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A BELEZA QUE CURA

  • Carlos A. Buckmann
  • 4 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

A BELEZA QUE CURA

            Há uma quietude que fala mais alto que qualquer discurso. Um gesto simples, uma xícara de chá oferecida sem pressa, uma toalha dobrada com cuidado, uma música tocada não para aplausos, mas para acalmar, pode conter mais sabedoria terapêutica do que mil sessões de análise vazias de presença.

            É nesse território quase invisível que habita o Shinsetsu, palavra japonesa que designa a gentileza genuína, desinteressada, quase sagrada em sua simplicidade. Não é cortesia protocolar, nem empatia instrumentalizada. É um modo de estar no mundo que reconhece a dignidade do outro, e, ao fazê-lo, restaura a própria.

            A psicofilosofia, em sua busca por formas de cuidado que não sejam clínicas nem distantes, encontra no Shinsetsu uma de suas mais puras expressões:*a cura como ato estético e ético do cotidiano.

            A psicologia contemporânea, especialmente nas correntes humanistas e existenciais, já reconhece o poder terapêutico do “estar com”.

            Carl Rogers falava da “consideração positiva incondicional” como condição para o crescimento pessoal, eco claro do Shinsetsu.

            Já a psiquiatria, em suas práticas mais sensíveis, observa como pequenos rituais de acolhimento, um ambiente acolhedor, um olhar atento, uma escuta sem interrupção, reduzem significativamente a angústia do paciente.

             Viktor Frankl, em meio ao horror dos campos de concentração, testemunhou que até um gesto mínimo de humanidade podia devolver sentido à existência.

            E a psicologia positiva, embora criticada por seu otimismo às vezes superficial, acerta ao destacar que “micro experiências de beleza e conexão” são fundamentais para a resiliência.

            Mas nenhuma dessas abordagens vai tão longe quanto o Shinsetsu: porque ele não visa “melhorar” o outro, mas simplesmente reconhecê-lo como digno de cuidado.

            A filosofia ocidental, por muito tempo obcecada com o grandioso, o heroico, o transcendente, negligenciou o cotidiano.

            Mas vozes como as de Emmanuel Levinas e Simone Weil resgataram a ética do gesto mínimo. Para Levinas, a responsabilidade ética nasce no rosto do outro, não em teorias, mas no encontro concreto. Weil via na atenção plena, ao outro, ao trabalho, ao silêncio, uma forma de oração laica, quase mística.

            Já os “fenomenólogo”, como Merleau-Ponty, mostraram que o corpo sabe o que a razão demora a entender: que um toque, um olhar, um espaço bem cuidado são modos de linguagem que curam.

            E não podemos esquecer Heidegger, quando escreveu que “habitar é cuidar”, não apenas de objetos, mas do mundo como morada comum. Nessa tradição, a beleza cotidiana não é ornamento: é revelação do ser.

            Nesse encontro entre a ética do cuidado oriental e a fenomenologia do cotidiano ocidental, é que a psicofilosofia se nutre. Ela não vê a terapia como algo que acontece apenas em consultórios, mas como uma postura existencial: “a capacidade de transformar o ordinário em espaço de cura”.

            Uma mesa posta com atenção não é apenas refeição, é afirmação de que a vida merece ser celebrada, mesmo em tempos sombrios. Uma música tocada ao entardecer não é entretenimento, é oferenda sonora que diz: “Você não está só.” Um gesto gentil não é estratégia, “é ato de resistência contra a desumanização”.

            Incorporar o Shinsetsu à psicofilosofia é, portanto, mais do que adotar uma prática, é assumir uma ética da delicadeza. É entender que cuidar não exige grandiosidade, mas presença. Que curar não depende de diagnósticos, mas de reconhecimento. Que a beleza não precisa ser rara, basta ser verdadeira.

            Neste mundo acelerado, fragmentado, onde o cuidado foi transformado em serviço e a empatia em performance, a psicofilosofia propõe algo revolucionariamente simples: “voltar a cuidar com as mãos, com os olhos, com o silêncio”.

            Em tempos de solidão epidêmica e esvaziamento relacional, essa ciência híbrida nos lembra que a cura muitas vezes está na xícara quente, na flor colocada sem motivo, na porta segurada para o próximo, gestos que não curam           a dor, mas devolvem ao outro “o direito de ser humano”.

Você que acha que nada do que faz importa, está equivocado: Importa. 

            Cada gesto atento é um ato de amor filosófico. 

            Não subestime a força de uma palavra dita com calma, de um espaço limpo com carinho, de um silêncio compartilhado sem pressa. 

            Porque o mundo não será salvo por grandes discursos, mas por pequenos atos de Shinsetsu, repetidos, cotidianos, obstinadamente gentis. 

            A psicofilosofia não pede que você mude o mundo.  Apenas que você cuide dele, um gesto de beleza por vez. 

            E nisso, já estará curando a si mesmo e a todos ao seu redor.

 
 
 

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