mental, aquilo que conseguimos conectar com o que já sabemos, ganha nitidez e relevância. O que nos é estranho, o que desafia nossas categorias de pensamento, tende a permanecer na penumbra, ignorado ou simplesmente não percebido em sua plenitude.

            Essa dinâmica influencia profundamente o mundo individual de cada ser humano. Nossas bolhas de conhecimento e convicções podem nos aprisionar em visões estreitas, recortadas da realidade. Diálogos se tornam difíceis quando as partes envolvidas operam sob diferentes marcos de compreensão. Julgamentos apressados e estereótipos florescem quando a falta de entendimento impede uma visão mais profunda e empática do outro. Deixamos de ver nuances, complexidades e até mesmo oportunidades por estarmos limitados pelas fronteiras do nosso próprio entendimento.

            No mundo dos negócios, a filosofia de Goethe se manifesta de diversas formas. Empresas podem falhar ao não perceberem mudanças no mercado ou novas demandas dos consumidores por estarem presas a modelos mentais obsoletos. Líderes podem ignorar o potencial de suas equipes por não entenderem diferentes estilos de trabalho ou perspectivas inovadoras. A cegueira da incompreensão pode levar a decisões equivocadas, perda de competitividade e até mesmo ao fracasso. A inovação, por sua vez, muitas vezes surge da capacidade de "ver" o que antes era invisível, de questionar o estabelecido e de expandir os horizontes do entendimento.

            No turbilhão do mundo empresarial, onde ideias florescem e estratégias se entrelaçam, existe uma linguagem fundamental, muitas vezes silenciosa, mas de poder inegável: a dos números. Por isso trago comigo essa  assertiva "Seu negócio é feito e gerido por números. Se você não conhece seus números, você não conhece seu negócio", o que  ecoa como um axioma inquestionável, um farol a guiar os empreendedores em meio à complexidade do mercado.

            Essa afirmação transcende a mera contabilidade ou a elaboração de planilhas. Ela mergulha na essência da compreensão da própria engrenagem que move a empresa. Os números não são apenas registros frios de transações passadas; eles são a representação tangível da saúde presente e das projeções futuras do negócio. Ignorá-los é navegar em águas turvas, sem bússola ou mapa, à mercê de ventos incertos e de rochas invisíveis.

            Conhecer os números do seu negócio implica em decifrar a história que eles contam. O faturamento revela o volume de vendas e a aceitação dos produtos ou serviços no mercado. O custo de produção expõe a eficiência operacional e a margem de lucro bruta. As despesas fixas e variáveis detalham a estrutura de custos e a capacidade de geração de caixa. O fluxo de caixa, por sua vez, escancara a dinâmica financeira, a capacidade de honrar compromissos e de investir no crescimento. Indicadores de desempenho (KPIs) específicos para cada área, como o custo de aquisição de clientes (CAC), o tempo de vida do cliente (LTV) e a taxa de conversão, oferecem insights valiosos sobre a eficácia das estratégias implementadas.

            Um gestor que desconhece esses números opera na penumbra da intuição e do palpite. Suas decisões, desprovidas de uma base factual sólida, tornam-se vulneráveis a erros custosos. A falta de visibilidade sobre a rentabilidade de um produto específico pode levar a investimentos equivocados. A ignorância sobre o ciclo de recebimento e pagamento pode culminar em problemas de fluxo de caixa e até mesmo na insolvência. A ausência de acompanhamento dos custos pode corroer as margens de lucro, comprometendo a sustentabilidade do negócio a longo prazo.

            Em contrapartida, o domínio dos números capacita o empreendedor a tomar decisões mais assertivas e estratégicas. Ao analisar o desempenho financeiro, é possível identificar gargalos operacionais, otimizar processos, precificar produtos de forma competitiva e rentável, e alocar recursos de maneira eficiente. O conhecimento dos números permite antecipar tendências, identificar oportunidades de crescimento e mitigar riscos. É como ter um raio-x da empresa, revelando sua estrutura interna, seus pontos fortes e suas vulnerabilidades.

            No contexto da frase de Goethe ("Só vemos o que entendemos, e o que não entendemos deixamos de ver"), a aplicação é direta. Os números são a linguagem do negócio. Se o gestor não a compreende, ele simplesmente não consegue "ver" a realidade da sua empresa em sua totalidade. Ele pode estar focado em indicadores superficiais ou em percepções subjetivas, perdendo de vista os sinais cruciais que os números revelam. A falta de familiaridade com os dados financeiros e operacionais impede uma análise profunda e uma compreensão holística do desempenho e do potencial do negócio.

            Portanto, a imersão no universo dos números não é uma tarefa exclusiva da área financeira. Ela deve permear toda a cultura da empresa, envolvendo gestores de todas as áreas. Compreender os indicadores relevantes para o seu setor de atuação, acompanhar métricas de desempenho e utilizar os dados como base para a tomada de decisões são práticas que transformam a gestão de um exercício de adivinhação em uma ciência aplicada.

            Em última análise, conhecer os números do seu negócio é conhecer a sua alma, entender o seu ritmo e antecipar os seus desafios. É munir-se das ferramentas necessárias para navegar com segurança no complexo e dinâmico ambiente empresarial, pavimentando o caminho para o crescimento sustentável e o sucesso a longo prazo. A ignorância numérica, por outro lado, é uma forma de cegueira empresarial, que inevitavelmente conduz a decisões equivocadas e, em muitos casos, ao naufrágio do empreendimento.

 

            É nesse ponto que a obra de José Saramago, em “Ensaio sobre a Cegueira”, ganha uma perturbadora ressonância. A epidemia de cegueira branca que assola a cidade não é apenas uma perda da visão física, mas também uma metáfora para a cegueira moral e a perda da capacidade de compreender e se importar com o outro. A desumanização que se instala entre os cegos revela o quão frágil é nossa capacidade de "ver" a humanidade alheia quando o entendimento e a empatia se esvaem. A barbárie que emerge da cegueira física espelha a barbárie que pode surgir da cegueira da incompreensão.

            No entanto, nem tudo está perdido. Existem saídas para essa cegueira que nos impede de ver o mundo em sua totalidade. A primeira delas é a busca constante pelo conhecimento e pela abertura a novas perspectivas. Ler, aprender, dialogar com pessoas que pensam diferente, viajar e se expor a novas culturas são formas de expandir nosso repertório de entendimento e, consequentemente, nossa capacidade de ver. A humildade intelectual, o reconhecimento de que nosso conhecimento é sempre limitado e passível de revisão, é fundamental para romper as barreiras da incompreensão.

            É nesse contexto que a inspiradora frase de Leonardo Boff ecoa como um chamado à ação: "...Faz-se mister construir uma nova ótica que nos abra para uma nova ética; colocar sobre nossos olhos uma nova lente para fazer nascer uma nova mente". A "nova ótica" e a "nova lente" representam a necessidade de um esforço consciente para questionar nossos pressupostos, para desenvolver a empatia e para cultivar uma mente aberta e curiosa. Essa transformação na nossa maneira de ver o mundo é o pré-requisito para uma ética mais inclusiva, compassiva e justa.

            Para encerrar, a frase de Goethe nos lembra da profunda interdependência entre ver e entender. A cegueira da incompreensão nos priva da riqueza e da complexidade do mundo ao nosso redor, limitando nosso potencial individual e coletivo. A reflexão sobre a obra de Saramago nos alerta para os perigos da perda da empatia e da desumanização que podem surgir dessa cegueira. Contudo, a visão de Boff nos oferece um caminho de esperança, um convite à construção de uma nova forma de olhar, capaz de gerar um novo entendimento e, consequentemente, um mundo mais humano e consciente. A jornada para enxergar verdadeiramente passa, inevitavelmente, pela coragem de aprender e de compreender.

 

 
 
 

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